França

Recorde e tranqüilidade

Após a derrota para a Escócia em casa, a França caiu para a terceira posição no grupo B das eliminatórias da Eurocopa-08. Embora dependesse apenas de si mesma para se classificar para o torneio continental, a seleção francesa logo se acometeu da dúvida, ainda mais ao ver a Itália situada logo à frente. Não demorou muito para o ambiente carregado logo se tornar mais límpido. Os Bleus fizeram sua parte contra Ilhas Faroe e Lituânia, com a providencial contribuição de Thierry Henry. Para completar, os escoceses ainda fizeram o favor de perder para a Geórgia.

Escoceses e italianos ainda fazem um confronto direto, o que deixa os franceses um pouco mais tranqüilos. Se não perderem da já eliminada Ucrânia, garantem seus lugares. Nada melhor do que o alívio depois de semanas sufocantes provocadas pelo 1 a 0 da Escócia – até então candidata principal à vaga, mas com sério risco de ser engolida pela Squadra Azzurra.

Nem mesmo a viagem maluca para Torshavn, com direito a vôo atrasado, juiz improvisado e um pernoite não-programado na Noruega, a França bateu Ilhas Faroe, como era de se esperar. Em Nantes, os Bleus teriam pela frente outra equipe sem muitas perspectivas. No entanto, cabia lembrar que a Lituânia colocou em perigo a Itália, deu um trabalho danado na partida de ida e viria para La Beaujoire disposta a se fechar em um ferrolho, só para dar um pouco de graça e trazer mais emoção para o duelo.

A pressão exercida pela França desde o apito inicial quase foi por água abaixo com a bola na trave em uma finalização de Ksanavicius. O 4-4-2 de Domenech se mostrava bastante ágil, com a constante colaboração de Toulalan no apoio ao setor ofensivo. Aliás, essa contribuição foi decisiva no segundo tempo, como na assistência para o segundo gol de Henry. Outra grande sacada foi a entrada de Ben Arfa no lugar de um inócuo Diarra. O atacante do Lyon ajudou a abrir mais espaços lá na frente e elevou a qualidade dos arremates.

Contra os lituanos, os Bleus tiveram uma exibição muito boa. Contra um adversário retrancado, o posicionamento de Ribéry, um pouco mais avançado no meio-campo, próximo aos atacantes, mostrou-se uma excelente arma. O meia do Bayern de Munique corrigiu o defeito apresentado no duelo com a Escócia e permitiu a Henry e Benzema boas opções para finalizar. Os dois atacantes também foram eficientes nessa tarefa de se deslocar constantemente dentro de uma defesa fechada.

Henry entrou para história do futebol francês ao quebrar o recorde de Michel Platini e se tornar o maior artilheiro da seleção. O atacante do Barcelona demonstrou algo que seus companheiros ainda precisam desenvolver. Com sangue frio, o camisa doze teve a tranqüilidade necessária para definir o confronto a favor dos Bleus. Uma virtude que seus colegas deveriam aprimorar. A pressa, a vontade de querer resolver o assunto logo foi uma das grandes causas daquela derrota para os escoceses. A Lituânia, mesmo alguns degraus abaixo na qualidade de seu futebol, despertou a mesma afobação, trazida pela grande carga colocada nas costas de vários jogadores jovens, ainda em fase de amadurecimento.

Essa experiência de Henry será de suma importância para esse processo de crescimento e renovação dos Bleus. Com a moral conquistada pela marca histórica de 43 gols com a camisa azul (Platini fizera 41), ele carrega a missão de orientar um setor com bons talentos, em fase de lapidação. Como Domenech insiste na birra com Trezeguet, Benzema e Ben Arfa garantem mais pontos com o treinador a cada nova exibição destacada – o que tem se tornado uma rotina.

