Safra de sucesso

A dinastia lionesa na Ligue 1 se encerrou. Sete temporadas depois, os franceses enfim tiveram a resposta sobre quem seria o sucessor do Lyon assim que seu império declinasse. Com sua 11ª vitória consecutiva, um recorde, o Bordeaux herdou a coroa de campeão da Ligue 1. O sexto título dos Marine et Blanc na história do campeonato fez jus ao equilíbrio apresentado pela equipe durante a maior parte de 2008/09. A taça simboliza o poder de superação demonstrado pelo clube, uma característica recuperada pelo treinador Laurent Blanc após anos de desconfianças em torno do time.
O técnico ocupou o lugar de Ricardo Gomes a partir de 2007 e logo pairaram as dúvidas. Como um ex-jogador, respeitado por seu papel nos Bleus na conquista da Copa de 1998, reagiria em seu primeiro emprego como treinador? Ao contrário do que os pessimistas acharam, Blanc superou o trabalho do brasileiro em muitos degraus. O Bordeaux de Ricardo Gomes tinha uma defesa consistente, mas um meio-campo e um ataque pouco confiantes. Blanc desenvolveu a médio prazo seu trabalho de homogeneização de todos os setores da equipe – e com o nivelamento pelo alto.
Nesta temporada, os girondinos foram quase perfeitos em casa. No Chaban-Delmas, a equipe ganhou 14 partidas e empatou outras cinco – terminou invicta como anfitriã. Como visitante, o Bordeaux também foi capaz de resultados inesperados, como a histórica virada sobre o Monaco (os Marine et Blanc perdiam por 3 a 0 até o começo do segundo tempo, mas saíram do principado com um triunfo por 4 a 3). As vitórias sobre Rennes (3 a 2) e Valenciennes (2 a 1), ambas no território do adversário, mostraram qual o principal passo evolutivo do time: sua capacidade de reação, concentração e, sobretudo, calma diante das adversidades. Era este poder de decisão que faltava ao elenco, acostumado a se conformar com empates diante de sua torcida.
Por trás do título, também aparece com grande intensidade a figura de Gourcuff. Esquecido no Milan, o meia foi contratado para solucionar o problema da falta de criatividade apresentada por este setor. Ele foi além de corrigir esta falha. Com atuações seguras, Gourcuff participou de boa parte dos gols marcados pelos girondinos (balançou as redes 12 vezes e deu dez assistências). Melhor para os atacantes Chamakh e Cavenaghi, que enfim tiveram alguém com capacidade de lhes oferecer as chances necessárias para marcar (cada um deles fez 13 gols). Agora, os girondinos precisam se preocupar em como substitui-los, com as crescentes especulações em torno da saída do marroquino e do argentino.
Mesmo quando Gourcuff sentiu o lado físico, com queda de desempenho devido à maratona de jogos, o Bordeaux soube se segurar. Esteve longe de ser uma equipe sem seu timoneiro, até porque Gouffran, outro importante reforço para 2008/09, também exerceu papel de destaque nesta reta final. O ex-jogador do Caen teve mais baixos do que altos, é verdade, mas no geral formou uma excelente parceria com Gourcuff e apareceu nos momentos decisivos – como contra Rennes e Caen. Na ausência do camisa oito, Gouffran assumiu a responsabilidade e mostrou maturidade suficiente para manter o bom nível.
Como há dez anos, quando Bordeaux e Olympique de Marselha também chegaram à última rodada lutando pela taça, os girondinos levaram a melhor com um triunfo fora de casa. Em 1999, o Bordeaux fez 3 a 2 sobre o Paris Saint-Germain. Agora, com Blanc no banco, os Marine et Blanc bateram o Caen por 1 a 0, com um futebol mais eficiente do que propriamente empolgante. A fórmula, porém, foi melhor aplicada do que a do Olympique, que apesar da goleada por 4 a 0 sobre o Rennes pagou o preço de sua irregularidade.
Verde da esperança
Graças a uma grande ajuda do Bordeaux, o Saint-Etienne teve sua tarefa facilitada. Claro que os Verdes cumpriram com louvor sua parte ao golear o Valenciennes por 4 a 0, salvando-se da queda para a Ligue 2. Só não dá para justificar tanto sufoco para se manter na primeira divisão, se na temporada anterior o ASSE chegava à última rodada da Ligue 1 na luta para se classificar para uma competição europeia.
E foi exatamente a participação na Copa Uefa que quase afundou o clube em 2008/09. Quase quatro décadas ausente de um torneio continental importante, o Saint-Etienne simplesmente deixou a Ligue 1 de lado para se dedicar à disputa paralela. Esta postura quase condenou o clube ao suicídio: apesar da boa campanha na competição europeia, era consenso geral que a equipe não chegaria tão longe assim – e o tempo para reação no Francês seria curto demais.
