Ao longo das últimas temporadas, o Werder Bremen se tornou um modesto time vagando pelo meio da tabela na Bundesliga. Chegou a flertar com o rebaixamento e, neste ano, a mera chance de retornar à Liga Europa já representa demais aos Verdes. Nem sempre foi assim. Um dos clubes mais tradicionais do país, significativo especialmente após a criação da liga em 1963, o Bremen viveu uma década gloriosa após a virada do século. Tempos em que se mantinha nas cabeças e fazia campanhas relevantes nos torneios continentais. Tempos em que a torcida no Weserstadion viu seus ídolos erguerem, pela quarta e última vez, a Salva de Prata. Há exatos 15 anos, a equipe treinada por Thomas Schaaf conquistava o Campeonato Alemão, um marco ao futebol do norte do país.

O Werder Bremen se estabeleceu como uma força regional a partir da década de 1920. Em tempos nos quais o Campeonato Alemão era uma espécie de “Taça Brasil”, reunindo as melhores equipes do país apenas a um torneio curto, os Verdes faziam aparições esporádicas na elite nacional. O momento da virada aconteceu na década de 1960. Em 1961, o Bremen conquistou a Copa da Alemanha pela primeira vez. Na temporada seguinte, chegou às quartas de final da Recopa Europeia. E ainda seria campeão da recém-criada Bundesliga, em 1964/65, ratificando a ascensão no período. Os anos vindouros fizeram a poeira baixar, com o time descendo ao meio da tabela e sofrendo seu único rebaixamento em 1980. Contudo, o retorno foi imediato e, a partir da chegada de Otto Rehhagel, o clube se firmou como uma potência.

O melhor período da história do Werder Bremen aconteceu entre 1988 e 1995. Naqueles anos áureos, o clube conquistou duas vezes a Bundesliga, duas vezes a Copa da Alemanha e uma vez a Recopa Europeia. Contando também as supercopas, foram sete taças em oito anos, além de seis vices em diferentes certames. Rehhagel praticava seu futebol pragmático e de muita força na defesa. Além disso, tinha um número enorme de destaques no futebol alemão. Talentos como Rudi Völler, Karl-Heinz Riedle, Oliver Reck, Mirko Voltava, Dieter Eilts, Mario Basler, Marco Bode e Klaus Allofs possuíam sua história na seleção. Além disso, alguns estrangeiros fortaleciam o grupo, a exemplo do neozelandês Wynton Rufer, do austríaco Andreas Herzog e do norueguês Rune Bratseth – todos com Copas do Mundo no currículo.

Rehhagel permaneceu no Weserstadion até 1995. Encerrou sua passagem de 14 anos à frente do clube para assumir o Bayern de Munique. E se o treinador não se encontrou na Baviera, os Verdes também precisaram lidar com o declínio sem o grande mentor. Foram anos medíocres, rondando o meio da tabela na Bundesliga e trocando de técnico a cada temporada. A torcida, na realidade, aguardava o amadurecimento daquele que sempre foi apontado como sucessor de Rehhagel: Thomas Schaaf. Em toda a sua carreira, o defensor não vestiu outra camisa além do Bremen. Começou na base e atuou por 17 anos entre os profissionais, de 1978 a 1995. Enquanto ainda vivia as glórias com o grupo principal, já começou a treinar os juvenis e, no último biênio de Rehhagel, foi seu assistente. Penduradas as chuteiras em 1995, assumiu de vez o segundo quadro.

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A ascensão de Thomas Schaaf ao time principal do Werder Bremen foi emergencial. Em 1999, a equipe era treinada por Felix Magath – que, além de todos os problemas por seu temperamento explosivo, era um ídolo histórico do rival Hamburgo. O comandante até chegou a levar o Bremen à final da Copa da Alemanha em 1998/99, mas a péssima sequência no final da Bundesliga custou seu emprego. Restando três rodadas para o fim do campeonato, os Verdes estavam uma posição acima da zona de rebaixamento e precisavam de uma guinada. Foi quando Schaaf assumiu. Evitou a degola ao ganhar dois de seus últimos três compromissos. De quebra, se tornou o primeiro treinador a ser campeão com a equipe desde Rehhagel. Nos pênaltis, os Werderaner derrotaram o Bayern e conquistaram a Pokal.

