Vencedores do empate

No primeiro grande encontro da temporada, Paris Saint-Germain e Lyon se saíram como grandes vencedores. Enquanto Olympique de Marselha e Bordeaux empataram por 0 a 0, PSG e OL aproveitaram para derrotar Lille e Nancy, respectivamente, e passaram a dividir a liderança da Ligue 1 com os girondinos. Do esperado duelo entre o campeão e o vice da última temporada, apenas um ou outro lance chamou a atenção – pouco para quem esperava um ferrenho combate entre dois candidatos ao título.
O Olympique teve seus méritos ao interromper a série de 14 vitórias dos Marine et Blanc. A tática escolhida por Didier Deschamps para frear o ímpeto dos girondinos foi simples: marcação pesada em cima de Gourcuff. O meio-campista também não estava em seus dias mais brilhantes, o que contribuiu em demasia para a criatividade da equipe diminuir bastante. Com Chamakh isolado na frente, o Bordeaux esteve aquém de suas verdadeiras capacidades.
Laurent Blanc ainda tentou mudar as coisas na segunda etapa. Com a entrada de Jussiê, o treinador mudou do 4-3-2-1 para um 4-4-2 mais equilibrado, e foi aí que o Bordeaux se tornou mais incisivo. No Olympique, Deschamps foi obrigado a mexer cedo demais, tirando Koné e colocando Valbuena. A equipe perdeu força ofensiva, mas em compensação neutralizou o meio-campo girondino. Sem grandes chances de um lado ou de outro, o 0 a 0 revelou bem o comportamento das duas equipes no Vélodrome.
Já no Parc des Princes, o PSG obteve sua terceira vitória consecutiva. Ao bater o Lille por 3 a 0, o time consolidou seu melhor início de temporada desde 2005/06, com apenas dois pontos perdidos. Apesar dos números positivos, o time da capital deve comemorar a péssima pontaria do LOSC. Os visitantes chutaram 17 vezes na direção do gol (contra 10 dos donos da casa), com 56% de posse de bola. Ou seja, um domínio estéril e preocupante.
Mesmo pressionado, o Paris Saint-Germain repetiu a eficiência ofensiva de seus jogos anteriores. De negativo, a defesa segue oferecendo espaços em demasia aos adversários. O Lille, por sua vez, paga pelos problemas latentes de seu ataque. Com apenas um ponto ganho e míseros dois gols marcados em quatro partidas, o LOSC repete a mesma fórmula perigosa do Saint-Etienne na temporada passada: priorizar a Liga Europa, ainda mais em uma fase inicial da competição europeia. Para quem sonhava em alcançar os degraus mais altos da Ligue 1, o início preocupante da campanha renderá frutos amargos no final se o time não acordar a tempo.
A maratona de agosto foi tirada de letra pelo Lyon. Duas vitórias convincentes contra o Anderlecht, e a consequente classificação para a fase de grupos da Liga dos Campeões, e a campanha na Ligue 1 não deixam mentir. Além dos triunfos, o OL voltou a apresentar um bom futebol, ao contrário do pragmatismo visto em seus duelos da temporada passada. Contra o Nancy, mais uma vez o time se destacou com um tranquilo 3 a 1 em cima do adversário.
Para sufocar o ASNL, o Lyon aplicou sua velha tática de pressionar o rival desde o começo. Com uma marcação adiantada, o OL não demorou para impor sua superioridade, embora tenha aberto o placar apenas aos 37 minutos. O 4-3-3 ofensivo de Claude Puel funcionou bem graças ao estilo de Lisandro López, que além de conferir peso ao ataque lionês exerce um papel fundamental: marcar a saída de bola da defesa inimiga.
O técnico também mexeu no time na hora certa. Quando o Nancy diminuiu a vantagem na segunda etapa, Puel mandou Makoun a campo para fortalecer o combate no meio-campo. Deu certo. Sem percalços, o Lyon sobreviveu a um mês complicado e demonstrou sua força. A vida da equipe não poderia estar melhor.
