França

Sonífero azul

Deveria ser um jogo para confirmar a reação francesa e a redenção de Laurent Blanc, cuja confiança ficou abalada após o escândalo das cotas raciais na seleção. Entretanto, o empate por 1 a 1 diante da Bielorrússia fora de casa pelas Eliminatórias da Eurocopa-2012 trouxe um gosto de frustração à torcida. A partida foi digna de se cair no esquecimento, tamanha a incapacidade dos Bleus de apresentar um futebol com um mínimo de qualidade.

A velha desculpa de que os jogadores estão em seu limite físico, já que a temporada acabou de terminar, obviamente foi evocada. Só que os últimos jogos da seleção francesa têm repetido as mesmas linhas: um meio-campo de pouca imaginação, um estilo de jogo de pouca fluidez, movimentação quase inexistente e uma lentidão irritante na transição para o ataque. Filmes parecidos foram vistos recentemente nos confrontos contra Brasil, Luxemburgo e Croácia.

A atuação abaixo da crítica de dois jogadores considerados intocáveis chamou a atenção. Franck Ribéry jogou no seu lado preferido do campo, mas o meia-atacante do Bayern de Munique nada fez de interessante mesmo atuando pela esquerda. Já o capitão Alou Diarra quase não notado em campo, já que sua exibição esteve aquém daquela visão de um jogador atento à marcação e tranquilo no bote para o desarme.

A goleada sobre a Ucrânia serviu para mostrar a Blanc que existem, sim, opções interessantes para a equipe considerada titular. Obviamente, também não dá para achar que um Samir Nasri, por exemplo, não serve mais para a seleção por ter feito um jogo ruim contra a Bielorrússia. No entanto, há casos de atuações decepcionantes que se repetem com uma frequência preocupante, como já foi citado. Cabe ao treinador ter a coragem suficiente para sacar os medalhões se observar que nada acontece com eles.

Em Minsk, a França deu a impressão de que seria uma presa fácil para os donos da casa. Afinal, a Bielorrússia, mesmo com um time bastante desfalcado, conseguiu pressionar os Bleus em seu campo de defesa com uma facilidade surpreendente. A passividade da defesa dos Bleus convidou os anfitriões a frequentar a área de Lloris sem cerimônias.

A Bielorrússia saiu na frente aos 20min de jogo com um gol contra de Abidal, mas a França igualou três minutos depois com Malouda. A reação parou por aí. Isolado na frente, Karim Benzema era o único que tentava alguma coisa. Ele se viu obrigado a voltar para buscar o jogo, pois se ficasse na dependência do meio-campo azul morreria de fome. Claro que ele se cansaria uma hora, pois não dá para jogar por dois ou três.

Na defesa, mais destaques negativos. Se no Paris Saint-Germain ele demonstrou grande segurança, em seu primeiro jogo como titular o nervosismo tomou conta de Mamadou Sakho em um momento crucial – exatamente no início, quando os bielorrussos tomaram conta das ações. Ele poderia ter a ajuda de Adil Rami para compensar, mas seu companheiro também estava em uma jornada de pouca inspiração.

Altos e baixos na Ucrânia

O amistoso contra a Ucrânia era a oportunidade sonhada por muitos jogadores que sonhavam em mostrar sua qualidade para Laurent Blanc. Steve Mandanda era um deles. O goleiro do Olympique de Marselha tinha a chance de mostrar ao treinador que realmente pode ser uma sombra para Hugo Lloris como titular. Bem, a julgar por sua atuação, o arqueiro do OM foi um dos poucos que deixou a desejar na goleada por 4 a 1 dos Bleus em Donetsk.

Lloris viu que sua posição não está ameaçada. Mandanda, capitão diante dos ucranianos, falhou no único gol marcado pelos donos da casa, em um chute despretensioso de Anatoli Tymoschuk. Por mais que alguém exalte a dificuldade de se defender um chute como o do meio-campista, não dá para um goleiro que tenta ocupar o posto de titular de uma seleção importante deixar a bola passar como fez o jogador do OM.

Para sua sorte, Mandanda viu seus companheiros não se abalarem com o gol sofrido e não demoraram muito para virar o placar. O goleiro do Olympique de Marselha, que não jogava pelos Bleus desde 26 de maio de 2010 (na vitória por 2 a 1 sobre a Costa Rica em amistoso disputado em Lens), deu mais razões para seus críticos. Os números também jogam contra ele: em 14 partidas com a camisa da seleção, ele sofreu 14 gols.

Em apenas quatro jogos, ele deixou o campo sem sofrer gols pelos Bleus. No entanto, os adversários nestas ocasiões passam longe da condição de potências do futebol: Lituânia (duas vezes), Ilhas Faroe (tradicional saco de pancadas) e Equador. Mandanda teria motivos para se preocupar em ficar fora da seleção com tantos fatos negativos? Nem tanto. Apenas sua luta para ser titular ficou comprometida.

Blanc já deixou claro que seu trio favorito de goleiros é formado por Lloris, Mandanda e Cédric Carrasso. Nem mesmo as atuações convincentes de Mickaël Landreau fizeram o treinador mudar de ideia e pensar na possibilidade de convocar o veterano. Para o goleiro do OM, fica a certeza de que ele tem um lugar cativo na seleção francesa, mas como uma mera opção. Para a torcida, porém, fica a insegurança de contar com um goleiro que cumpre bem com suas funções em seu clube, mas não encontra a mesma regularidade na equipe nacional.

Sobre o amistoso, Blanc usou o jogo contra a Ucrânia para fazer observações. O técnico fez dez mudanças em relação à equipe que entrou em campo contra a Bielorrússia. Assim como na partida contra o Brasil, Jéremy Ménez foi quem levou mais perigo no primeiro tempo. Os ucranianos só ameaçavam quando algum francês perdia a bola no meio-campo – e, nesse quesito, Blaise Matuidi foi o campeão com sobras.

O meio-campo dos Belus só melhorou na segunda etapa, quando Marvin Martin entrou em campo para se tornar a estrela da partida. O jogador do Sochaux trouxe a criatividade e a objetividade que faltavam aos franceses e teve sua atuação coroada com dois gols. Alguns apressados já evocaram a figura de um certo Zinedine Zidane, que conheceu sorte parecida em seus primeiros passos com a camisa azul. Calma, gente, calma.

Kévin Gameiro também aproveitou muito bem sua chance. O vice-artilheiro da Ligue 1 (22 gols) fez o primeiro dos Bleus e mostrou que pode ser uma alternativa para Karim Benzema. Nada mal para quem havia tido pouco espaço até então (foram apenas 10 minutos em campo contra a Bielorrússia, cinco diante do Brasil e outros 15 contra a Croácia).
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo