Vale das sombras
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José Mourinho se deslocou até o estádio Geoffroy-Guichard para acompanhar o dérbi entre Saint-Étienne e Lyon. O treinador do Real Madrid queria observar in loco seu próximo adversário na Liga dos Campeões. Talvez inspirado por presença tão ilustre, os lioneses exibiram um futebol de alto nível, golearam por 4 a 1 e deixaram o português preocupado. Afinal, ainda está viva na memória dos Merengues a eliminação para a equipe francesa na LC passada em pleno Santiago Bernabéu.
O Lyon conseguiu sua revanche em grande estilo, mas sofreu para obtê-la. O Saint-Étienne começou muito melhor, abriu o placar com Bocanegra e teve pelo menos duas boas chances para dar o golpe final. O OL só acordou porque contou com o despertar de Yoann Gourcuff. O meia, que adormeceria de novo no amistoso entre França e Brasil, comandou a reorganização lionesa em campo, mas também contou com uma ajudinha dos rivais.
Mustapha Bayal Sall teve uma atuação digna de ser esquecida. Ele falhou em nada menos do que três gols marcados pelo OL. Nos dois primeiros, foi facilmente batido por Gomis e Cris após escanteios cobrados por Gourcuff. Ele também deu um presente para Michel Bastos ampliar e só não contribuiu para o gol marcado por Briand nos acréscimos. O Lyon se fortalece na briga por uma vaga na Liga dos Campeões e já aparece em quarto lugar, dois pontos atrás do Rennes, vice-líder.
Seria a redenção para Gourcuff e a esperança para a torcida de que o meia, enfim, havia recuperado seu papel decisivo. O meia teve desempenho fundamental para a vitória do OL, tanto pela sua precisão nas bolas paradas como na calma para distribuir o jogo. Ao atuar mais próximo dos atacantes, ele voltou a aparecer bem. No entanto, parece ter sido apenas um lampejo, em vez de marcar o início de sua recuperação. O amistoso contra o Brasil mostrou que Gourcuff ainda oscila demais.
Já o Paris Saint-Germain está ficando para trás. O time da capital mais uma vez decepcionou seus torcedores no Parc des Princes ao ficar no 0 a 0 murcho com o Lens, penúltimo colocado. Apático, o PSG sentiu a falta de criatividade diante de um rival aplicado, mas longe de ser brilhante. Os parisienses até começaram bem, com uma forte pressão na saída de bola dos Sang et Or. Contudo, logo caíram na vala da mesmice.
Ficou evidente a importância de Ludovic Giuly para a equipe. Sem o jogador, o PSG se tornou um time muito previsível, concentrando suas jogadas de forma excessiva pelo meio. O Lens agradeceu e, com a marcação correta, soube anular as inócuas tentativas dos donos da casa. Os Sang et Or até se animaram e, nos contra-ataques, ameaçaram a meta defendida por Edel.
Sem Giuly, era de se esperar que Nenê ao menos inspirasse algumas jogadas ofensivas. No entanto, o brasileiro mais uma vez confirma passar por um momento ruim na temporada. O meia-atacante foi facilmente engolido pela marcação do jovem Serge Aurier, de apenas 18 anos. Escondido, Nenê nem parece ser o mesmo jogador que se tornou tão decisivo para o PSG no primeiro turno. Se o camisa dez desaparece, ele leva o Paris Saint-Germain também para a sombra.
Enquanto o PSG amarga sua péssima fase, o Lille ri à toa. Sem forçar, o LOSC bateu o Toulouse por 2 a 0, recuperou-se do tropeço diante do Auxerre e segue calmo na liderança, cinco pontos à frente do Rennes. Com a gordura acumulada a esta altura do campeonato, os Dogues também podem se dar ao luxo de dedicar boa parte de suas energias na Liga Europa. O time se prepara para, quem sabe, viver um futuro bastante promissor.
Carrasco azul
Derrotar o Brasil teve um significado especial para a França. Além de confirmar a fama de carrasco dos brasileiros, os Bleus consolidaram sua fase de reconstrução. No entanto, os franceses só conseguiram mesmo deslanchar após Hernanes ser expulso pela entrada à la Anderson Silva em Karim Benzema. Ressalva feita, a equipe comandada por Laurent Blanc, porém, apresentou algumas boas qualidades, mas ainda exibe velhos defeitos.
A principal figura do jogo, sem dúvida, foi Benzema. Embora esteja em baixa no Real Madrid, o atacante parece enfim estar em paz com a camisa da França. Ele marcou seu 12º gol pelos Bleus, o quarto na “era Blanc” e o terceiro em suas três últimas convocações. O último a estabelecer marca semelhante foi David Trezeguet, em 2003. Além do gol da vitória, Benzema teve uma atuação digna de elogios.
Benzema mostrou oportunismo para completar para as redes, mas, além disso, exibiu qualidade técnica quando teve que buscar o jogo. Blanc resumiu muito bem como foi o desempenho do seu atacante: ele foi perigoso em todas as vezes nas quais tocou na bola. O jogador do Real Madrid teve em Jérémy Ménez um bom parceiro de ataque, com atuações complementares.
Na defesa, ponto fraco dos franceses há tempos, Blanc se surpreendeu com a atuação segura de Philippe Méxès. O defensor deixou para trás a péssima imagem deixada naquela derrota para a Áustria (3 a 1), na qual teve uma atuação desastrosa. Contra o Brasil, ele teve uma tranquilidade extrema, com desarmes perfeitos, bom senso de colocação e uma marcação eficiente. Nas cinco últimas partidas, os Bleus levaram apenas um gol e, contra o Brasil, foram pouco incomodados – um claro sinal de evolução.
E nada melhor para aumentar a confiança de uma equipe do que uma série de vitórias. Após um início difícil, Blanc encaixou uma sequência de cinco triunfos com os Bleus. Há quem questione os três primeiros (Bósnia, Romênia e Luxemburgo), mas vencer Inglaterra e Brasil, dois adversários de peso, certamente eleva o moral de qualquer grupo.
Entretanto, nem tudo foi motivo para comemoração no Stade de France. Quando as duas equipes estavam completas em campo, a França penava para manter a posse de bola, dada a boa marcação exercida pelos brasileiros. Yann M’Vila parecia mais nervoso do que de costume, com muitos erros de passe no meio-campo e sem a mesma força no combate. Ponto fraco dos Bleus, ele viu seus erros serem compensados pela falta de agressividade da seleção brasileira.
Para completar, Gourcuff prova a cada dia que está longe de seus melhores dias. O meia foi presa fácil para a marcação brasileira no começo da partida. O meia atuou mais recuado e simplesmente se esqueceu de fazer sua função primordial: organizar e comandar o meio-campo francês. Mesmo quando o Brasil ficou com dez em campo, o jogador do Lyon não deixou a timidez de lado e foi vaiado ao ser substituído.
Está na hora de Blanc repensar se deve mesmo dar tanto espaço assim a um jogador fora de suas melhores condições técnicas. O treinador deve se lembrar que Samir Nasri e Franck Ribéry, ausentes do amistoso devido a contusões, estarão de volta em breve e, salvo uma catástrofe, devem retomar seus lugares cativos na equipe. Pelas apresentações decepcionantes, Gourcuff merece ficar um tempo fora da seleção, até como um estímulo para que volte à melhor forma.