Daniel Thioune foi escolhido para o cargo de técnico do Hamburgo. A sua responsabilidade é enorme: levar um dos maiores e mais tradicionais clubes da Alemanha de volta à primeira divisão, depois de dois anos de frustração na segundona. O que chama a atenção é o técnico foge do perfil tradicional de treinadores da equipe do norte alemão. Aos 45 anos, ainda é jovem e tem em seu currículo um só trabalho, a ascensão do Osnabrück da terceira para a segunda divisão e a manutenção do clube na 2 Bundesliga. E tem um aspecto que o torna ainda mais raro: ele será um dos raros treinadores negros no país.

É importante entender o tamanho do peso que um clube como o Hamburgo carrega em uma situação de crise, como vive há anos. O clube foi campeão na Bundesliga nos aos 1970 e 1980. Foi campeão em 1978/79, 1981/82 e 1982/83. Além disso, conquistou também a Recopa, em 1976/77, além da Copa Europeia, predecessora da Champions League, em 1982/83 – o que levaria o clube ao Mundial daquele ano, derrotado pelo Grêmio de Renato Portaluppi. Ainda ganharia o título da Copa da Alemanha em 1986/87, o último troféu relevante.

Só que a história de conquistas ficou para trás. Depois de anos sendo ameaçado pelo rebaixamento, o Hamburgo enfim acabou caindo em 2017/18 ao termina a temporada em 17º lugar, entre 18 clubes. Havia a expectativa que ele voltasse já no primeiro ano, mas o clube acabou em quarto na última rodada e nem conseguiu um lugar nos playoffs. Nesta temporada, o clube flertou com o acesso direto, mas na última rodada, precisava só de um empate. Acabou tomando uma goleada, como Leandro Stein contou neste texto.

O fracasso levou à demissão do técnico Dieter Hecking, de 55 anos, com uma carreira mais longa em clubes inclusive de primeira divisão. A escolha de Daniel Thioune é um momento marcante na história não só do Hamburgo, mas do futebol alemão. Ao clube, porque escolhe um nome que passa longe dos anteriores em termos de experiência, mas vem de um trabalho bastante impressionante. Ao futebol alemão porque um alemão, negro, que assuma um cargo tão importante em um clube do tamanho do Hamburgo é muito representativo.

Em um momento que se fala muito sobre o racismo e a campanha Black Lives Matter ganhou mais força ainda, é importante tratar de algo que incomoda: é muito raro termos negros técnicos em qualquer grande liga do mundo. Na Alemanha não é diferente. Thioune falou sobre isso em uma entrevista em setembro de 2019 à revista 11 Freunde dizendo que sabia que a cor da sua pele não facilitaria a sua vida, mas também mostrou confiança ao dizer que isso não o impediria de atingir seus objetivos.

Daniel Thioune, técnico do Hamburgo (Divulgação/HSV)

O peso da história do Hamburgo nos últimos anos acabou sendo mais negativo do que positivo. Nos últimos dois anos, o clube teve quatro técnicos. Nomes como Hannes Wolf, Christian Titz e Bruno Labbadia não resistiram à panela de pressão dos Rothosen e acabaram demitidos. Por tudo isso, a iniciativa do Hamburgo de olhar as suas opções e não só ver Thioune como opção, mas contratá-lo, é um grande passo.

Porque normalmente o problema da baixa representatividade está aqui: os clubes sequer consideram técnicos negros. A situação favoreceu para que o Hamburgo olhasse desta forma, mas isso tem a ver especialmente com Jonas Boldt, presidente de esportes do Hamburgo e ex-diretor esportivo do Bayer Leverkusen. “Internamente, nós tivemos muitas discussões sobre que direção tomar, falamos com Daniel e ele nos convenceu que se encaixava na nossa visão. Nos próximos dias nós iremos falar em mias detalhes”, afirmou Boldt.

Na Inglaterra, há uma iniciativa sendo pensada para que técnicos de minorias étnicas no país, como asiáticos e negros, sejam ao menos entrevistados quando há um lugar vago. Em alguns lugares, como nos Estados Unidos, as franquias são obrigadas a entrevistar ao menos uma pessoa de minorias.

