Vencer sem convencer

Ficar sem vencer por quatro partidas seguidas parece uma eternidade quando se trata do Lyon. Os desempenhos ruins nos duelos diante do Barcelona na Liga dos Campeões e nos jogos recentes da Ligue 1 colocaram em dúvida o potencial da equipe, dona de invejável supremacia no país. Aliada à vitória do Olympique de Marselha sobre o Nantes no dia anterior, e que colocou o OM na liderança, o confronto contra o Sochaux ganhou ares decisivos para os lioneses. O OL, enfim, voltou a encontrar o caminho do triunfo, mas nem por isso deixou sua torcida completamente satisfeita e tranquila.
Tamanha pressão por um resultado convincente surtiu efeito no time. Se não foi brilhante, pelo menos o Lyon apresentou um pouco de eficiência para garantir três pontos de suma importância. Durante o primeiro tempo, os lioneses deixaram claro como sentiam a pressão para jogar bem. Apesar do domínio sem maiores problemas sobre os Leões, faltava maior precisão na hora de organizar as jogadas pelo meio-campo. Até sobrava vontade a Källström, Grosso e Éderson, mas um certo nervosismo atrapalhou a chegada da bola para Benzema e Delgado.
O Sochaux, na luta para escapar da zona do rebaixamento, apenas incomodou em um chute de longe de Sverkos, espalmado por Lloris. No mais, ensaiou uma marcação na saída de bola dos donos da casa sem grandes efeitos. A atitude dos visitantes mudou no segundo tempo, quando resolveram apertar de verdade. E o Lyon, de novo, sucumbiu diante de um adversário que o pressionou com um mínimo de qualidade. Não fosse por Lloris, os lioneses passariam por apuros muito maiores.
Uma falha de Dalmat permitiu ao OL matar o jogo com Mounier, mas nem por isso o Sochaux ficou longe de ameaçar. Os anfitriões sofreram até o final e seu miolo de zaga bateu cabeça depois de 45 minutos calmos. Ao olharmos a dupla de zaga, surpresa: dois volantes improvisados no setor (Bodmer e Toulalan). Quando se chega nesta situação, há de se esperar por uma disputa acirrada pelo título.
Ainda mais quando se observa o bom momento vivido pelo Olympique de Marselha. Depois de um primeiro tempo sem sal, os marselheses deixaram o Nantes no chão e o derrotou por 2 a 0 no Vélodrome. A equipe saboreou por poucas horas o sabor do primeiro lugar, mas estão convencidos de que podem provar de novo esta sensação por mais vezes. Além do lado emocional (ver abaixo), o OM conta com o dedo de Eric Gerets para encontrar o melhor caminho para sair da escuridão.
E assim foi diante dos Canários. Diante de rivais muito fechados na defesa e com uma formação incapaz de abrir espaços, o treinador mudou o jogo a seu favor no intervalo. Gerets tirou Koné e Niang e os substituiu por Ben Arfa e Zenden. Foi o necessário para inflamar o time. No meio, Valbuena e Cheyrou enfim tiveram com quem jogar. Na frente, Brandão teve companhia mais presente e viu sua movimentação se complementar com as investidas de Zenden. E o OM segue na cola do Lyon.
Em confronto direto entre concorrentes ao título, o Toulouse não tomou conhecimento do Paris Saint-Germain. Os dois rivais vinham de derrota na rodada anterior e precisavam se recuperar para manter contato com as primeiras colocações. Melhor para os Violetas, com uma atuação quase perfeita. No duelo entre os principais artilheiros da Ligue 1, Gignac levou a melhor sobre Hoarau. Além de marcar um gol e se consolidar no topo da tabela dos goleadores, o atacante do TFC comemorou a goleada por 4 a 1.
Em casa, o Toulouse fez valer pela enésima vez a força de sua defesa. Diante de adversários como Hoarau, Giuly e Sessegnon, a zaga violeta manteve-se sólida durante toda a partida. Méritos para a dupla de zaga formada por Fofana e Cetto, sem esquecer dos laterais M’Bengué e Congré. Do lado do PSG, a segunda derrota consecutiva deixou Paul Le Guen em alerta.
