Futebol feminino

Capitã da seleção francesa, Henry detona Corinne Diacre e expõe conflito entre jogadoras e a técnica

Deixada de fora da convocação da seleção francesa feminina para os jogos de outubro, a capitã das Bleues, Amandine Henry, detonou a treinadora Corinne Diacre no domingo (15), em entrevista à emissora Canal+. Para Henry, por mais que a técnica tenha dito que sua escolha foi esportiva, a decisão estaria ligada à crescente insatisfação das jogadoras com a comandante, assunto de uma conversa entre parte das atletas e o presidente da Federação Francesa, Noël Le Graët, no fim de outubro.

[foo_related_posts]

Explicando publicamente sua decisão polêmica, Diacre disse, em 15 de outubro, que queria dar tempo a Henry de voltar a seu melhor nível após sua lesão. A jogadora, no entanto, afirmou se sentir bem e revelou o tom seco da conversa com a treinadora em que ouviu que não faria parte do grupo.

“Ela é a treinadora, ela que faz as escolhas. Mas quando ela me ligou para me avisar, a ligação durou 14 ou 15 segundos, vou lembrar disso pelo resto da minha vida. Sinceramente, esse telefonema me chocou. Ela me disse: ‘Amandine, você sabe que a lista sai amanhã e você não estará nela por causa de suas atuações atuais.’ Eu lhe disse: ‘Ok, boa partida, tchau’. E foi isso. Se é uma escolha esportiva, você tenta mobilizar sua jogadora, mas essa conversa me machucou. Além disso, esportivamente, me sinto super bem”, garantiu.

Para Henry, a sua não-convocação teria ligação com uma reunião que houve no fim de outubro entre jogadoras da seleção francesa que atuam no Lyon e o presidente da Federação Francesa: “Acho que aconteceu na semana em que o presidente (da Federação Francesa) Le Graët veio a Lyon quando vencemos a Champions League. Fazia um tempo que todas as meninas, do Lyon e de outras equipes, vinham dando um feedback negativo sobre a treinadora”.

“A vinda do presidente foi uma bênção para nós, falamos das coisas que não iam bem. Acho que o presidente ligou para ela depois, o que ela não digeriu bem. Acho que o problema vem daí”, completou Henry na entrevista ao Canal+.

A capitã da seleção francesa revelou que o clima na equipe durante a Copa do Mundo de 2019, realizada na França, era péssimo e que as atletas constantemente choravam. “Depois da Copa do Mundo, a treinadora já quis fazer entrevistas individuais. Eu lhe disse nessa entrevista que eu não tinha ido 100% bem durante o Mundial. Esportivamente, mas também humanamente, porque eu vi meninas chorando em seus quartos. Isso também aconteceu comigo. Foi um caos total.”

“Se eu penso que a relação de confiança se rompeu entre a treinadora e a equipe? Infelizmente, sim”, avaliou.

“Talvez devêssemos ter tentado falar mais com ela, eu também me questiono. Mas em alguns anos teremos uma Eurocopa, um Mundial, os Jogos Olímpicos na França. Então, é preciso resolver a situação agora, não daqui a três anos. É preciso dizer as coisas. Eu adoraria que nos reuníssemos todas em torno de uma mesa e que colocássemos tudo em discussão para irmos atrás desses títulos. Adoraria que falássemos de futebol, campo, vitórias e ambições”, encerrou.

O capítulo é apenas o mais recente de uma relação claramente fraturada entre a técnica e as atletas. Em setembro deste ano, Sarah Bouhaddi, goleira da França desde 2004, decidiu dar uma pausa na seleção alegando motivos esportivos. Um mês depois, no entanto, reconheceu, em entrevista à TV oficial do Lyon: “Vivemos em um clima muito, muito negativo. Não me vejo ganhando nada com essa treinadora, e muitas jogadores pensam o mesmo, mas não dizem”.

Wendie Renard, símbolo do futebol feminino não só na França como em todo o mundo, é outra que já criticou publicamente Corinne Diacre. Em autobiografia lançada em dezembro de 2019, a defensora criticou a “brutalidade” da técnica e a injustiça de que teria sido vítima ao perder a braçadeira de capitã logo que Diacre assumiu o cargo. À época, em 2017, a treinadora havia mais uma vez resumido a situação a uma questão esportiva, dizendo que Renard precisava se concentrar em suas atuações, mas a imprensa francesa afirma que a então nova treinadora via a autoridade natural da defensora dentro do vestiário como um problema.

Outra das jogadoras de destaque que tiveram problemas com Diacre foi a atacante Eugénie Le Sommer. Publicamente, após a Copa do Mundo de 2019, a técnica criticou a atleta por não respeitar suas ordens de posicionamento em campo. Le Sommer mais tarde afirmou não gostar de ouvir a crítica primeiro pela TV do que pessoalmente.

O clima parece cada vez mais insustentável na seleção francesa, e a conversa entre jogadoras e o presidente da federação nacional, após três anos de problemas frequentes, pode ter sido o início do fim para Diacre. Com tantas vozes importantes se posicionando publicamente contra a técnica, seria necessária uma enorme reconciliação para recolocar as coisas nos trilhos.

Mostrar mais

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador de anúncios? Aí é falta desleal =/

A Trivela é um site independente, que precisa das receitas dos anúncios. Desligue o seu bloqueador para podermos continuar oferecendo conteúdo de qualidade de graça e mantendo nossas receitas. Considere também nos apoiar pelo link "Apoie" no menu superior. Muito obrigado!