França

O enigma Benzema

Karim Benzema caiu em desgraça com Raymond Domenech. O atacante do Lyon parece cada vez mais fadado à sina de “jogador de clube”, pois não repete nos Bleus o mesmo desempenho de quando veste a camisa do OL. Prova de sua falta de prestígio na seleção francesa se estampou no primeiro duelo contra a Lituânia pelas Eliminatórias da Copa do Mundo-2010. A ausência de Nicolas Anelka sugeriria que o treinador escalasse Benzema ao lado de Henry na frente. No entanto, Domenech achou melhor escalar Peguy Luyindula e deixar Karim no banco de reservas.

As circunstâncias da escolha por Luyindula reforçam a ideia de como Benzema foi relegado a um segundo plano. Além de Anelka, a França perdeu Jimmy Briand e André-Pierre Gignac, ambos machucados, dias antes do confronto em Kaunas. Para compensar tantas perdas no ataque, Domenech chamou Luyindula, com atuações regulares pelo Paris Saint-Germain, mas há quase quatro anos e meio ausente dos Bleus. Estava claro que o “novato”, assim como Guillaume Hoarau, seu companheiro de PSG, deveria aguardar por uma chance. Para surpresa de todos, Benzema ficou para trás.

Para o lionês, a preferência de Domenech por um concorrente que tem sua titularidade discutida no PSG acaba como uma grande humilhação. Na verdade, Benzema paga por sua falta de comprometimento com os Bleus – isso para ser bonzinho. Embora arrebente no Lyon, o atacante chega à seleção com um ar de “não tenho mais nada a provar para ninguém”, em uma postura até certo ponto de arrogância. Do alto de seus 21 anos, Benzema faz pouca questão de se esforçar dentro de campo com a camisa azul, sem esboçar qualquer sinal de querer formar um grupo, fazer parte dele e lutar pelo bem comum.

Ao comportamento questionável do jogador, somam-se os números pífios de suas atuações pela França. Em 21 partidas pelos Bleus, Benzema marcou somente cinco gols – e todos em compromissos de pouca importância ou contra adversários risíveis. Ele balançou as redes três vezes em amistosos e outras duas contra a fragílima seleção das Ilhas Faroe. Bater em bêbado é simples demais; difícil mesmo é ter uma Argentina pela frente e se destacar. Ao contrário; Karim parece mesmo gostar de se esconder quando tem algum peso-pesado para encarar.

Considerado como a maior promessa do futebol francês dos últimos anos, Benzema coleciona decepções pelos Bleus. Tido como maior esperança da equipe na última Eurocopa, ele fracassou de forma retumbante. Em Kaunas, mesmo depois de entrar em campo no segundo tempo, o atacante mais uma vez apresentou-se aquém do esperado. Domenech, cujas escolhas polêmicas costumam ser achincalhadas por público e crítica, pelo menos nessa deu uma dentro. Como o treinador não tem confiança no lionês, torna-se necessário experimentar.

O técnico ainda justificou a escolha por Luyindula diante dos lituanos. Ele queria alguém com características semelhantes às de Ribéry para atuar pelo lado direito (velocidade e capacidade para voltar e marcar). Henry, no Barcelona, faz mais ou menos isso, mas ficou como a referência no ataque, papel que caberia a Benzema. Enquanto amarga um período de baixa na seleção, o lionês segue seu ano de pouco brilho. Desde 21 de fevereiro, Benzema não balança as redes. Em 2009, ele marcou apenas dois gols

A má forma e o aparente desinteresse em mostrar algo pelos Bleus coloca o atacante do OL em xeque. Sem convencer, ele só faz perder terreno para concorrentes que nem têm tanto nome, mas pelo menos se mostram mais eficientes e esforçados. Hoarau e Gignac, por exemplo, brigam de forma acirrada pela artilharia da Ligue 1 e certamente ganharam grande motivação com a lembrança por parte de Domenech. Anelka, longe de ser uma unanimidade no Chelsea, o jovem Briand, e até mesmo Gomis e Savidan surgem como opções constantes para Domenech. Sem mexer uma palha para mudar sua situação, Benzema corre o risco de cair em desgraça nos Bleus, perder a condição de convocável e ratificar sua fama de “jogador de clube”. Uma reputação indesejada para quem despontava como grande esperança de gols para os franceses.

