França

Para inglês ver

Passada a euforia com a confirmação da contratação de David Beckham pelo Paris Saint-Germain, a dúvida fica no ar. Em qual campo o Spice Boy será mais importante para o clube: o esportivo ou o midiático/marketing? Aos 37 anos e parado desde sua saída do Los Angeles Galaxy, o meia parece mais inclinado ao sucesso no segundo item, mesmo que propague ter treinado nas últimas semanas no Arsenal.

No que Beckham pode ajudar o PSG nos próximos cinco meses? Analisando suas condições físicas atuais, parece pouco provável que ele desempenhe uma função vital para o time de Carlo Ancelotti neste período. Lembremos que o último jogo oficial do meia foi no início de dezembro. Com o relógio contra ele, o inglês precisará se recuperar de forma fantástica se quiser convencer o treinador de que não é um ex-atleta em atividade. Não dá para escalá-lo apenas por seu histórico.

Como todo o ambiente que cerca esta novidade, a diretoria do PSG já tem a data perfeita para a estreia de Beckham: 24 de fevereiro, no clássico contra o Olympique de Marseille. Pouco importa se o tempo de preparação é curto; vale mais o impacto que uma possível escalação do inglês causará – e que deve beirar à loucura, tendo em vista todo o frisson causado pelo anúncio de sua contratação e observado em sua concorrida entrevista coletiva.

Ancelotti tem um pepino nas mãos e quebra a cabeça desde já para encontrar um lugar para o reforço na equipe. Beckham não tem mais a condição física necessária para exercer a função de um Pastore, por exemplo, mesmo que atinja o ápice de sua preparação. Embora o argentino oscile demais, o Spice Boy não teria fôlego suficiente para aguentar tantas subidas ao ataque e recuos para recompor o meio-campo.

No 4-4-2 estabelecido pelo técnico, o inglês caberia em uma função mais recuada, trabalhando como uma espécie de segundo volante. Aí há um problema sério: o PSG está muito bem servido de jogadores que desempenham este papel com qualidade: Thiago Motta, Blaise Matuidi, Marco Verratti e Clément Chantôme, com os dois primeiros como titulares praticamente indiscutíveis.

A não ser que Thiago Motta continue frequentando a enfermaria de forma assídua, Beckham teria uma pequena chance de quebrar esta hierarquia. Por outro lado, fica difícil vê-lo sentado no banco de reservas, o que deixaria Ancelotti pressionado desde o apito inicial para colocá-lo em campo. Só que não dá para depender de um tipo específico de jogada (cobranças de falta ou escanteio) para ver o inglês com chance de fazer a diferença. Não estamos falando de um kicker em um jogo de futebol americano.

Ancelotti também parece pouco inclinado a mudar seu esquema tático apenas para montar o time em torno de Beckham. Se o 4-4-2 montado por ele ainda apresenta aspectos a melhorar, fica difícil apagar todo o trabalho já feito e redesenhar a equipe em um 4-3-3 mais adaptado ao estilo do Spice Boy. Neste caso, o sacrificado sairia da disputa entre Lucas, Ménez ou Lavezzi – algo fora de cogitação no momento.

Embora seja um jogador especial por tudo o que representou, Beckham chega ao PSG mais como uma importante ferramenta mercadológica. Mesmo que Leonardo tenha dito que a contratação do meia não se limita apenas à venda de camisas, está mais do que na cara o plano perfeito montado pelo clube para consolidar seu plano de entrar no seleto hall dos maiores do continente.

O PSG já chamou a atenção do mundo por conta de sua gastança para reforçar seu elenco. Depois das demonstrações de seu poderio financeiro, em contraste com o período de recessão econômica vivido pela Europa marcada por medidas de austeridade, o time da capital agora mostra que também pode se tornar um fenômeno pop. Ótimo para quem tenta consolidar sua imagem no meio de tantos gigantes. Falta, porém, um pequeno detalhe: de nada adianta ser o mais rico, o mais bacana e o mais cool se por trás não houver conteúdo. Os torcedores querem títulos, não rótulos.