Adorado pela torcida e velho amigo de alguns dos jogadores, Schaaf foi efetivado no comando do Werder Bremen. O rebaixamento não voltaria a assombrar o clube nas temporadas seguintes. Aos poucos, a equipe se colocou na metade de cima da tabela. Vice-campeã da Copa da Alemanha em 2000, desta vez superada pelo Bayern, também voltou a disputar a Copa da Uefa. Isso até que o grande salto acontecesse na temporada 2003/04, após um sexto lugar na Bundesliga.

Eram tempos bem mais diversos no Weserstadion, se comparados aos anos de Rehhagel. Os estrangeiros eram maioria no elenco, especialmente trazidos dos rincões da Europa Oriental. Ainda assim, um dos méritos do Werder Bremen naquela campanha era a continuidade do grupo. A maioria absoluta dos titulares compunha o elenco desde 2000, participando de todo o processo de renovação realizado por Schaaf. E, entre a boa fase de jogadores-chave e adições primordiais feitas pela diretoria naquela campanha, os fatores se confluíram para levar os Verdes de volta ao topo do Campeonato Alemão.

Goleiro daquele Werder Bremen, Andreas Reinke era uma das novidades. Titular do Kaiserslautern campeão nacional em 1998, voltava ao país após dois anos no Murcia. Na defesa, a principal adição era a do beque Valérien Ismaël, que havia participado de campanhas notáveis com Lens e Strasbourg. Compunha o miolo da zaga ao lado do sérvio Mladen Krstajic, nome costumeiro em sua seleção. Já na lateral, outro reforço era Ümit Davala. O lateral vinha com o moral elevado após a participação na histórica campanha da Turquia na Copa de 2002, mas não teve espaço na Internazionale e foi emprestado aos alemães. Revezava nas alas com Paul Stalteri, achado dos olheiros verdes no Canadá, e com Christian Schulz, cria da base.

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O meio-campo era o setor mais alemão daquele Bremen. Schaaf o armava com um losango. A cabeça de área contava com os serviços de Fabian Ernst, trazido do Hamburgo em 2000 e convocado à seleção alemã. Mais aberto pela esquerda, Frank Baumann era outra referência clara. O capitão participou da Copa de 2002 e estava no Weserstadion desde 1999, essencial ao trabalho de Schaaf. Pela direita figurava Krisztián Lisztes, húngaro de destaque em seus tempos de Stuttgart. Já na armação, Johan Micoud viveria a temporada de sua carreira. Tarimbado, o francês chegara do Parma no ano anterior e seria o encarregado a fazer a ligação com os atacantes. E a torcida apostava bastante na ascensão de Tim Borowski, um xodó na meia-cancha. Dono de um bom porte físico e de qualidade técnica, o coringa entrava em qualquer posição na faixa central, inclusive como armador. Convocado à seleção principal, começou a Bundesliga geralmente saindo do banco, mas viraria titular e seria decisivo na reta final.

De qualquer forma, os principais nomes do Werder Bremen se concentravam na linha de frente. O clube tinha quatro opções de alto nível para incomodar as defesas adversárias. O grande ídolo era o brasileiro Aílton. O paraibano rodou o Brasil no início de sua carreira e viveu os melhores momentos com a camisa do Guarani. De Campinas, se mudou ao México, defendendo o Tigres. E chegou à Alemanha em 1998, como outra aposta. Apesar de uma temporada inicial modesta, emplacou a partir do segundo ano. O porte físico corpulento e a capacidade de definição o tornaram perfeito à Bundesliga. Acumulara 48 gols nas quatro campanhas anteriores na competição, até viver o seu ápice em 2003/04.

A principal companhia de Aílton na frente era o croata Ivan Klasnic. O atacante nasceu em Hamburgo e se profissionalizou com o St. Pauli, antes de ser contratado pelo Werder Bremen em 2001, aos 21 anos. Apesar da pouca idade, evoluiu rapidamente e era o parceiro perfeito a Aílton, garantindo as assistências ao artilheiro. Se precisasse, Thomas Schaaf também poderia apelar a Angelos Charisteas, exímio cabeceador que tinha sido comprado do Aris em 2002. Por fim, outra opção do banco era Nelson Haedo Valdez, descoberto no pequeno Tembetary, até ser levado para evoluir no time B dos Verdes.

