França

O futuro do campeão

Título inédito confirmado, festa exultante, presidente com cabelo à la Angry Birds. O Montpellier viveu o momento mais mágico de sua história ao derrotar o Auxerre por 2 a 1 e conquistar a Ligue 1 pela primeira vez em sua história, mas com o passar do efeito da euforia, o futuro do clube entra na pauta. Afinal, manter-se no topo tornou-se uma tarefa ainda mais complicada do que alcançar o Olimpo.

Acostumado ao papel de coadjuvante, o MHSC agora virou vitrine e precisa lidar com esta mudança radical em um intervalo de tempo quase ínfimo. O clube estaria preparado para os holofotes daqui para frente? O primeiro grande efeito da conquista do título francês se traduz no assédio aos seus principais jogadores. Para um clube desacostumado com tanta badalação, chegou a hora de sua diretoria mostrar pulso firme – não apenas na hora de cumprir promessas de pintar o cabelo.

Olivier Giroud terminou a temporada como artilheiro (21 gols) e peça fundamental para o sucesso do Montpellier. Younès Belhanda foi considerado como a revelação do campeonato. Mapou Yanga-Mbiwa foi convocado pela primeira vez para a seleção francesa e pode disputar a Eurocopa-2012. Os três pilares da equipe se tornaram alvo da cobiça de outros clubes do país e do resto da Europa. Deixá-los sair seria um tiro no pé, a não ser que as propostas sejam realmente exorbitantes ao ponto de o clube sonhar alto com a contratação de substitutos de maior calibre.

Os cofres do MHSC ganharão um aporte considerável e este valor deve ser utilizado com sabedoria e sem aquele olho grande do novo rico que gasta apenas pela vaidade de dizer que comprou a última maravilha do universo. Com o salto na quantia recebida pelos direitos de transmissão e na participação da fase de grupos da Liga dos Campeões, o Montpellier recheará sua carteira com no mínimo € 38 milhões. Apenas para comparação, o orçamento do clube para a temporada 2011/12 foi de… € 39 milhões.

O Montpellier tem um exemplo muito claro de como a classificação para a Liga dos Campeões pode ser o prenúncio de uma catástrofe, disfarçado em um belo embrulho para presente. O Auxerre, seu rival na última rodada, foi rebaixado de forma vergonhosa apenas uma temporada depois de participar da LC. Para não terminar como o AJA e ver sua torcida arremessando bolinhas de papel, tênis, tomates e todo tipo de objeto em campo como forma de protesto, o MHSC não pode se deixar dominar pela cobiça.

No entanto, também não dá para vestir o manto franciscano e fazer voto de pobreza. O clube passou para um estágio diferente daquele de recrutar reforços da Ligue 2 e mendigar empréstimos de jogadores sem custo. Participar da fase de grupos da Liga dos Campeões e enfrentar algumas das equipes mais poderosas do continente será um aprendizado e tanto para o Montpellier, mas também pode se tornar uma daquelas armadilhas fatais.

O MHSC não irá longe na LC. É preciso ser realista nestas horas. Também não dá para encarar a competição de qualquer jeito, sob pena de afetar o moral do elenco com rótulos como “vexame”, “fiasco” e até mesmo “vergonha” por uma eliminação precoce. O Montpellier deve encarar a Champions com respeito e uma preparação no mínimo adequada para ficar na dele. Isso significa montar um elenco bom e numeroso o suficiente para se dividir em duas frentes sem deixar o nível cair tanto em âmbito doméstico como continental.

O clube tem a sorte de contar com um treinador como René Girard. Uma espécie de educador, ele encontrou no presidente Louis Nicollin a filosofia de que necessitava para realizar um trabalho decente: priorizar a formação de atletas. E isso foi muito bem feito ao longo destas três últimas temporadas. Hoje, mais da metade do elenco profissional foi formada dentro do próprio clube. Um bom indício de que o MHSC segue uma linha correta de raciocínio para seu futuro e que não deve ser abandonada sob aspecto algum.

Não dá para competir com o Paris Saint-Germain e os milhões de euros trazidos pelo Qatar Sports Investment. Olympique de Marselha e Lyon podem não ter feito boas campanhas, mas contam com a força da tradição. Para se encaixar no rol dos times poderosos da França, o Montpellier precisa seguir uma linha parecida com a do Lille, que seguiu sua linha de pensamento (e se deu mal quando saiu dela) e ronda os primeiros lugares nas temporadas recentes. Caso se deixe levar pela euforia, o MHSC corre o risco de se tornar um novo Auxerre.