Com uma dose de sorte, o Saint-Etienne encontrou um ambiente extremamente favorável para selar seu destino. Suas últimas fichas foram jogadas no caldeirão de Geoffroy-Guichard diante de um rival já acomodado: o Valenciennes, sem risco de cair e longe da disputa por vagas em torneios continentais. Mesmo que o VA tivesse uma motivação extra (afinal, a partida marcava a despedida do treinador Antoine Kombouaré), o time não ganha fora de casa há cerca de um ano e meio.
Não era para o Saint-Etienne sofrer tanto assim nesta temporada. Os 4 a 0 no Valenciennes livraram o time do rebaixamento, mas o ASSE tinha condições de brigar por posições mais nobres da tabela. Com a experiência adquirida, resta a esperança para os torcedores de que 2009/10 lhes reserva dias melhores.
Mira no ventilador
O desejo de fazer uma temporada marcante foi cumprido pelo Paris Saint-Germain, mas não exatamente da forma como planejado. O clube da capital despontou como um dos favoritos para disputar o título da Ligue 1 e se manteve entre os primeiros colocados por um bom tempo; porém, caiu de rendimento no segundo turno e se despediu do torneio com um modorrento empate sem gols com o Monaco em pleno Parc des Princes. Pior: o resultado condenou o PSG a ficar de fora da disputa de competições europeias em 2009/10. Sobraram cobranças e declarações polêmicas para todos os lados.
Para começar, o Paris Saint-Germain se acostumou tanto a conviver com as crises que se assustou quando elas sumiram. A paz tão ausente nas últimas temporadas causou uma “neurose” que só foi curada com a invenção de problemas, com a explosão deles sempre nos piores momentos. Mais ou menos na metade da Ligue 1, o presidente Charles Villeneuve entregou o cargo. Na reta final do campeonato, houve a confirmação de que o contrato do treinador Paul Le Guen não seria renovado, mas sem esforços para a definição rápida de seu sucessor. E, para concluir, uma troca de acusações entre Le Guen e Alain Roche, responsável pela área de contratação de jogadores.
Não à toa, todas estas confusões fizeram o PSG degringolar nas últimas rodadas, logo quando precisava de mais gás para confirmar sua classificação para a Liga dos Campeões ou, na pior das hipóteses, da Liga Europa. Em campo, os resultados refletiam a instabilidade fora dele. Em 18 pontos disputados nos seus seis jogos finais, o clube da capital conquistou apenas cinco pontos – e venceu apenas uma vez. Com um ritmo digno de uma equipe prestes a ser rebaixada, o PSG permitiu a Lille e Toulouse o ultrapassarem na tabela e roubarem seu lugar quase garantido em um torneio continental.
Como sempre, houve quem achasse que a culpa fosse da imprensa. Foi o caso de Armand, para quem os meios de comunicação contribuíram para o elenco se desestabilizar com as constantes reportagens sobre a desunião do grupo. Ora, se estava mais do que evidente esse descontentamento entre os jogadores, nada mais natural do que revelar esta situação. Se os atletas brigam, criam panelas e se preocupam mais com si próprios do que com o clube, a culpa recai sobre eles, obviamente.
Le Guen serviu como um pára-raios na tentativa de isolar sua equipe das críticas. A paciência do treinador, porém, estourou pouco antes do jogo contra o Monaco. Em entrevista ao diário L’Équipe, o técnico soltou o verbo e criticou de forma direta a direção do clube, em especial Roche (“incompetente e medíocre”, nas palavras do técnico), com quem mantinha um relacionamento quase beirando ao belicismo. Em desacordo com os planos da presidência e sem poderes para interferir na questão das contratações, Le Guen se viu enfraquecido e preferiu partir.
Entre os jogadores, Claude Makélélé também causou polêmica ao afirmar “ser preciso limpar a sujeira do clube”. Jérôme Rothen, por sua vez, seguiu a linha de Le Guen, criticou a atual diretoria e manifestou seu desejo de sair. Novamente, a figura de Roche aparece, envolvida num tipo de diz-que-diz própria de ambientes nos quais as intrigas corrompem até mesmo os melhores profissionais.
Em uma temporada na qual tinha tudo para dar a volta por cima, o Paris Saint-Germain frustrou sua torcida. Se contava com um elenco bom no papel, fora de campo a equipe demonstrou caminhar a passos vagarosos para sair do completo amadorismo. Sem um ambiente tranquilo para se trabalhar, fica impossível desenvolver qualquer tarefa da maneira mais digna. O sexto lugar e a consequente ausência em torneios continentais, porém, não deve sensibilizar a diretoria, mais preocupada em fazer fofocas internas do que oferecer um bom desempenho à torcida.