Como você deve imaginar, o principal favorito ao título era o Bayern de Munique. Os bávaros haviam recuperado a Salva de Prata no ano anterior, mas iniciavam uma transição após as glórias na virada da década. Era um momento de afirmação para a geração agora encabeçada por Michael Ballack, Claudio Pizarro, Zé Roberto e Roy Makaay. Outro concorrente a inspirar respeito era o Stuttgart, de bons desempenhos naqueles anos – e comandado justamente por Felix Magath. O mesmo valia para o Bayer Leverkusen de Klaus Augenthaler, com um elenco excelente. Enquanto Lúcio e Juan compunham a zaga, o ataque desfrutava da azeitada dupla composta por França e Dimitar Berbatov. Já o Borussia Dortmund, apesar da conquista de 2002, convivia com o declínio. Ainda assim, tinha o trio composto por Tomas Rosicky, Jan Koller e Ewerthon na linha ofensiva.

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O Werder Bremen, independentemente dos concorrentes, não demorou a se apresentar como um candidato às primeiras colocações. O time somou dez pontos nas primeiras quatro rodadas e logo assumiu a liderança, graças à goleada por 4 a 1 sobre o Schalke 04 no Weserstadion. A derrota ao Dortmund no quinto compromisso conteve o bom momento, assim como o revés em casa contra o Stuttgart na nona rodada. De qualquer forma, os Verdes se alternavam entre os quatro primeiros colocados. E começaram a pegar embalo com uma enorme sequência invicta a partir de outubro.

O Bayern, que não começou bem a campanha, aparecia um pouco mais atrás. A briga inicial se concentrava entre Werder Bremen, Leverkusen e Stuttgart. Os empates no clássico em Hamburgo e na visita do Bayern ao Weserstadion frearam a ascensão dos Verdes. De qualquer maneira, a liderança retornou às mãos de Thomas Schaaf na 16ª rodada. A equipe conquistou uma vitória imensa na BayArena, ao derrotar os Aspirinas por 3 a 1. Além disso, contou com uma ajudinha do próprio Bayern, que derrotou o Stuttgart em Munique e tirou os suábios da primeira colocação. No último compromisso do primeiro turno, o Bremen se consagrou como campeão de outono ao bater o Hansa Rostock por 3 a 0. Ia para a pausa de inverno com uma vantagem de quatro pontos.

O segundo turno viu o crescimento do Bayern. O time de Ottmar Hitzfeld embalou e assumiu a segunda colocação. Porém, estava distante de acompanhar o ritmo do Werder Bremen. Os Verdes retornaram à campanha goleando o Hertha Berlim por 4 a 0 e continuaram atropelando os seus adversários, sem perder a toada. Foram sete vitórias e um empate nas oito primeiras rodadas do returno, desta vez dando o troco sobre o Borussia Dortmund com os 2 a 0 no Weserstadion. Aílton e Ismaël anotaram os gols. Ao final da 25ª rodada, a equipe de Thomas Schaaf já tinha acumulado 11 pontos de folga na liderança.

O único momento de vacilação no segundo turno aconteceu a partir desta sequência, mas sem encerrar a invencibilidade que durava desde outubro. O Werder Bremen empatou quatro de seus próximos cinco jogos, incluindo um eletrizante 4 a 4 contra o Stuttgart. Bordon chegou a anotar três gols aos suábios, mas Aílton e Klasnic se encarregaram dos tentos visitantes. A torcida no Weserstadion via crescer sua ansiedade, por mais que a Salva de Prata estivesse na mira. A recuperação, por fim, veio no momento mais necessário. Produziu duas vitórias memoráveis no início de maio.

Na 30ª rodada, o Werder Bremen recebeu o Hamburgo para o clássico do segundo turno. E não é que os Verdes recuperaram o gosto pelas vitórias. Eles simplesmente aplicaram a sua maior goleada na história do Nordderby. Todo mundo quis participar da festa. Aílton, Klasnic, Ismaël, Valdez e Skripnik anotaram os gols, enquanto Sergej Barbarez também anotou um contra. Se a expectativa pelo título estava alta, ela se potencializou depois do massacre. E a tabela guardaria a visita ao Bayern de Munique para a rodada seguinte. Em 8 de maio de 2004, o Bremen consumou o feito.

Naquele momento, um empate praticamente garantia o título. O Werder Bremen sustentava uma vantagem de seis pontos sobre o Bayern, mas com um saldo razoavelmente superior, com 12 gols a mais. Ainda assim, a consagração completa precisava da vitória. E foi assim que aconteceu, diante de 63 mil no Estádio Olímpico. Com míseros 35 minutos, os Verdes já venciam por três gols de vantagem. Klasnic, Micoud e Aílton balançaram as redes – os dois últimos, com lindas finalizações. Makaay até descontou no segundo tempo, mas já era tarde. Pela quarta vez na história, a Salva de Prata iria para o Weserstadion.

O Werder Bremen entrou em ritmo de treino nas duas últimas rodadas. Chegou a tomar uma goleada por 6 a 2 na visita do Leverkusen ao Weserstadion e também perdeu o duelo final contra o Hansa Rostock. Nada que atrapalhasse o brilho da campanha. O time de Thomas Schaaf terminou a Bundesliga com uma vantagem de seis pontos. Registrou o melhor ataque e a segunda melhor defesa. Além disso, sofreu apenas quatro derrotas, número inflacionado pelo desleixo no final. E não era que o Bremen só queria festa. Na verdade, eles tinham outro objetivo: a dobradinha nacional.

O Werder Bremen fazia uma campanha segura na Copa da Alemanha. Eliminou Ludwigsfeld, Wolfsburg, Hertha Berlim, Greuther Fürth e Lübeck. Em uma temporada ruim aos grandes na Pokal, o desafio final seria o tradicional Alemannia Aachen, então militando na segundona. Diante de 71 mil torcedores no Estádio Olímpico de Berlim, o Werder Bremen cumpriu o favoritismo contra os aurinegros. Venceu por 3 a 2, em noite iluminada de Borowski. O jovem anotou dois gols, enquanto Klasnic completou a festa. Pela primeira vez na história, os Verdes dominavam as duas principais competições do país. Até hoje, é um dos únicos quatro clubes alemães a possuírem a dobradinha no currículo.

O nome mais aplaudido naquele Werder Bremen era o de Aílton. O centroavante empilhou gols naquela temporada. Com 28 tentos, terminou como o artilheiro da Bundesliga e ganhou o prêmio de melhor jogador do campeonato. Durante a sequência invicta de 23 partidas, ele acumulou 20 gols. O detalhe é que, desde outubro de 2003, o paraibano já sabia que não continuaria no Weserstadion. Em final de contrato, alinhou sua transferência ao Schalke 04 e manteve o seu profissionalismo ao máximo, estufando as redes pelos Verdes. Ao final, apesar da badalação após o título e a artilharia, não conseguiu emplacar da mesma forma em Gelsenkirchen.

O Werder Bremen, por sua vez, manteve suas bases e seu alto nível competitivo sob as ordens de Thomas Schaaf. Miroslav Klose logo ocupou a lacuna deixada por Aílton e o time se estabilizou no topo da Bundesliga. Até a temporada 2009/10, foram dois vice-campeonatos e outras três terceiras colocações, que permitiram ao clube bater cartão na Champions. Também faturou a Copa da Alemanha em 2008/09, além do vice na Liga Europa na mesma temporada. Torsten Frings, Naldo, Tim Wiese, Diego, Per Mertesacker e Claudio Pizarro foram algumas estrelas neste momentos abastados. Já na virada da década, as decisões equivocadas no mercado de transferências e o enfraquecimento econômico impactaram sobre o Weserstadion. Thomas Schaaf encerrou seu ciclo também 14 anos depois, em 2013. Desde então, as glórias de outrora não passam de uma lembrança empoeirada.