Em seus momentos de maior atribulação na temporada de estreia na Premier League, Fred dificilmente imaginaria que, menos de um ano depois, estaria sendo apontado como um dos melhores jogadores do Manchester United na campanha 2019/20. Ícone do clube, o ex-goleiro Peter Schmeichel foi além e cravou o brasileiro como o grande destaque individual dos Red Devils atualmente. O salto de qualidade do meia é inegável, e em entrevista exclusiva à Trivela Fred analisou esta transformação e revelou o papel imprescindível neste processo de uma outra figura emblemática do United: Michael Carrick.

Figura individual constante de uma temporada coletiva inconstante dos Red Devils, Fred alçou-se ao status atual gradativamente. Nos piores momentos da equipe de Ole Gunnar Solskjaer na campanha, manteve suas atuações seguras e cada vez mais criativas; nos melhores, foi uma das peças que fazia a engrenagem do jogo de transições do United funcionar tão bem.

A oportunidade de se destacar individualmente neste meio de campo nasceu também da carência sentida pela equipe ao longo de quase toda a temporada atual, em que o mais criativo jogador do elenco, Paul Pogba, grande responsável por levar a bola da defesa para o ataque, basicamente não esteve disponível, devido a seguidas lesões e uma cirurgia no tornozelo.

Quem o viu durante os cinco anos em que defendeu as cores do Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, entre 2013 e 2018, sabia de sua capacidade de trazer dinamismo e inventividade ao jogo de sua equipe. Não é à toa que o brasileiro foi disputado pelo Manchester United com o grande rival da cidade. Porém, a dura temporada de adaptação em 2018/19 acabou por tornar o desempenho de Fred na campanha seguinte uma agradável surpresa à maioria dos torcedores dos Red Devils.

Fred foi eleito o melhor jogador de janeiro por torcedores do Manchester United (Divulgação)

O brasileiro, contudo, não é o único motivo de sorrisos e expectativas que vinham se desenhando no rosto de cada torcedor do lado vermelho de Manchester. As semanas que antecederam a paralisação do futebol na Europa vinham sendo de ótimos indícios ao United. Invicto em seus últimos 11 duelos, com oito vitórias e três empates, os Red Devils derrotaram Chelsea e Manchester City neste intervalo com bastante autoridade. A defesa sofreu apenas dois gols no período, enquanto o ataque acumulou 29 gols. Tudo isso junto ao encantamento com a nova contratação do clube, Bruno Fernandes, responsável por grande parte do poder criativo nos nove jogos em que esteve envolvido.

Na conversa com a Trivela, Fred abordou tanto sua fase individual quanto o momento coletivo do Manchester United. Revelou como tem sido seu confinamento, o que o grupo tem feito neste período e também projetou o que vem pela frente.

Em um clube mundialmente conhecido por suas fortes categorias de base, Fred ainda apontou qual garoto recém-promovido mais o impressiona no dia a dia da equipe e deu um veredito animador ao torcedor do United sobre a promessa: “Ele tem uma visão de jogo impressionante, joga sempre com a cabeça levantada, tem um chute impressionante, um passe incrível. É um jogador que admiro muito, e tenho certeza que terá um futuro brilhante no clube”.

Trivela: Como tem sido esse período de confinamento particularmente para você? E como são os trabalhos no dia a dia? Tem sido apenas uma questão de se manter em forma ou vocês estão trabalhando também conceitos táticos, revendo momentos da temporada para buscar entender melhor o que aprimorar?

Fred: Esse momento de confinamento não é muito bom para o jogador, que vive do corpo e da forma, então acaba sendo complicado, mas a gente precisa saber lidar com esse período difícil. Então, trabalhamos muito condicionamento físico. A parte técnica é difícil de trabalhar, porque você não tem todo o grupo (junto). Eu gosto muito de rever meus jogos, então paro para ver algumas coisas que fiz de certo e outras que fiz de errado na temporada, para poder melhorar e acertar algo. Porém, nem todos os jogadores são assim. Nesse momento, a gente trabalha muito a parte física, para se manter em forma e estar bem para quando voltar, e aí, sim, poder rever a parte tática.