A vaga para a Euro pode até ser comemorada sem jogar: basta a Itália vencer a Escócia, em Glasgow, em 17 de novembro. Caso haja outro resultado, os Bleus se garantem com um empate com a Ucrânia em Kiev. Tudo caminha para um final feliz; se os franceses contiverem a ansiedade, seu maior defeito até o momento, estarão na Áustria/Suíça em 2008.

Punição ao Bastia

Infelizmente, a praga do racismo continua impregnada na alma de algumas pessoas cuja mentalidade tacanha e doentia insista enxergar alguma diferença entre branco, negro, azul, laranja. Falar de discriminação racial na França soa ainda mais doloroso, pois milhares de africanos, árabes e seus descendentes habitam o país e fazem parte de sua cultura. Parte da torcida do Bastia ignorou os princípios básicos de igualdade entre as raças e ofendeu um jogador do Libourne/Saint-Séurin durante uma partida entre as duas equipes pela Ligue 2.

Em 14 de setembro, data do duelo, Boubacar Kébé foi expulso aos 40 minutos do segundo tempo do jogo contra a equipe corsa. O atacante, nascido em Burkina Fasso, revoltou-se contra parte da torcida visitante e foi tirar satisfações. Embora tenha recebido o cartão vermelho, ele justificou sua atitude: sua reação de partir para cima de seus agressores veio quando ouviu diversos insultos de cunho racista.

A comissão disciplinar da Liga de Futebol Profissional (LFP) não teve dúvidas. Ao se comprovar a estupidez da torcida do Bastia, o órgão retirou um ponto do clube da Córsega. Parece pouco, mas cabe lembrar que em outras ocasiões as penas se limitavam a multas irrisórias, que em nada contribuíram para erradicar esse tipo de problema. Pela primeira vez, a LFP atendeu às recomendações da federação francesa (FFF) e da própria Fifa para punir esta prática.

A torcida do Bastia passa longe de ser uma santinha neste assunto. Já há algum tempo, um grupo fazia questão de discriminar até mesmo jogadores que vestiram a camisa do clube. Pascal Chimbonda, hoje no Tottenham, viveu de perto essa experiência negativa e a tornou pública. Nada mais efetivo havia sido feito até agora. A ação agora servirá de exemplo para pelo menos coibir futuras manifestações discriminatórias. Pelo menos chamará a atenção dos clubes para orientar seus torcedores contra qualquer tipo de idiotice deste gênero.

Na temporada passada, embora tenha negado até a alma, Milan Baros cometeu um ato discriminatório contra Stéphane M’Bia, defensor do Rennes. Para relembrar o caso, o atacante do Lyon tapou seu nariz com uma mão e, com a outra, abanou, como se dissesse que algo estava cheirando mal. Tudo isso diante do camaronês, durante um lance da partida entre as duas equipes. O tcheco foi considerado culpado; sua pena foi uma mísera suspensão por três jogos. Muito pouco para o tamanho de seu gesto. A perda de pontos aparece como uma medida mais drástica e eficiente para resolver casos assim e, mais importante, colocar o assunto em discussão.

Obviamente, tirar um ou 75 pontos de um time na tabela não fará o torcedor/agressor mudar sua forma distorcida de ver o mundo. Com o crescimento da extrema-direita na França, esse pensamento de intolerância ganhou força e não se limita ao campo esportivo. Basta ver como árabes e africanos são vistos como uma ‘ameaça’ para roubar as já concorridas vagas de emprego no país.

Eliminar esse tipo de atitude lamentável passa por questões educacionais, sociais, políticas, entre outras. Contudo, também não dava mais para se aplicar uma multa de € 2 mil, € 3 mil como ocorre na Espanha, por exemplo. Essas penas brandas funcionam como ‘passar a mão na cabeça’ diante de um problema gravíssimo, cuja importância se reduz com castigos tão amenos. Atirar objetos em campo, o que rende a interdição de estádios e pesadas multas, é mais grave do que ofender um semelhante por seu tom de pele? Que o exemplo seja seguido.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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