Parque da discussão

A polêmica em torno do Parc des Princes se acirra. Nasser al-Khelaïfi, presidente do Paris Saint-Germain e homem-forte do Qatar Sports Investment (QSI), pressiona a prefeitura da capital para que o estádio seja demolido e outro mais moderno seja erguido em seu lugar. A questão volta à tona pelo desejo manifestado do dirigente de contar com uma casa à altura dos seus planos ambiciosos para o clube.

Em entrevista ao Le Parisien, Al-Khelaïfi insistiu na proposta de colocar o Parc des Princes abaixo e erguer uma arena com capacidade para 60 mil pessoas. Jean-Claude Blanc, diretor geral do PSG, tenta convencer a prefeitura a adotar este plano. No entanto, trata-se de algo quase impossível de se realizar. Tudo por conta da Eurocopa-2016; o estádio sediará jogos da competição e não ficaria pronto a tempo se passasse por uma modificação tão radical.

O governo deve manter seu projeto de reformar o estádio e deixa-lo com uma capacidade para 50 mil espectadores. A proposta, porém, desagrada Al-Khelaïfi, que reclama das receitas menores com bilheteria que terá com isso. Hoje, o Parc des Princes pode receber pouco mais de 45 mil pessoas. Enquanto a discussão parece interminável, as obras não podem começar – e o prazo está se esgotando.

Jean Vuillermoz, uma espécie de secretário municipal dos esportes, alerta que as obras devem começar até o fim de junho para que não se corra o risco de atrasos. Ele acha que um estádio para 50 mil pessoas está mais do que suficiente para as partidas da Ligue 1. As partidas com maior apelo, como o clássico contra o Olympique de Marselha e o Lyon, seriam deslocados para o Stade de France – que assim seria utilizado com maior frequência.

Por falar no estádio em Saint-Denis, o ex-presidente Nicolas Sarkozy deu seu pitaco e defendeu a ideia de que o PSG deveria se mudar definitivamente para o Stade de France. Claro que isso não foi determinante para sua derrota para François Hollande, mas certamente ele perdeu alguns votos dos torcedores mais radicais do clube da capital. Alguns grupos divulgaram um manifesto de repúdio à ideia, já que significaria uma ruptura da equipe com suas raízes.

Voltemos a Al-Khelaïfi. O dirigente nem pensa em ter um estádio que não pode nem competir em grandeza com a casa de seus maiores rivais (e que também estarão novinhos em folha para a Euro). A pretensão dele foge da esfera nacional e passa para o âmbito continental. Como o qatariano deseja ver o PSG competindo de igual para igual com as grandes forças europeias, passa por sua cabeça ter uma casa do porte de um Allianz Arena ou um Emirates, por exemplo.

O pensamento do QSI é simples: vale muito mais a pena erguer um estádio cujos benefícios serão sentidos durante dezenas de anos (na visão do PSG) do que reformá-lo exclusivamente para apenas duas partidas da Euro-2016. Neste braço de ferro, o poder público fica no meio de um dilema: se ceder aos desejos dos qatarianos, dirá adeus aos jogos do torneio continental; se os confrontar, corre grande risco de perder uma importante ajuda financeira para custear a obra.

Reformar o Parc des Princes sairá por algo em torno de € 80 milhões – dinheiro que sairá completamente dos cofres públicos se o impasse continuar. Em tempos de grave crise econômica e cintos apertados, injetar tal valor em um estádio parece ser uma medida bastante impopular, com grandes respingos na imagem do recém eleito François Hollande. Para evitar que o estádio se torne um elefante branco (sim, isso pode acontecer se o PSG levar sua vontade até o fim), QSI e governo devem encontrar um meio termo – e rápido.

Talvez a melhor solução seria deixar a megalomania qatariana de lado e seguir em frente com o projeto original, já que a reforma proporcionaria uma casa bastante adequada para os propósitos do PSG. Não seria exatamente um estádio hi-tech, mas o Paris Saint-Germain também está longe de ser um dos grandes clubes do continente.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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