T.: O elenco do Manchester United, capitaneado por Harry Maguire, recebeu muitos elogios pela proatividade em doar 30% do salário de março para o NHS, sistema de saúde britânico, em meio à pandemia. Como surgiu essa ideia, foi de dentro do grupo? E qual é a importância para você de contribuir com a sociedade neste momento tão delicado?

F.: Acho que a gente tem sempre que fazer o bem a quem precisa, e quem tem uma condição mais legal pode, sim, ajudar. Então, o grupo, principalmente o Harry (Maguire), que é o capitão, junto com o Ole (Solskjaer), criou essa iniciativa, e nós abraçamos e fomos juntos, porque sabemos que é importante nesse momento. Eu fui um dos primeiros a dar o OK e também ajudo as pessoas no Brasil pelos meus projetos, muita gente precisa de doações. É sempre bom ajudar o próximo, ajudar quem precisa. Não só para quem vai receber a ajuda, mas para toda a sociedade.

United presta homenagem ao NHS na fachada do Old Trafford (Divulgação)

T.: Falando agora de futebol dentro de campo, o Manchester United vinha em uma crescente antes da suspensão dos campeonatos. O que mudou na sua visão para que os resultados e o melhor futebol começassem a surgir? E o que vinha dando errado antes?

F.: Estávamos vivendo uma fase muito boa, vínhamos em uma crescente. Estávamos muito bem na Premier League, muito bem na Europa League. Teríamos chances de ser campeões (da Liga Europa) antes da parada. Mas creio que nosso grupo se uniu bastante neste final, começamos um a ajudar o outro, com uma visão diferente de jogo, e crescemos dentro de campo. Começamos a nos entrosar melhor ali, e a chegada do Bruno Fernandes foi importante para nós, dando uma mudança legal ao nosso meio de campo. Mas é preciso também dar o mérito ao Ole e a todo o nosso grupo, porque vínhamos em uma ascensão muito, muito boa.

T.: Qual a importância de Bruno Fernandes para este novo United? Pessoas dos bastidores o descrevem como um jogador muito ambicioso, que cobra os companheiros de maneira positiva. É isso mesmo? Ele é uma inspiração a ser seguida?

F.: O Bruno Fernandes é um jogador muito importante, chegou e deu um “up” no nosso elenco. Ele é um jogador de muita ambição, mas creio que todo jogador que atua no Manchester United precisa ter essa ambição de querer ganhar, ser vitorioso, porque é um clube gigantesco. A gente tem que pensar sempre nos títulos, nas vitórias. Ele chegou muito bem, nos ajudou muito e, com certeza, ele é uma inspiração a ser seguida. Tenho certeza que ele ainda vai crescer muito dentro do United.

T.: Independentemente da irregularidade da equipe na temporada, você tem tido um desempenho muito bom e constante. O que mudou particularmente para você entre a temporada passada, de adaptação, difícil, e esta, em que seu futebol tem desabrochado?

F.: Sempre tem aquele processo de adaptação, né? A temporada passada foi muito difícil, mudou muita coisa não só na minha carreira, como também na minha vida pessoal. Minha esposa estava grávida quando eu cheguei na Inglaterra, estávamos em uma condição diferente. Cheguei a um clube de uma dimensão gigantesca, a um campeonato que é o mais disputado, o melhor do mundo, então acaba sendo difícil a adaptação. Mas nesta temporada eu já consegui colocar meu futebol em prática, tive uma boa sequência de jogos, o que não tinha tido na temporada passada, e fico muito feliz de estar jogando bem, de estar fazendo um grande campeonato e espero que, quando voltar, possa melhorar cada vez mais.

T.: Muita gente o aponta como o melhor jogador do United nesta temporada, e o próprio Peter Schmeichel, ídolo do clube e lenda do futebol europeu, o definiu no Twitter como o melhor do time em 2019/20. O que significa para você ter o reconhecimento de uma figura tão icônica?

