Ménage à trois

A rodada da Ligue 1 pertenceu a dois artilheiros. Michel Bastos e Mamadou Niang roubaram completamente a cena no fim de semana com os três gols marcados por cada um nas vitórias de Lyon e Olympique de Marselha sobre Sochaux e Nancy, respectivamente. Para o brasileiro, o feito serviu como um recado para o técnico Claude Puel, que o fez amargar a reserva. Já o senegalês apagou um pouco mais a fama de atacante que desperdiça muitas chances.
No primeiro duelo contra o Real Madrid pela Liga dos Campeões, Michel Bastos ficou no banco de reservas. Como nas últimas semanas, o treinador Claude Puel achou melhor deixar o brasileiro como suplente, já que ele não exibia o mesmo futebol de destaque dos tempos do Lille. Bom, se fosse por este critério, então ele deveria mandar a equipe inteira observar o jogo e mandar a campo apenas Hugo Lloris e Lisandro López.
Michel Bastos ganhou nova oportunidade diante do Sochaux. Como se fosse para dar uma resposta ao técnico que o ignorou, ele simplesmente fez chover em campo. Apenas no primeiro tempo, foram três gols que garantiram a tranquila vitória lionesa por 4 a 0 sobre o adversário. Mais: o resultado manteve a equipe perto da zona de classificação para a próxima edição da LC.
No jogo, Puel manteve o velho 4-3-3 usado no duelo diante dos Merengues. A diferença ficou por conta da formação do tridente ofensivo. Contra o Sochaux, ele mandou a campo Éderson, Gomis e Michel Bastos. A tarefa deles foi facilitada pela péssima atuação da defesa dos Leões, o que forçou o técnico Francis Gillot fazer alterações prematuras na equipe.
No entanto, as entradas de Boudebouz e de Carlão (lembram dele no Corinthians?) pouco ajudaram a melhorar as coisas. Afinal, o estrago já estava feito: o Lyon vencia por 3 a 0 e já diminuíra o ritmo de jogo, administrando sua confortável vantagem. Maxime Josse, por sua vez, viveu um pesadelo. O lateral falhou em dois gols de Michel Bastos, ao deixá-lo com extrema liberdade para concluir, e cometeu um erro grosseiro na jogada do gol de Lisandro López, que fechou a goleada.
Voltando a falar de Michel Bastos, fica cada vez mais complicado encontrar alguma lógica na insistência de Dunga em querer rotulá-lo como lateral-esquerdo. Desde os tempos do Lille, o brasileiro atua no meio-campo, e nesta partida contra o Sochaux mostrou sua capacidade quando joga ainda mais avançado em campo. O técnico da Seleção até pode elogiar a versatilidade do jogador, mas querer utilizá-lo na lateral seria um completo retrocesso e uma poda no que ele pode produzir em uma partida.
Outro “coup de chapeau” (para não falar hat-trick) saiu em Marselha. Niang acabou com o Nancy ao fazer os três gols da vitória por 3 a 1. Contudo, engana-se quem acha que a vitória do Olympique foi tranquila. O goleiro Steve Mandanda teve bastante trabalho, mas o dia iluminado do senegalês compensou os esforços defensivos. O triunfo ganha sabores mais doces ainda quando se analisado o contexto do jogo.
Pouco tempo antes (para ser mais exato, 66 horas) do pontapé inicial do duelo no Vélodrome, o OM teve pela frente o Kobenhavn no jogo de ida do mata-mata da Liga Europa. Obviamente, vencer o cansaço já seria uma grande vitória para os marselheses. Didier Deschamps deixou Bonnart e Cheyrou no banco e escalou Kaboré e Abriel como titulares contra o ASNL.
O rodízio parecia a chance de ouro para Abriel reencontrar seu melhor nível. No entanto, o meia teve mais uma atuação discreta e acabou substituído pelo próprio Cheyrou. Outra decepção ficou por conta de Taiwo. As más atuações na Copa Africana de Nações ainda parecem contaminá-lo. O lateral-esquerdo falhou no lance do gol do Nancy e nem mesmo a assistência para um dos gols de Niang serviu para amenizar seu dia ruim.
Inesperado
Pelo jeito, nem mesmo a fama dos “galácticos” pareceu resistir ao Lyon em Gerland. O OL surpreendeu os Merengues com um triunfo por 1 a 0, fortalecendo a sina de fregueses da equipe espanhola. Tudo muito legal, tudo muito bacana, mas alguém de fato acredita que os lioneses sejam capazes de aguentar o tranco no Santiago Bernabéu? Ao menos, a vitória no jogo de ida das oitavas de final da Liga dos Campeões deu moral ao time, em momento no qual mais precisava de um impulso.
Seria difícil imaginar que o Lyon oferecesse alguma resistência diante de tão poderoso rival, ainda mais por conta de suas últimas atuações sem brilho na Ligue 1 antes desta partida. Só que os comandados de Claude Puel guardaram todas as suas energias exatamente para este jogo. Tanto que, no campo, os lioneses atuaram como se fosse o último jogo de suas vidas.
A desconfiança e as críticas à equipe serviram para motivar os jogadores, que souberam usar o clima pessimista a seu favor. Com uma abnegação espantosa, eles se desdobraram no gramado para fazer um jogo quase perfeito do ponto de vista tático. O campo pesado de Gerland desfavoreceu o estilo de jogo técnico do Real Madrid, mas não foi apenas esse o fator determinante para a surpreendente vitória dos donos da casa.
Puel escalou a equipe em seu tradicional 4-3-3. O Lyon fez valer sua velha característica de sufocar o adversário nos minutos iniciais, que tanto faz falta. Com uma marcação sólida no meio-campo, nem mesmo Kaká e Cristiano Ronaldo tiveram a liberdade necessária para criar alguma coisa. Um Real Madrid irreconhecível caía aos pés dos esforçados lioneses, que fizeram do jogo pelas pontas um dos segredos do sucesso.
Govou, por exemplo, fez o que quis pelo lado direito, deixando Marcelo na saudade em diversas ocasiões. O brasileiro nem voltou para o segundo tempo, tamanho o baile sofrido. Do outro lado, César Delgado se multiplicou e tomou conta do setor. Com os Merengues presos, Puel ainda tornou seu meio-campo mais denso no fim do jogo com a entrada de Källström no lugar de Pjanic na parte final do duelo. Houve até mesmo oportunidades para o OL ampliar a vantagem; a magra vitória não deve ser suficiente para o confronto do Santiago Bernabéu.
Ao contrário dos anos anteriores, o Lyon parte para o jogo de volta das oitavas da LC com pelo menos algo positivo: não levou gol em casa. O solitário gol marcado por Jean II Makoun fez a justiça no placar, mas parece difícil que o OL consiga repetir na casa dos blancos a mesma aplicação apresentada em Gerland. Se as análises negativas motivaram o time a uma apresentação de gala, talvez o descrédito em obter a vaga em território inimigo sirva mais uma vez como motivação.
E, por incrível que pareça, o Real Madrid não canta nada no histórico de duelos contra os lioneses: em cinco jogos, foram três derrotas e dois empates. Isso sem contar a “maldição das oitavas” que persegue o time há várias temporadas. É possível sonhar, embora a teoria se mostre bem mais cruel.