Tropeços

O PSG também tem motivos para rir muito na Ligue 1. A goleada por 4 a 0 sobre o Toulouse fora de casa rendeu muitos frutos ao clube da capital. Após três apresentações de pouco brilho, os parisienses enfim deslancharam. A equipe ainda contou com a ajuda de seus concorrentes diretos para assumir a liderança de forma isolada. Lyon e Olympique de Marselha deslizaram contra rivais da parte de baixo da tabela e agora veem a ponta ficar mais distante.

O OL dava a impressão de seguir direitinho a cartilha diante do Ajaccio. Mesmo jogando na Córsega, os lioneses tomaram as rédeas do jogo desde o início, mesmo sem que isso significasse uma pressão sufocante. O técnico Rémi Garde mandou a campo a mesma formação que derrotou o Valenciennes por 2 a 0 com autoridade fora de casa. Nos primeiros 45 minutos, o ACA se segurou graças à defesa bem compacta.

O gol de Lacazette no começo do segundo tempo deu uma alegria de curta duração ao Lyon. Belghazouani igualou pouco depois e o Ajaccio virou com Mutu em momento de desatenção da defesa lionesa, que deixou o romeno completamente livre. Gomis teve o empate a seus pés, mas viu Ochoa defender sua cobrança de pênalti a poucos minutos do fim. Para completar, o próprio Mutu fechou a vitória corsa em outro pênalti assinalado.

Certamente o jogo teria outro rumo se não fosse a desastrosa atuação da arbitragem, cujos erros se multiplicaram e foram decisivos para determinar o resultado. No primeiro tempo, quando a partida ainda estava 0 a 0, Lacazette teve um gol anulado de forma incorreta. Foi marcado impedimento de Gomis, que não participou da jogada. Na segunda etapa, o pênalti a favor do Lyon também foi marcado de forma equivocada, pois Gomis foi derrubado por Bouhours fora da área. Para completar a lambança, Oliech estava impedido quando foi empurrado por Lovren dentro da área, no lance do terceiro gol do Ajaccio.

Se o OL pode culpar a arbitragem pela derrota, o Olympique de Marseille não tem muito como se justificar. O time foi derrotado por 1 a 0 pelo então lanterna Nancy em pleno Vélodrome e em uma apresentação ridícula. De nada adiantou entrar em campo com um 4-3-3 ofensivo e novo, mas que pouco impressionou. O comportamento dos jogadores sob o novo esquema foi decisivo para o fracasso. Voltados para o ataque, eles se esqueceram da marcação e deram grande espaço aos adversários. O ASNL, com seu 5-3-2 cauteloso, teve muito mais eficiência e matou qualquer esperança de vitória dos marselheses.

Na primeira etapa, o OM se limitou a dois chutes sem direção de Gignac. No segundo tempo, os marselheses ficaram ainda mais desorganizados com a expulsão de Barton. Era a oportunidade para o Nancy matar seu adversário e o fez com requintes de crueldade ao aproveitar um dos principais pontos fracos dos donos da casa. Até então, o ASNL se concentrava nos contra-ataques para levar perigo a Mandanda.

O Olympique de  Marseille tem pavor de jogadas de bola parada, uma das principais fontes de gols de seus inimigos. E foi assim que o Nancy definiu sua redentora vitória, em bola alçada para a área em uma cobrança de escanteio e o gol contra de André Ayew. O ASNL não vencia como visitante havia 14 jogos. Pela primeira vez nas últimas 21 partidas, a equipe saiu de campo sem levar um gol.

Talvez empolgado pela confirmação da chegada de Beckham, o PSG fez uma apresentação irretocável diante do Toulouse fora de casa. O gol precoce de Pastore (que enfim jogou bem) minou qualquer resistência do TFC, cuja defesa bateu cabeça durante os 90 minutos. Com a expulsão de M’Bengue ainda no primeiro tempo, quando a partida já estava 2 a 0, apenas facilitou a exibição destacada de Lucas e Ibrahimovic.

Aliás, o brasileiro mostra a cada um excelente entendimento com o sueco, como provam suas assistências. Além disso, Lucas não se omitiu nas jogadas ofensivas e, com o estilo com o qual se destacou no São Paulo, realizou boas jogadas individuais e ainda provocou o cartão vermelho de M’Bengue. No entanto, ele carrega um velho defeito: o de querer um drible extra quando o mais sensato seria tocar para um companheiro. Nada que manche seu processo de adaptação.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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