F.: É uma felicidade imensa, porque, como falei, o United é um clube de uma dimensão difícil de explicar, um dos maiores do mundo. E fazer um campeonato como o que eu tenho feito, ser considerado um dos melhores jogadores da equipe, tendo uma figura como o Peter Schmeichel me elogiando bastante nas mídias sociais, isso para mim foi muito importante. Fico muito feliz com esse reconhecimento. Espero continuar bem, voltar ao campeonato na melhor fase para que eu possa coroar de vez esta temporada e a gente possa conquistar algo importante, como um título da Europa League ou da Copa da Inglaterra (NDR: o United está nas quartas de final do torneio). Então, vou voltar para fazer o meu melhor.

T.: Você se destacou no Shakhtar como um jogador que controlava muito bem as partidas, sendo especulado no City do Guardiola após isso. No United, pelo estilo de jogo de Solskjaer, sua função envolve muitas jogadas de transição, divididas, pressão, passes incisivos… Como você definiria o seu perfil como jogador? É esta figura que vimos mais no Shakhtar ou está mais para este Fred de 2019/20?

F.: Acho que são clubes diferentes, campeonatos diferentes, estilos diferentes de jogo. No Shakhtar, eu tinha uma função de chegar mais ao ataque, fazia vários gols e controlava bastante o jogo, mas também pelo estilo de jogo do Campeonato Ucraniano. Já na Premier League é difícil, o meio de campo fica muito congestionado, é muita pressão, o jogo é muito rápido. Então é difícil você ficar muito tempo com a bola, tem que ser muito rápido, tem que pensar muito antes de a bola chegar em você. Portanto, a gente tenta controlar o máximo possível dentro de campo, tenta trabalhar bastante isso. Não digo que tem muita diferença do Fred do Shakhtar para o do Manchester, a gente vai se adaptando. Aqui no United, eu marco um pouco mais, melhorei bastante na marcação. Creio que essa é a principal diferença.

T.: Qual você considera o seu melhor momento com a camisa do United e por quê?

F.: Esse momento, com certeza. Como falei, vinha fazendo uma grande temporada, estar entre os melhores da temporada é uma conquista gigantesca para mim. Tive uma sequência grande de jogos, consegui mostrar pro torcedor que estou bem, que tive uma mudança gigantesca da temporada passada para esta, agora venho jogando quase todos os jogos. Estou muito feliz com esse momento, espero que continue.

T.: Ole Gunnar Solskjaer, seu treinador, é um cara novo, acumulando experiência à medida que o tempo passa, e você está vendo todo o percurso dele no United. Deixando os resultados de lado, quais são os sinais que você vê em campo de que ele está levando o clube na direção certa?

F.: O Ole é um grande treinador. Ele é um cara jovem ainda, vai crescer muito no futebol como treinador. Foi jogador, entende como o jogador se sente, e isso é importante para nós dentro do elenco. Ele acrescentou muito, teve muita experiência como jogador e está agora começando a ter essa experiência como treinador. Ele nos ajuda sempre dentro de campo, conversando, é um cara super do bem, e fico feliz de estar acompanhando esta transição dele no United. Tenho certeza que ele vai crescer muito ainda, conseguir muita experiência e que se tornará um dos grandes treinadores (do mundo).

Michael Carrick, ex-jogador do Manchester United (Getty Images)

T.: Em entrevista ao People’s Person, você falou sobre a importância do Carrick, ex-jogador do United na sua posição e hoje membro da comissão técnica, em sua adaptação à Premier League. Você pode falar em mais detalhes como é o dia a dia com ele e quais os ensinamentos que ele te passa e já passou? Como isso contribuiu para a sua melhora?

F.: O Michael Carrick é um auxiliar do treinador que me ajudou muito nesse processo de adaptação e transição. É um cara que é ídolo no clube e foi um grande jogador na mesma posição que eu jogo. No dia a dia, sempre me ajuda muito, está sempre conversando comigo. Depois dos treinos, a gente sempre faz um trabalhinho ali de complementação. Às vezes de finalização, às vezes de passe, de lançamento. É um cara que entende bastante do jogo, que viveu isso. E é impossível alguém melhor que ele para me ajudar ali. Ele sabe das dificuldades, dos atalhos, e ele procura me mostrar tudo ali nos treinos, nos jogos. É um cara que tem uma importância gigantesca para mim dentro do United, e sou muito grato a ele.

