Tudo igual

Dos seis primeiros colocados da Ligue 1, apenas o Toulouse perdeu na 30ª rodada do campeonato. O empate sem gols com o Caen fora de casa foi um resultado cruel para os Violetas. Além do tropeço diante de um rival claudicante, o TFC perdeu um pouco o contato com seus rivais logo acima na tabela, algo quase imperdoável neste momento da disputa. Se o Lyon aos poucos se recupera e segue dando as cartas na liderança, o Olympique de Marselha não deixa por menos. Como um bom adversário, o OM continua na cola do primeiro colocado e com moral alto, ainda mais depois de bater o Saint-Etienne em pleno Geoffroy-Guichard.
Apesar de atuar no caldeirão dos Verdes, o Olympique deixou de lado a hipótese de se armar na defesa. O técnico Eric Gerets demonstrou logo suas intenções ao escalar um time ofensivo, mas quase pagou o pato pela ousadia. O Saint-Etienne partiu para cima, mas o OM conseguiu frear o ímpeto dos donos da casa nos quinze minutos iniciais. Passada a euforia, o equilíbrio tomou conta do duelo – nem tanto pelas finalizações, já que os goleiros mal trabalharam na primeira etapa.
Na volta do intervalo, os marselheses fizeram a diferença. Ou melhor, o ASSE voltou completamente perdido em campo. Toda a aplicação demonstrada nos 45 minutos iniciais foi para o brejo. Pior: o técnico Alain Pérrin a tudo observava sem mexer uma palha para mudar. Desconcentrados, os Verdes se complicaram com as seguidas faltas cometidas por Tavlaridis, à falta de sintonia da dupla Machado e Landrin e a falta de concentração de toda a equipe. Com tamanha bobeada dos anfitriões, ficou fácil a tarefa do OM. Os visitantes tranquilamente marcaram três vezes em 15 minutos e calaram o caldeirão.
Para a torcida marselhesa, ficou evidente a total serenidade de sua equipe para encontrar uma solução diante de problemas cabeludos. A paciência se tornou a principal virtude transmitida por Gerets, e muito bem assimilada pelo elenco. A pressão da torcida dos Verdes em nada intimidou o Olympique, capaz de administrar o desenrolar do jogo com enorme sangue frio. A quarta vitória consecutiva do OM fora de casa mantém o clube no calcanhar do Lyon, com melhor saldo de gols do que o líder (22 a 19) e a sensação de que sua hora está para chegar muito em breve. Esta confiança, tão distante do Vélodrome nas temporadas mais recentes, tem tudo para fazer a diferença na hora certa.
Para o Lyon, fez bem a pausa para a disputa dos jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo-2010. O período chegou em uma hora bastante complicada para o OL, após a eliminação da Liga dos Campeões e os resultados ruins obtidos na Ligue 1. Nada melhor para recuperar os ânimos do que enfrentar um adversário cujo desempenho nos últimos duelos foi de chorar. O Le Mans havia conquistado apenas uma vitória em 13 partidas, mas os lioneses precisavam superar dois problemas.
O primeiro era o fato de atuar longe de Gerland, o que em tese dificultaria um pouco o andar da carruagem. O outro era a ausência de Toulalan, pulmão do time e referência no combate no meio-campo. Logo de cara o Lyon mostrou que nada poderia lhe atrapalhar. Líder contestado por suas atuações pálidas, o OL acuou o Le Mans em seu campo de defesa como nos seus bons tempos. Os visitantes abriram o placar aos 18 minutos, mas logo em seguida o MUC 72 deixou de apanhar para partir para o ataque.
Embora o Le Mans estivesse muito perto do empate, o Lyon se safou graças a Benzema. O atacante, adormecido há diversas rodadas, enfim desencantou. A passagem pela seleção francesa deve lhe ter feito refletir muito sobre seu atual momento. Para reforçar a tese de se tratar de um jogador de clube, Karim marcou dois gols, exibiu suas melhores qualidades (rapidez, oportunismo e precisão) e tirou um peso de suas costas.
O jogo também teve um gostinho de redenção para Bodmer. O carregador de piano, devedor de uma boa seqüência pelo OL, enfim fez uma apresentação digna. Depois de atuar no miolo da zaga e como meia defensivo, ele teve grande papel na vitória por 3 a 1 ao jogar mais avançado no meio-campo. Aliás, o setor apresentou uma formação diferente e deixou boa impressão. Sem Toulalan, Makoun fez as vezes de cão de guarda da defesa. Juninho Pernambucano ficou mais recuado do que de costume e se deu bem. Embora o brilho ainda esteja longe de Gerland, o Lyon tem lá seus lampejos que o garantem na liderança.