Embora o treinador conte com um dos melhores setores ofensivos do país, ele viu que nem sempre pode contar com seus reservas para aguentar o peso de uma partida decisiva. Nos lances dos dois primeiros gols, a defesa do clube da capital falhou – no primeiro, em um erro de marcação de Ceará; no outro, Mabiala bobeou. Embora o jovem, em seu primeiro jogo como titular, tenha feito o gol de honra do PSG, ficou evidente como a ausência de alguém mais experiente comprometeu o desempenho do setor. Toulouse, Paris Saint-Germain e Lille estão empatados, quatro pontos atrás do Lyon. Ou seja, promessa de emoção até o fim.
Modéstia à parte
Desde que o Lyon assumiu a hegemonia do futebol francês, todos os outros clubes se comportaram como cordeirinhos. Conformados com a superioridade do OL, eles se contentavam apenas em lutar pelas migalhas que o grande líder lhes deixava. Mesmo com os sinais de fragilidade apresentados pelos lioneses nos últimos tempos, as equipes mantiveram a mesma postura de respeito aos heptacampeões. Claro, o Lyon não se transformou de uma hora para outra em uma porcaria, mas essa queda de rendimento abriu espaços para serem preenchidos por outros concorrentes. O Olympique de Marselha deixou a atitude de Poliana para, enfim, assumir-se como uma ameaça real.
Paris Saint-Germain, Toulouse e Bordeaux, embora estejam em patamares semelhantes na tabela da Ligue 1, ainda guardam resquícios de sua humildade franciscana. Os dois primeiros mantêm vivas as lembranças da temporada passada, quando escaparam do rebaixamento por um triz. O que viesse em 2008/09 seria lucro, e a possibilidade de levar o título mais parece algo onírico do que algo pertencente ao mundo concreto. Os Marine et Blanc seguem o discurso modesto, mais como uma forma de se preservar do que parecerem soberbos demais.
O OM resolveu seguir contra a maré e se assumiu como candidato, sim, a derrubar o Lyon de seu trono. O Bordeaux, em situação semelhante, prefere ser mais cauteloso e se diz contente em selar sua classificação para a Liga dos Campeões. A diferença de mentalidade está na figura dos treinadores das duas equipes. Nos marselheses, Eric Gerets não esconde seu desejo de lutar pela taça. Depois de ganhar do Nantes por 2 a 0, quando a equipe assumiu a liderança provisória da Ligue 1, o treinador deixou bem claras suas intenções. O discurso inflamado contagiou os jogadores, cujos brios se afloraram na reta final do campeonato.
Por sua vez, Laurent Blanc manteve o papo de “cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém”, mesmo depois de ver os girondinos baterem o Le Havre por 3 a 0 fora de casa. Com dois pontos a menos do que o Olympique, mas com uma tabela mais favorável nas rodadas finais, o Bordeaux continua com o velho pensamento de prudência. Blanc segue com a ideia de que seu time precisa pensar primeiro em se garantir na LC para só depois, e se possível, partir em busca do Lyon. A meu ver, um erro de avaliação, pois o elenco dos Marine et Blanc tem plenas condições de arrancar agora e atropelar seus concorrentes ao título.
Com uma fala repleta de pose franciscana, o Bordeaux perde uma excelente chance de mexer com os ânimos de seus jogadores para dar aquele gás em uma hora tão decisiva. Guardar esta motivação para a última rodada só aumentará a frustração no fim da temporada, quando Blanc lamentar a oportunidade de chegar junto na disputa pelo primeiro lugar. Esse medo de ousar, reconhecer sua força e suas condições tenta mascarar uma possível fraqueza dos Marine et Blanc, temerosos por uma queda em um momento no qual um deslize será fatal. Contudo, sem ousadia não se chega a lugar algum, ainda mais quando há uma taça em disputa.
O Olympique de Marselha pode nem ser bem-sucedido em sua caçada ao Lyon, mas pelo menos terá o orgulho de ter desafiado a ordem. Cabe lembrar que o time também está vivo na disputa da Copa Uefa, e esta motivação extra exibida por Gerets certamente influenciará o time no torneio continental. Muito da supremacia do Lyon na Ligue 1 se deve exatamente a esta falta de coragem das outras equipes de se assumir como um verdadeiro rival. O OM parte para o pulo do gato. Já estava mais do que na hora de alguém bater no peito e gritar para impor algum respeito.