T.: Como você vê os jovens que têm surgido nesta temporada, como James Garner, Brandon Williams e Mason Greenwood? São jogadores com potencial para um futuro longevo pelo United? E qual mais te impressiona?

F.: São grandes jogadores. O clube tem um papel importante de usar muitos jogadores da base, tem esse histórico de utilizar a garotada que sobe da base, fica no profissional e faz história no clube, e esse processo é importante. São grandes jogadores, com muito potencial para o futuro. Todos são muito bons, não estão no profissional à toa. Mas o que mais me impressiona é o Jimmy Garner. Não por ser da mesma posição que eu, mas é um jogador que tem uma visão de jogo impressionante, tem um futuro gigantesco pelo United. Além da visão de jogo impressionante, joga sempre com a cabeça levantada, tem um chute impressionante, um passe incrível. É um jogador que eu admiro muito.

James Garner, do Manchester United (Divulgação)

T.: Falando agora de Seleção, você teve o azar de ter uma lesão na preparação para a Copa do Mundo e, em sua primeira temporada no United, não conseguiu retornar às convocações. Porém, seu nível subiu muito nesta temporada, e a comissão técnica foi vê-lo ao vivo. Você acredita que um retorno à Seleção está próximo?

F.: Com certeza. Todos os jogadores querem estar na Seleção, e para mim não é diferente. Nesta temporada eu cresci muito. Não fui convocado, mas faz parte. Eles preferiram outras opções, mas, claro, sempre mantenho meu sonho, mantenho a cabeça erguida. Espero continuar mostrando meu melhor futebol, crescendo a cada dia, e quero voltar à Seleção e fazer história por lá.

T.: O que você pode oferecer ao jogo da Seleção de diferente para convencer o Tite de que merece seu espaço?

F.: Acho que o que posso oferecer é meu melhor futebol, suar a camisa, dar meu máximo, isso é o que tenho a oferecer. O Tite viu isso em mim antes da convocação da Copa do Mundo, por isso fui chamado. Porque tinha muito a oferecer ao plantel. Infelizmente tive a lesão, não pude ajudá-lo na Copa, mas faz parte do futebol. Em breve, se for possível, com certeza quero retornar à Seleção e poder ajudar da melhor forma possível.

T.: Falando em Seleção, uma figura importante da história da Amarelinha, o Gilberto Silva, é seu agente. Como é esta relação profissional com alguém que jogava mais ou menos em sua posição e que escreveu capítulos importantes inclusive no futebol inglês?

F.: O Gilberto é um cara muito importante na minha carreira. É meu agente e consultor, a gente trabalha junto. Como foi jogador, já jogou Copa do Mundo pela Seleção, jogou no Arsenal, foi campeão, é um cara que me ajuda muito no dia a dia, a gente sempre conversa, tanto sobre carreira como sobre posicionamento dentro de campo. Ele me ajuda muito, e é uma alegria tê-lo em minha vida, em minha carreira, e sou muito grato a ele também.

T.: Por fim, na Inglaterra, eles gostam bastante de criar equipes imaginárias de 5 jogadores para o que eles chamam de “5-a-side”. Proponho então um desafio: quais seriam seus quatro colegas de time em um “5-a-side” se você pudesse escolher apenas jogadores da Premier League não-brasileiros e que não sejam do Manchester United?

F.: É difícil escolher jogador que não seja do United ou brasileiro (risos). Tem muitos brasileiros se destacando na Premier League. Mas vamos lá: para goleiro, eu escolheria o Henderson, acho que é um grande jogador. Pra defesa, eu escolheria o Alexander-Arnold, que tem feito uma grande temporada, é um bom lateral direito. Ali no meio, jogaria eu ou o Kanté. Gosto muito do Kanté, o admiro, é um cara que tem um grande futebol. E, na frente, acho que escolheria o De Bruyne e o Son, são dois grandes jogadores que vêm se destacando. O Son é outro cara que admiro bastante.