É justamente por casos como esse de Thioune: só de entrevistar, analisar o perfil do candidato, sua preparação, seu currículo, sua forma de pensar, já torna mais possível que esse candidato receba uma oportunidade eventualmente. Porque se o que importa é a competência, isso tem que pesar e alguns são alijados dessa disputa antes de sequer terem a chance de mostrar o seu currículo e suas ideias aos possíveis empregadores.

“Eu aprendi que na vida, cada passo deve ser dado e às vezes um deles leva mais tempo. Isso me mostrar que mesmo quando a estrada é um pouco irregular, eu ainda consigo”, afirmou Thioune em entrevista à DW, em 2019.

A contratação de Thioune tem a ver com a visão que Jonas Boldt quer executar no Hamburgo. “Os meios financeiros não melhoraram e nós precisamos encontrar outras soluções criativas”, afirmou recentemente o dirigente. Isso significa, na prática, que o clube não fará grandes investimentos e, portanto, contratações de impacto, porque simplesmente não tem dinheiro. Será obrigado a apostar no desenvolvimento do clube pela base, algo que é muito comum vermos em clubes em crise aqui no Brasil também.

Thioune vem de um ambiente onde ele teve que trabalhar em condições similares. Com poucos recursos, assumiu o Osnabrück em 2017 e, em 2019, levou a equipe da terceira à segunda divisão. Terminou a campanha com uma série impressionante de sete vitórias, que levaram o clube à 2 Bundesliga, a segunda divisão do país, como campeão da terceira divisão. Lá, o desafio foi maior e o Osnabrück terminou em 13º, sem sustos e sem ameaça de rebaixamento, algo comum a quem sobe de divisão.

É um técnico que se caracterizou por conseguir se adaptar bem a diversas situações dentro dos jogos e ter um estilo de futebol normalmente bastante direto. Um dos pontos que chama a atenção na sua curta carreira até aqui é a mentalidade. O seu trabalho no Osnabrück foi muito elogiado porque ele contagia os jogadores com a sua forma de pensar, o que faz todos jogarem de forma ainda mais unida. Algo que o levou a ser comparado, guardadas as devidas proporções, a Jürgen Klopp, um técnico que trabalha muito o aspecto mental. Não a motivação, mas o convencimento a fazer com que seus jogadores executem tudo que ele pede, mesmo que seja exaustivo.

“Nós queremos desenvolver os jogadores individualmente e desenvolver o time como um todo. Com Daniel Thioune, nós contratamos um técnico que continuamente desenvolveu um time no Osnabrück apesar dos recursos limitados à sua disposição. Ele se encaixa na nossa visão, que foi ajustada pelas possibilidades desafiantes. Nós percebemos desde o momento que nós o contatamos que Daniel está faminto pelo desafio e estamos ansiosos para trabalharmos juntos”, afirmou Jonas Boldt na apresentação do novo técnico.

Daniel Thioune, técnico do Hamburgo (Divulgação/HSV)

“Para mim, a tarefa nas minhas mãos com o Hamburgo será um grande desafio, que eu quero encarar com diligência, trabalho em equipe e paixão”, afirmou Thioune. “Todo mundo sabe que o Hamburgo quer estar de volta à Bundesliga. Mas falar sobre isso não nos faz ficar mais perto desse objetivo. Do meu primeiro dia em diante, eu irei trabalhar duro com meu time para desenvolver todos os jogadores e dar ao time a melhor chance para jogar futebol com sucesso”.

“É um grande dia para mim. Eu estou muito feliz em poder estar aqui. Eu gostaria de agradecer ao Ornasbrück por tornar este próximo passo possível. É uma oportunidade empolgante, um desafio e uma grande chance para mim. Eu agradeço por terem me confiado esta oportunidade e estou ansioso para trabalhar pelo Hamburgo. Nos últimos dias, as discussões foram boas com Jonas Boldt e ele me mostrou onde ele quer levar o clube. Eu sou alguém que quer avançar, alguém que é ambicioso, mas ao mesmo tempo é humilde”, afirmou o treinador.