Vida nada mansa
Definidos os grupos da Liga dos Campeões, Olympique de Marselha e Bordeaux lamentaram suas sortes. Já o Lyon, embora tenha passado pelos playoffs, acabou agraciado com uma chave mais simples do que seus compatriotas e, por consequência, tem mais chances de se classificar para as oitavas-de-final. O fato de pertencer ao pote 2 no sorteio revelou-se um diferencial e tanto para o destino dos lioneses.
Apesar de ter ficado em terceiro lugar na Ligue 1, o Lyon tem a seu favor as constantes presenças em Ligas dos Campeões passadas. Mesmo com seguidos fracassos, ao menos o time sempre descola uma vaguinha nas oitavas. Para esta temporada, não deve ser diferente. O OL caiu no grupo mais simples, levando-se em consideração o dos outros clubes franceses, e desponta como um dos favoritos para uma das duas vagas.
No grupo E, o Lyon terá pela frente o Liverpool, que sempre chega longe na LC e, obviamente, não deve ter problemas para passar de fase. A vantagem lionesa está em encarar a Fiorentina, sua rival na edição anterior do torneio. A equipe ‘viola’ vem um tanto quanto trôpega para 2008/09 e, diante do Sporting, nos playoffs, deixou claras suas limitações. Se não fosse por uma grande atuação de atuação de Frey, o time italiano estaria a estas alturas se preparando para a disputa da Liga Europa.
O Lyon mostrou um excelente futebol contra o Anderlecht, mas os Mauves estão longe de representar a quintessência do futebol-arte. Por enquanto, os lioneses parecem ter um time equilibrado e conta com um Lisandro López digno de impor respeito a qualquer defesa. Michel Bastos também está em ascensão e tem comandado o meio-campo com ótimo senso de organização. O Debrecen deve ser importante na chave apenas para critérios de desempate.
Já o Bordeaux está na coluna do meio. O grupo A lhe reservou uma ‘baba’ chamada Maccabi Haifa, mas em compensação os outros dois adversários impõem respeito. O Bayern de Munique entra disposto a calar a boca dos críticos e preparou um belo time para a temporada. A Juventus também mostra atuações convincentes, com um Diego cada vez mais à vontade e seguro em campo.
Apesar do título francês lhe conferir maior autoridade diante dos adversários, o Bordeaux está em condições inferiores aos dois favoritos para a vaga. Gourcuff, por exemplo, terá um teste dos mais difíceis para provar se realmente consegue manter seu poder de decisão diante de rivais de maior gabarito. Os Marine et Blanc torcem para que seja assim, mas a Liga Europa parece estar mais próxima da realidade da equipe.
O Olympique de Marselha teve o pior dos caminhos possíveis. Se o Zürich não deve trazer tantos incômodos, o OM mal se atreve a olhar para cima e enxergar o tamanho dos gigantes logo em frente. ‘Apenas’ Real Madrid e Milan disputarão com os marselheses quem se classificará para as oitavas – péssimo para quem investiu pesado em contratações e corre grande risco de ver seus planos afundarem tão cedo.
As esperanças marselhesas de um futuro um pouco mais animador pairam sobre algumas apostas. Todo o Vélodrome torce para que os ‘galácticos’ merengues fracassem em campo devido à guerra de egos entre suas estrelas e o desentrosamento de seu espetacular setor ofensivo. Descendo para um plano mais real, o Milan passa por uma fase turbulenta, com atuações que beiram o ridículo alternadas com alguns jogos de bom nível. O OM espera que Leonardo, Berlusconi, Ronaldinho e a temperamental torcida rossonera cuidem para que o clube continue em círculos, o que abriria alguma possibilidade.
Ainda assim, mesmo se tudo conspirar a favor o Olympique corre por fora, como revelou o atacante Brandão em conversa com este colunista. Pelo visto, o futebol francês está propenso a mais uma temporada de fracasso na Liga dos Campeões. Apenas uma equipe tem chances reais de avançar às oitavas, mas sabendo da fama do Lyon, não há muito o que se esperar.



