Futebol francês

O Chapeleiro Maluco

A grande multidão que acompanhará a Copa do Mundo-2010 pela televisão ganhou dois espectadores ilustres. Raymond Domenech anunciou os cortes de Mickaël Landreau e Hatem Ben Arfa do grupo que inicialmente havia chamado para o Mundial. Cena bastante parecida com a de 2008, quando os dois tiveram que deixar a concentração dos Bleus em Tignes, local de preparação da equipe para a disputa da Eurocopa.

Para Landreau, o corte foi mais doloroso. Antigo conhecido de Domenech, que o comandou nas seleções de base, o goleiro viveu uma boa temporada pelo Lille. Contudo, ele levou a pior na concorrência com Cédric Carrasso, do Bordeaux. Sem Mundial e sem Liga dos Campeões, Landreau deve se sentir hoje no pior dos mundos.

A exclusão de Ben Arfa, por outro lado, parece menos traumática – e mais justa. O meia-atacante sofria a concorrência direta com Mathieu Valbuena, seu companheiro no Olympique de Marselha. Além disso, seu fim de temporada foi marcado pela falta de tempo de jogo e um estado de ânimo pouco animador – fatores importantes e decisivos para ser limado do grupo.

Além deles, Rod Fanni, Yann M’Vila, Jimmy Briand e Adil Rami ficaram fora do período de concentração da equipe em Tignes. No total, 24 jogadores foram relacionados e a única dúvida reside em William Gallas. O defensor do Arsenal terá que provar de todas as maneiras estar em boas condições físicas para ser mantido entre os 23 que estarão na África do Sul. Se esta hipótese se confirmar, Marc Planus deve dançar.

Alguns fatos curiosos marcam os seis cortes feitos por Domenech. O treinador mais uma vez revelou seu lado sádico ao chamar Landreau, que não era lembrado para a seleção há algum tempo, apenas para tirá-lo pouco depois. Isto lembra bastante o caso de Patrick Vieira. O meio-campista fez o impossível para ser chamado: trocou a Internazionale pelo Manchester City para ter mais tempo de jogo, tentou superar seus problemas físicos… Tudo para ganhar um “não” categórico do treinador após carregar o mundo nas costas.

O treinador também havia chamado três jogadores do Rennes entre os 30 nomes iniciais. Na lista dos 24, nenhum deles estava lá. Não há sentido algum nisso, a não ser causar impacto e depois dar uma daquelas risadas maquiavélicas pelo corte esperado. Enquanto isso, Anthony Réveillère, abaixo de suas melhores condições, segue com prestígio por ser polivalente. Sébastien Squillaci, apesar de não estar completamente recuperado de um problema no joelho, também continua lá.

Domenech parece fazer de tudo para coroar seu trabalho à frente dos Bleus incorporando o espírito do Chapeleiro Maluco. Em vez de oferecer chá aos seus convidados, porém, ele oferece doses de seu rancor, falta de bom senso e critérios duvidosos para jogar no lixo as chances francesas no Mundial. Uma atitude típica de quem está pouco se lixando para o que dizem dele – mas isso sempre foi uma das características do técnico.

Nem mesmo a cada vez mais anunciada chegada de Laurent Blanc como seu substituto parece estimulá-lo para fazer um trabalho de transição razoável. O ex-treinador do Bordeaux, caso seja mesmo confirmado no cargo, terá que começar seu trabalho do zero, para recuperar os Bleus após a tática da “terra arrasada” usada por Domenech.

Em baixa

O Lille elegeu seu carrasco nesta temporada. O Lorient definitivamente se tornou persona non grata para os Dogues. Logo no começo desta temporada, os Merlus derrotaram o LOSC por 2 a 1 na casa dos adversários. Tudo bem, era início de campeonato e o resultado se diluiria no decorrer da Ligue 1. Pois bem; chegamos à última rodada e lá estavam os Dogues frente a frente com o mesmo rival. Dependente de um bom resultado para garantir uma vaga na Liga dos Campeões, o time mais uma vez caiu por 2 a 1 e terá que se contentar com a disputa da Liga Europa.

Em 2008, o Lille enfrentou uma frustração parecida. A equipe estava na disputa por uma vaga na então conhecida Copa Uefa, mas amargou um empate por 1 a 1 com o… Lorient. Nesta reta final de campeonato, o LOSC vinha embalado por uma série de cinco vitórias e pelo fato de ter o ataque mais poderoso da Ligue 1. Tudo isso foi por água abaixo e a equipe teve a chance de resolver a situação a seu favor.

Yohan Cabaye teve infinitos segundos para pensar em como fazer a bola estufar as redes na cobrança de um pênalti quando a partida estava empatada por 1 a 1. Só que o meio-campista desperdiçou a oportunidade, em seu segundo pênalti perdido na temporada. O treinador Rudi Garcia preferiu vociferar contra o árbitro, que deveria ter expulsado Audard pela falta cometida em Gervinho – semelhante à feita por Mandanda, do Olympique de Marselha, na semana passada, e punida com cartão vermelho.

Por mais incrível que possa parecer, o fato de o Lille não ter se classificado para a Liga dos Campeões pode ser benéfico para a equipe. Claro, o clube perdeu uma excelente chance de fazer caixa e ficar na vitrine europeia, mas tudo corria o risco de ruir muito antes da bonança. Se ficasse em terceiro, por exemplo, o LOSC seria obrigado a disputar a fase preliminar da LC; uma provável eliminação com apenas dois jogos certamente teria impacto bastante negativo (vide Toulouse há algumas edições). Pelo menos a equipe tem maior chance de manter seus principais destaques e, com alguns reforços, fazer uma campanha ainda melhor em 2010/11 para chegar mais maduro ao torneio continental.

O Bordeaux, por sua vez, vive a “operação desmanche”. O decepcionante sexto lugar na Ligue 1, após sonhar com o bicampeonato e uma caminhada mais longa na LC, faz o time pensar no seu futuro com muitas interrogações. A principal no momento gira em torno do substituto de Laurent Blanc. O treinador foi o principal arquiteto de uma equipe talhada para deixar de ser mera coadjuvante do Lyon para se tornar destaque no país. Sem ele, fica a dúvida se o time manterá a mesma toada.

Os Marine et Blanc enfrentam uma situação estranha. Sem vaga em competições continentais, o clube agora corre em busca de um substituto para não atrasar seus planos para 2010/11. As sondagens começaram mal: Jean Fernandez, cotado para assumir o cargo, preferiu continuar no Auxerre, dono de uma vaga na LC. Eric Gerets aparece como um possível candidato.

A diretoria girondina sonha com alguém que já tenha passado pelo clube, para facilitar seu processo de adaptação. René Girard preenche este requisito e tem a seu favor a surpreendente temporada com o Montpellier. No entanto, há um detalhe: ele ainda tem um ano de contrato com a equipe. Rolland Courbis e Jean Tigana também surgem com certa força. O primeiro, em liberdade condicional, demonstrou não ter interesse. O segundo, após frustrante passagem pelo Besiktas em 2007, também não parece muito animado em assumir um canteiro de obras e arcar com a construção de uma equipe competitiva. Enquanto isso, a torcida segue cada passo com apreensão.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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