Quanta diferença…

Enfim o Olympique de Marselha tem motivos para voltar a se orgulhar na Liga dos Campeões. Mesmo jogando na Rússia, o OM se impôs diante de um Spartak Moscow muito aquém das expectativas e se classificou de forma antecipada para as oitavas de final da LC. Nas três edições anteriores do torneio, os marselheses haviam se despedido ainda na fase de grupos. Desde um certo ano de 1993 o time não ia tão longe, o que enche os torcedores de esperanças de repetir aquela trajetória.
Ao contrário do jogo no Vélodrome, o Olympique de Marselha teve a eficiência necessária para superar o Spartak Moscou, apesar de jogar no estádio Luzhniki. O OM adiantou sua marcação, pressionou os donos da casa, que acumularam erros de passe, e desta vez apresentou a frieza necessária para fazer os gols que lhe deram a vaga. Quando Valbuena abriu o placar, os marselheses mantiveram sua postura em campo, o que facilitou demais sua tarefa.
Com uma marcação implacável no campo de defesa do Spartak Moscou, o Olympique de Marselha anulou qualquer chance dos rivais, que sentiram muito a ausência de Alex em seu meio-campo – o que poderia dar um sopro de criatividade ao seu meio-campo. A expulsão de Welliton no segundo tempo foi determinante para a queda do time russo, que já não tinha forças para reagir. Com a classificação garantida, resta ao OM manter essa postura mais agressiva em campo para, quem sabe, sonhar mais alto na LC.
O Lyon também está classificado para as oitavas, mas o sentimento foi completamente diverso. A derrota por 3 a 0 para o Schalke 04 teve suas consequências no vestiário lionês. A oitava classificação seguida do clube para os mata-matas da LC ficou esquecida em um canto, tamanha a frustração pelo futebol de baixo nível apresentado pela equipe em Gelsenkirchen.
Os cerca de 500 torcedores do OL presentes no Veltins Arena pediram a cabeça do técnico Claude Puel e gritaram o nome de Juninho Pernambucano. Trata-se de um pedido claro e sucinto: voltem a apresentar aquele espírito de luta que o time tinha quando o brasileiro jogava lá. O próprio presidente Jean-Michel Aulas admite que alguns jogadores tem “mais vontade do que outros”, em um sinal de racha e dias tensos pela frente.
No primeiro tempo, o Lyon foi um fantasma em campo. Desorganizado taticamente, o time não se entendia em campo por conta de uma marcação estéril, uma defesa batendo cabeça e um meio-campo longe de exibir um mínimo de qualidade nos combates. Puel ainda tentou mudar alguma coisa para a etapa final, mas o panorama continuou igual. Nada seria capaz de despertar o OL da letargia.
Cissokho foi sem dúvida o pior em campo. O lateral-esquerdo estava em outra rotação e foi engolido por Farfán e Uchida. Cansado das bobagens de seu jogador, Puel decidiu trocá-lo por Gomis, recuando Michel Bastos e retirando o único sopro de criatividade da equipe. A derrota sintomática apenas estampa as limitações de um Lyon que há muito se tornou uma sombra de seu recente passado de glórias.
Sobre o Auxerre, o time fez aquilo que já se esperava dele. Pelo menos a equipe sentiu o gostinho de vencer uma partida na fase de grupos, mas precisava amadurecer muito se quiser brigar até mesmo para se classificar para a Liga Europa. O grupo não ajudou, é verdade, mas uma derrota para o Milan em casa está longe de ser uma desculpa para tantos erros bobos durante a LC.
Os Dogues ladram
Sem fazer muito barulho, o Lille chegou à liderança da Ligue 1. A equipe dominou o Monaco, bateu o adversário por 2 a 1 e conquistou sua terceira vitória consecutiva na competição. O LOSC, com um estilo de jogo ofensivo e eficaz, subiu ao topo da tabela e exibe credenciais mais do que suficientes para se candidatar à disputa pela taça. Os grandes que se cuidem.
Desde agosto de 2006, o Lille não sentia o gostinho de liderar a Ligue 1. Muito do sucesso do time se traduz pelas palavras de Rudi Garcia. Mesmo após o triunfo sobre o ASM, o treinador fez questão de manter o discurso modesto, de pés no chão, como se o time estivesse superando um obstáculo quase impossível para chegar ao topo. Esta mesma filosofia de trabalho era a característica principal do LOSC de Claude Puel que se classificou seguidas vezes para a Liga dos Campeões.
Enquanto Lyon, Bordeaux e Olympique de Marselha demoram para encontrar seu melhor nível para decolar, o Lille segue em velocidade de cruzeiro. A equipe ganhou força ao destruir a fortaleza do Brest, até então dono de uma defesa quase inviolável, encaixou uma goleada fora de casa sobre o Caen (5 a 2) e agora obteve um triunfo incontestável sobre o Monaco. O LOSC defende uma invencibilidade de oito partidas e um estilo de jogo dos mais agradáveis de se acompanhar.
Garcia não temeu perder força diante do ASM por conta da ausência de Balmont. O treinador decidiu mudar seu habitual 4-3-3 por um ofensivo 4-2-3-1, com o setor ofensivo formado por Gervinho, Frau, Hazard e Sow. Para completar, Cabaye esteve longe de ser um mero volante destruidor, trazendo ainda mais força para o ataque do Lille. Ele encontrou o equilíbrio entre atacar bem e ajudar Mavuba a realizar o trabalho sujo de marcação e recuperação.
No entanto, toda esta ousadia ofensiva tem seu preço. Nos últimos 13 jogos, o Lille levou pelo menos um gol (exceto na vitória por 1 a 0 sobre o Levski Sófia pela Liga Europa). Garcia admitiu que a equipe precisa apresentar maior solidez defensiva. Nos 14 jogos já disputados na Ligue 1, o LOSC tomou 16 gols. O time pode até exibir um futebol de encher os olhos, mas também precisa mostrar a mesma eficiência para defender, sob o risco de complicar suas chances no futuro.
Na mesma época da última temporada, o Lille havia sofrido os mesmos 16 gols na Ligue 1, mas seu desempenho em campo era bem pior. O time ocupava um modesto 14º lugar, nove pontos atrás do então líder Olympique de Marselha. As pretensões de lutar pelo título são animadoras se compararmos os dois momentos, mas o LOSC perdeu para o próprio OM e o Lyon, fortes candidatos ao troféu.
Se quiser consolidar seu lugar entre os pretendentes pela taça, o Lille também deve se impor diante dos favoritos. A equipe terá uma boa chance diante do ascendente Bordeaux. Um triunfo escancararia um caminho para fazer a torcida esperar um Natal gordo. Até o fim do ano, o LOSC enfrenta em casa Lorient, Nancy e Saint-Etienne, três adversários com os quais teria grandes chances de vencer. O time ainda visitaria o Arles-Avignon, longe de colocar alguma ameaça.
Ou seja: os Dogues podem terminar 2010 em situação muito confortável e até com certa folga na ponta da tabela. Tudo depende, claro, da confirmação do amadurecimento do elenco, até agora mais coeso do que na última temporada, e sem surpresas desagradáveis – apesar da polêmica causada por Gervinho e seus problemas para dirigir.