“Nós tentamos levar todos em uma jornada. Durante essa jornada, não importa o quanto o clube é grande ou pequeno. Empatia e experiência profissional fazem parte do todo, e, no final, cabe a mim iniciar uma resposta dos jogadores. Os rapazes querem estar no campo, dar tudo e ganhar jogos. Eu compartilho dessa atitude completamente, e nesse sentido eu sou mais um jogador do que um técnico. Assim que você entra em campo, você tem aquele frio na barriga. Os rapazes precisam ter esse desejo para jogar com paixão. Isso também é importante se você quer ir bem na 2 Bundesliga. Como Hamburgo, nós temos que trabalhar tão duro quanto qualquer outro time sem a bola”, disse Thioune.

“É preciso muita humildade. Quando falamos sobre objetivos, você não chega a esses objetivos apenas falando deles. Você pode querer muito isso, no fim, você tem que fazer isso muito bem. Eu tive muitas discussões com a hierarquia e os jogadores e todo mundo aqui está intrinsecamente motivado para fazer mais”, disse ainda o treinador. “Eu não quero lançar nenhum slogan. Eu estou ciente que todo mundo aqui em Hamburgo tem esperanças e sonhos. Cabe a nós realizar esses sonhos e ficar mais perto deles, o primeiro passo sendo trabalhar duro. Eu vou dizer de novo: se trata de fazer as coisas, não falar sobre elas”.

“Você precisa ter respeito por tudo que você faz. É importante que você não se preocupe e veja como uma chance. É um enorme desafio e eu gostaria de dar o meu melhor, mas eu não farei isso sozinho, eu estarei com as pessoas atrás de mim com quem eu estarei trabalhando junto. Nós aplicamos a pressão para querer vencer a nós mesmos. Mas deve haver essa vontade de aprender com os erros. Se fizermos isso, começamos a desenvolver”, disse Thioune.

Thioune leva com ele para o Hamburgo o seu assistente técnico, Merlin Polzin, de apenas 29 anos. Ele é visto como um grande talento de futuro e é parte fundamental da equipe técnica do novo treinador do Hamburgo. “No Osnabrück nos últimos anos algo começou a crescer e foi sempre importante para mim que eu não fosse único responsável por tudo, mas muitas pessoas vieram junto. Merlin Polzin foi um deles. Junto com ele, eu fui capaz de desenvolver algo no Osnabrück e, portanto, queria tê-lo ao meu lado em Hamburgo. O Hamburgo e o Osnabrück puderam realizar esse meu desejo e ele será meu assistente aqui também”, contou Thioune.

O novo técnico quer um time que “trabalhe brutalmente duro pela bola”. É um técnico que gosta de um jogo que seja acelerado, compacto e direto. Este é um ponto importante: fica claro nas entrelinhas do que disse Thioune é que ele parece achar que faltou ao Hamburgo trabalho sem a bola. Por isso, a ênfase no trabalho duro e na humildade.

O técnico traz no seu braço uma frase do filme “À procura da felicidade”, com Will Smith: “Não deixe que ninguém te diga que você não pode fazer algo”. Como um homem negro, nascido na Alemanha, filho de um senegalês com uma alemã, ele sabe disso. Para ser jogador, ele não passou pelo caminho tradicional das categorias de base, mas sim começou a jogar por times amadores até chegar ao profissionalismo.

Começou a carreira em 1995, no Osnabrück, onde ficou a maior parte da carreira, até 2002. Passou também por Lüberk, Ahlen e Rot Weiss Ahlen. Se aposentou em 2010 e passou a trabalhar nas categorias de base. Foram anos por ali até ganhar a chance no clube onde mais se identificou, o Osnabrück.

Thioune venceu muitos desafios na sua carreira e agora tem um enorme nas mãos com o Hamburgo. Pelas suas palavras, e pelo trabalho mostrado, dá para ver que Thioune é alguém que tem força mental para isso e mostrou qualidade de trabalho para encarar a missão. Se ele conseguir guiar o clube de volta à primeira divisão, será um feito enorme. Não só porque o Hamburgo voltar seria algo imenso por si, mas porque ele seria o primeiro técnico negro na história da Bundesliga. Veremos se ele consegue superar mais esse desafio na sua vida.