Vitória magra

Com a pressão de derrotar a Lituânia fora de casa para se manter na briga (e também afastar a crise das costas de Domenech e dos jogadores), os Bleus comemoram demais o triunfo por 1 a 0 obtido em Kaunas. O placar magro diante de um rival de pouca tradição, mas com uma forte retranca, deixou os franceses calmos. Embora esteja distante de seus melhores dias, a seleção francesa ao menos ganhou confiança, elemento fundamental para os desafios futuros.

Em um gramado de péssima qualidade, a França não demorou muito para exercer seu domínio sobre os donos da casa. Montada em um 4-3-3 típico, a equipe contou com uma surpresa no seu ataque: a presença de Luyindula pelo lado direito. Benzema amargou o banco e viu Henry exercer o posto de atacante de área. O jogador do Barcelona sentiu esta mudança de posicionamento, pois atua pela esquerda nos blaugranas, e teve um desempenho apenas regular.

Na esquerda, Ribéry deveria se sentir à vontade. Embora tenha marcado o gol da vitória, Franck já teve dias melhores ao atuar em seu setor preferido. Como Domenech foi obrigado a mexer no ataque devido à presença de Luyindula em cima da hora, demorou para a França causar algum incômodo real aos bálticos. Apesar de os Bleus dominarem as ações, faltavam lances mais agudos para definir a partida. Henry, por exemplo, contentou-se apenas com uma ou outra sobra. Ele ainda tentou buscar jogo ao cair pela esquerda, desarrumando um pouco a formação ofensiva dos Bleus.

No meio-campo, os Bleus aplaudiram a boa apresentação de Gourcuff. Há algum tempo, o jogador do Bordeaux sofria com o cansaço físico – tanto que os Marine et Blanc caíram de rendimento quando seu principal jogador estava fora de suas melhores condições. aos poucos, ele prova ter se recuperado muito bem e foi o ponto de inspiração de uma França sem tantos atrativos no primeiro tempo.

A concha lituana permaneceu bem fechada na segunda etapa e só foi aberta com o chute preciso de Ribéry. Os donos da casa, mais preocupados em fechar todos os espaços do que criar alguma coisa, enervaram os visitantes. Sem trabalho, Toulalan até avançou mais do que o normal para ajudar seus companheiros e, quem sabe, dar um pingo de criatividade ao time. Com o placar a favor e diante de um adversário muito recuado, a França cuidou mais de garantir o resultado. Nada mais fácil, pois a Lituânia praticamente não ameaçou a meta de Mandanda.

Aliás, o goleiro do Olympique de Marselha agradeceu pela falta de oportunidades criadas pelos bálticos. Nos últimos jogos pela seleção, Mandanda recebeu diversas críticas por suas falhas de posicionamento e isso deixava clara sua insegurança. A dupla de zaga, formada por Squillaci e Gallas, mal sujou seu uniforme. Nas poucas vezes em que foram exigidos, ambos mostraram serviço. Nos raros lances de bola parada, verdadeiro tormento para os Bleus, eles se sobressaíram com certa facilidade.

Mesmo com seus defeitos, a França obteve um resultado muito bom em Kaunas. Apesar de ser algo esperado, derrotar a Lituânia trouxe algo fundamental para Domenech e seus comandados: confiança. Se a qualidade do futebol apresentado deixa a desejar, ao menos este clima positivo permite à equipe reagir diante das dificuldades e buscar alguma saída. Pode não agradar aos olhos, mas garante o mínimo para seguir em águas calmas nas Eliminatórias.
 

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Equipe Trivela

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