Lições lituanas
Duas vitórias magras por 1 a 0 foram suficientes para reabilitar a França na corrida por uma vaga na Copa do Mundo de 2010. Os dois confrontos contra os bálticos passaram longe de entrar para a histórias, mas ao menos serviram para reerguer a equipe depois de um início desanimador. Após perder para a Áustria e amargar um empate com a Romênia, estava na hora de os vice-campeões mundiais mostrarem algo mais do que desculpas para apresentações pífias. Não que o nível do futebol mostrado nos dois duelos mais recentes tenha enchido os olhos, mas diante das circunstâncias está de bom tamanho.
O essencial foi garantido. Mesmo sem brilho e distante de convencer a torcida, a seleção somou seis pontos indispensáveis para o grupo readquirir confiança. Cabe lembrar que a Sérvia lidera a chave, dois pontos acima dos Bleus, e que o confronto direto entre as duas equipes se dará em setembro. Antes, os franceses encaram Ilhas Faroe, que não colocam medo em ninguém. Eventuais tropeços diante da Lituânia, uma seleção bem chata por se fechar na defesa, complicariam a situação dos comandados por Raymond Domenech.
Apesar dos triunfos em Kaunas e em Saint-Denis, a França segue com um problema de solução complicada. Domenech precisa logo definir qual a melhor formação para seu setor ofensivo. Nos jogos contra os lituanos, ele atendeu o pedido de Ribéry e o escalou pela esquerda, como o meia está acostumado no Bayern de Munique. Se no time alemão ele não tem concorrentes à altura para a posição, nos Bleus há um nome de peso para lhe fazer sombra: Thierry Henry.
No Barcelona, Henry atua exatamente pelo mesmo lado esquerdo de Ribéry e acumula boas atuações por ali. Quando chega à seleção, Thierry se vê obrigado a mudar seu posicionamento e fica mais fixo dentro da área. Contra os lituanos, ele participou bem pouco nas duas partidas e deixou claro o quanto se sente deslocado com isto. Domenech também sofre pela direita, pois não conta com o apoio de alguém experiente como Govou ou de alto potencial como Briand. Os dois se contundiram com gravidade e ficarão afastados dos gramados por alguns meses; daí a opção do treinador em escalar Luyindula para completar a equipe.
O jogador do Paris Saint-Germain até tem lá seus atributos, mas esta solução serve apenas para quebrar um galho. Não dá para confiar muito em um irregular Luyindula, que em seu próprio time alterna momentos de brilho intenso com outros de puro apagão (o recuo de bola para Landreau contra o Nice, dando um gol de presente para o rival, prova isto). Para mudar seus conceitos, Domenech dependeria de um atleta que ainda não provou suas qualidades na seleção.
A interrogação em torno de Benzema compromete qualquer possibilidade de mudança na escalação dos Bleus. No mundo ideal, Domenech poderia contrariar Ribéry e mandá-lo para a direita, enquanto Henry ficaria com seu posto na esquerda garantido. O atacante do Lyon seria a referência na ponta do ataque, com Gourcuff no meio-campo pronto para municiar o tridente. Tudo muito bonito na teoria, mas Karim transborda desconfiança quando veste a camisa azul – e sem contar em uma possível revolta de Franck por ver suas vontades contrariadas.
Na defesa, o quarteto Evra-Squillaci-Gallas-Sagna ganha mais força. Os dois laterais estão na frente da concorrência por irem além do combate defensivo. O apoio de ambos ao ataque trouxe algumas boas alternativas ofensivas diante de um adversário concentrado no meio-campo. Squillaci parece ter se firmado, mas ainda precisa de uma sequência segura de jogos para se considerar dono da posição. Méxès, Abidal, Escudé e Boumsong estão de olho.
Por fim, a relação entre a torcida e a seleção dá sinais de alguma recuperação. As vaias e o olé ouvidos durante a derrota no amistoso contra a Argentina, no Vélodrome, diminuíram de intensidade no Stade de France contra a Lituânia. Bastou um pouco de inspiração para os franceses apoiarem sua equipe e se empolgarem após o gol de Ribéry. Só as ofensas para Domenech continuam iguais. Bom, isso não mudará mesmo se os Bleus garantirem a vaga para o Mundial-2010 com um pé nas costas.



