O caldeirão de Geoffroy-Guichard esteve efervescente como nunca para o dérbi entre Lyon e Saint-Étienne, pela 13ª rodada da Ligue 1. Não faltaram ingredientes para apimentar o já inflamado duelo entre os rivais do Rhône, que teve labaredas antes do apito inicial, durante os 90 minutos de peleja e até mesmo quando a bola parou de rolar. Ao final de um encontro para lá de tenso, o OL riu por último: marcou um gol no apagar das luzes, venceu por 2 a 1 e confirmou sua reação no campeonato após uma péssima largada.
Para começar a polêmica, o ministério do interior e a prefeitura do Loire abriram os trabalhos com medidas polêmicas. Eles proibiram a presença de torcedores do Lyon nas arquibancadas do Geoffroy-Guichard para evitar confusões com os torcedores do Saint-Étienne. Era apenas uma pitada de sal para deixar a receita de um dia de confusões com um toque de chef. As especiarias entraram logo depois.
Em Lyon, cerca de 300 pessoas protestaram contra o veto ministerial, sem grandes consequências. A grande manifestação veio mesmo dentro do gramado, mais especificamente dentro de um dos gols. Cerca de 45 minutos antes de o jogo começar, Joël Bats, ex-goleiro da seleção francesa e atual treinador de arqueiros dos lioneses, aprontou das suas. Calmamente, ele pendurou um cachecol do Lyon bem em frente ao setor no qual ficam os Green Angels, uma das torcidas organizadas do ASSE cujos membros seriam companhias agradáveis para jantar com a família de vocês, leitores – só que não.
O gesto, que era para ser uma forma de apoio aos torcedores do Lyon impedidos de se deslocar para o estádio, foi de uma estupidez cavalar. Se os Green Angels já hostilizavam os lioneses de forma natural, assim como diversos outros torcedores do Saint-Étienne, a provocação feita com o cachecol foi como balançar uma bandeira vermelha para atiçar o touro. Houve invasão de campo, tentativas de agressão e muito, mas muito trabalho dos seguranças para conter os ânimos.
Durante os 90 minutos, o clima foi morno. Tirando os rolos de papel higiênico e outros objetos arremessados na direção do goleiro Mathieu Gorgelin, quase nada provocou maior apreensão para riscos de incidentes. A sensação de calma, porém, era ilusória. Um cozimento em banho-maria, para que a mistura chegasse no ponto perfeito para atingir a fervura. Após um primeiro tempo sem gosto, de baixo nível técnico e muitas faltas, a etapa final valeu muito a pena.
O gol de Lacazette no começo do segundo tempo despertou o Saint-Étienne, disposto a encurralar o Lyon. O empate com Hamouma, aos 20 minutos, a pressão infernal da torcida e a insegurança transmitida por Gorgelin, terceiro goleiro do OL, davam a impressão de que a virada era algo natural e viria logo. O ASSE encontrava dificuldades para penetrar na defesa lionesa, fechada de forma quase hermética. Com uma nova disposição em campo (um 4-4-2 em losango, com favorecimento para o avanço dos laterais), o OL saiu das cordas e deu o golpe mortal nos acréscimos.
Assim como no primeiro gol, Bayal Sall relaxou na marcação e deu a liberdade necessária para Briand definir a vitória dos visitantes. O Lyon quebrou um jejum de 19 anos (não vencia o Saint-Étienne em Geoffroy-Guichard desde abril de 1994) e alcançou o rival: agora, ambos estão com 18 pontos. O clima de festa do OL deu lugar à confusão. No caminho para os vestiários, membros da comissão técnica das duas equipes começaram a discutir. O que era um bate-boca se transformou em pancadaria e sobrou para Jean-Michel Aulas.
O presidente do Lyon diz que foi agredido por Stéphane Ruffier e fez duras críticas ao goleiro dos Verdes. O jogador, por suas vez, rebateu; falou que o dirigente quer sempre dar uma de xerife quando vai ao estádio do ASSE e o acusou de mentir na cara dura. Com tantos temperos, o picante dérbi devolveu a confiança ao Lyon, que aos poucos se ajeita após um início de temporada terrível.
De passagem pela LC
O Olympique de Marselha caminha com firmeza para uma campanha 0% na Liga dos Campeões. Desde o sorteio dos grupos, quando ficou definido que o OM caíra no tal “grupo da morte”, poucos acreditavam nas possibilidades de o clube se classificar para a Liga Europa – imaginar o avanço para as oitavas de final da LC já era impossível. A eliminação dos marselheses após apenas quatro partidas reforça as diferenças de nível entre os clubes franceses dentro da competição.
De um lado, o PSG navega em águas tranquilas. Claro, a equipe caiu em uma chave bastante simples, algo que o Olympique de Marselha nem de perto sonhou. No entanto, mesmo se estivesse em um grupo baba, o OM dificilmente apresentaria algo melhor do que o visto até agora. E nada faz crer que o time tenha alguma chance de se despedir de forma digna e somar algum ponto nos dois jogos restantes.
Em seu 100º jogo na Champions, o Olympique de Marselha não teve capacidade de encarar o Napoli no mesmo patamar e foi superado por 3 a 2. Mesmo jogando no Vélodrome, o OM voltou a exibir seus velhos problemas defensivos e as limitações de um debutante neste tipo de torneio. Os marselheses até abriram o placar, mas permitiram a virada dos partenopei com um festival de bobagens de seus defensores, algo inadmissível para quem almeja uma posição de destaque na LC.
Nas jogadas dos três gols do Napoli, houve erros simples de marcação, sem contar a falta de agressividade para combater os avanços da equipe italiana. Essas falhas não foram exclusividade desta partida. O Arsenal agradeceu a Morel pelo presente em um dos gols da vitória por 2 a 1 dos Gunners. E o próprio Napoli foi beneficiado pelos erros de posicionamento de Fanni no triunfo por 2 a 1 no San Paolo.
O OM repete os péssimos desempenhos de Lille e Montpellier na temporada passada, quando foram eliminados a duas rodadas do fim da fase de grupos. Os marselheses sofreram dez gols e ficaram sempre com a sensação de que poderiam ter melhor sorte. O despertar da equipe, porém, foi tardio. De nada adiantou a postura mais compacta do time diante do Napoli no Vélodrome se a defesa não alcançou o mesmo nível.
Postado em um 4-3-3 já utilizado nas semanas anteriores, os marselheses até conseguiram incomodar a defesa do Napoli. Com André Ayew mais recuado e Valbuena pela esquerda, o OM pressionou, mas pagou caro pela desatenção e ingenuidade de seu setor defensivo. Sem vencer há sete jogos, o Olympique de Marselha depende de uma reação imediata para evitar um mergulho profundo na crise.



