Futebol francês

Soneca no teatro

Como era de se esperar, o Olympique de Marseille se despediu da Liga dos Campeões ao ser eliminado pelo Manchester United nas oitavas de final. Embora o resultado seja lógico, o OM tem algumas lamentações a fazer. Claro que a equipe dificilmente obteria uma vitória em pleno Old Trafford, mas o elenco cometeu algumas falhas que poderiam ao menos alongar suas esperanças de um futuro mais promissor. Dormir no “Teatro dos Sonhos” revelou ser traiçoeiro para quem comete tamanha heresia.

Para o jogo de volta contra os Red Devils, o técnico Didier Deschamps repetiu a escalação usada no triunfo sobre o Rennes pela Ligue 1. A ideia do Olympique de Marseille era clara: ir para Old Trafford com um meio-campo reforçado do ponto de vista defensivo, como ilustra a presença de Stéphane M’Bia, e tentar a sorte em algum contra-ataque. A estratégia, porém, logo ruiu.

O OM pecou por demorar demais em se ligar na partida. Logo aos cinco minutos do primeiro tempo, a defesa bobeou na marcação e permitiu a Javier “Chicharito” Hernandez a liberdade necessária para abrir o placar. Era tudo o que os marselheses menos queriam: ficaram em desvantagem no placar logo no início. Isso forçaria o time a sair mais para tentar o empate, deixando espaços para as rápidas jogadas dos donos da casa – ou seja, quase como cometer suicídio.

O Manchester United adotou uma tática simples: deixar a bola para o Olympique de Marseille tentar alguma coisa. Como o OM não conseguia levar perigo, os Red Devils aproveitariam a menor falha para matar o jogo. Quem deveria aparecer neste momento para dar lucidez ao setor ofensivo marselhês simplesmente se escondeu. Mérito para a marcação dos anfitriões, mas Lucho González e André-Pierre Gignac tiveram exibição pífia.

Tanto o argentino como o francês até tentaram buscar jogo, mas falharam exatamente quando não poderiam: no momento de dar aquele passe para uma finalização. Sem essa força ofensiva e com a falta de inspiração de seus organizadores, o OM se tornou um adversário simples para o Manchester United engolir.

No segundo tempo, o Manchester United mudou um pouco sua postura, agora com mais posse de bola e melhor toque, fazendo o Olympique de Marseille se esforçar mais ainda. O segundo gol de Chicharito demoliu as esperanças do OM, que nem mesmo tiveram um átimo de animação com o gol contra de Brown. Um pouco mais de atenção no início da partida ao menos não encerraria de forma tão prematura a esperança de classificação da equipe francesa.

Garoto problema

Nenê foi o único jogador do Paris Saint-Germain que deu a cara para bater após o frustrante empate por 2 a 2 com o Montpellier. O meia-atacante deu uma assistência, mas mais uma vez teve uma atuação abaixo do seu melhor nível já apresentado nesta temporada. Em uma frase, o brasileiro resumiu sua atual situação. “Antes, eu era uma solução; agora, sou um problema”, reconheceu, embora a declaração tenha sido pesada demais.

Na primeira parte da temporada, Nenê conheceu o Olimpo. Principal figura do PSG, o brasileiro desandou a fazer gols, brigou pela artilharia da Ligue 1, distribuiu assistências a rodo e parecia destinado a levar o time à uma bela campanha no torneio. No entanto, veio a pausa de inverno. E na retomada do campeonato, quanta diferença. Atuações cada vez mais discretas, sem brilho e de pouca inspiração fizeram o time da capital perder espaço na briga pelas primeiras colocações.

Vamos aos números. Na segunda metade da temporada, o PSG disputou 16 partidas e sofreu quatro derrotas. Na primeira parte, a equipe jogou 29 vezes e saiu de campo derrotada em cinco. Nenê não balança as redes pela Ligue 1 desde 18 de dezembro, quando marcou no 2 a 2 com o Monaco. Antes incontestável, agora o meia-atacante convive com as cada vez mais crescentes críticas ao seu trabalho.

Estão se tornando mais frequentes as reclamações sobre o individualismo de Nenê. Tanto a entrevista do brasileiro após o jogo contra o Montpellier como sua atitude em campo dizem apenas uma coisa: ele incorporou a ideia de que precisa resolver as coisas para o Paris Saint-Germain. Por um lado, tal atitude mostra comprometimento e desejo de ser útil para a equipe. Contudo, na prática, revela algo que vai contra o jogador.

Guillaume Hoarau deu o recado no intervalo. “É preciso que alguns parem de fazer seu número solo”, disse o atacante, referindo-se a Nenê. Em sua busca para reencontrar a confiança perdida, o brasileiro exagera nas chances perdidas por precipitação, naquele drible a mais desnecessário, no passe que poderia dar a um companheiro mais bem colocado. Tudo isso mina a paciência de seus companheiros, principalmente daqueles que dependem de uma assistência ou uma jogada bem trabalhada – como é o caso de Hoarau.

De volta às estatísticas, Nenê se destacou ao dar uma assistência para o próprio Hoarau contra o Montpellier. Entretanto, em praticamente uma hora de bola rolando, ele perdeu nada menos do que 21 bolas! Não há monge budista que não se irrite com a seguida insistência por um tipo de drible que não dá certo, ou uma escolha equivocada de jogada cujo objetivo nada mais é do que provar sua capacidade.

De acordo com o jornal Le Parisien, o clima esquentou no vestiário, mesmo com o PSG vencendo o Montpellier por 2 a 0. A origem do bate-boca: o individualismo de Nenê. Ou seja: o brasileiro deixou de ser uma unanimidade para se tornar motivo de desequilíbrio dentro do próprio elenco. Tudo o que o time menos precisa em momentos tão decisivos, com duelos de elevada importância pela Ligue 1, Copa da França e Liga Europa.

Deixar para que o treinador Antoine Kombouaré apare as arestas significaria jogar mais gasolina na fogueira. Então, o mais prudente seria Nenê ter a consciência de que ele não precisa mostrar absolutamente nada. Ele já cansou de provar sua capacidade, como o fez no Monaco e pelo próprio PSG, com elogios de Mano Menezes e até cotado para ser convocado para a seleção brasileira. Pelo seu próprio bem e do PSG, o meia-atacante precisa ser apenas ele mesmo para fazer o time voltar ao mesmo nível da primeira metade da temporada.
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo