Máquina emperrada

Como era de se esperar, o Lyon conquistou o título simbólico do primeiro turno da Ligue 1 e dá toda a pinta de levar o octocampeonato para casa. No entanto, após 19 rodadas e toda a disputa da fase de grupos da Liga dos Campeões, o OL esteve longe de impor sua supremacia como um grande conquistador. Em vez disso, a equipe deu margem para muitas dúvidas, apesar das mudanças feitas tanto no elenco como na comissão técnica para esta temporada.
Quando Claude Puel chegou do Lille, veio com a fama de conseguir milagres com um grupo de jogadores guerreiros, mas sem grandes estrelas. O treinador encontrou no Lyon aquilo que nunca dispôs no LOSC; mesmo assim, encontrou severas dificuldades para montar o time. Para começar, ele se viu sem muitas alternativas com as freqüentes lesões, principalmente em seu setor defensivo. Réveillère, Clerc, Bodmer, Mensah, Grosso, Cris… Isso sem contar com Pjanic, Fábio Santos e Benzema, outros freqüentadores da enfermaria do clube.
Aliada a estes desfalques quase constantes, Puel também precisou se desdobrar para escalar o Lyon para a disputa de torneios simultâneos (Ligue 1, LC, Copa da França). Ou seja: a cada jogo, eram necessárias mudanças constantes para preservar quem escapou das contusões e, ao mesmo tempo, ter uma equipe competitiva. Tantos problemas explicam outro ainda maior: a falta de identidade tática do OL.
Nas últimas temporadas, o time se caracterizou pelo uso do 4-3-3 – tanto que virou até um termo comum para a imprensa francesa ao se referir à formação “à lionesa” (com dois volantes, um meia armador, um atacante mais fixo na área e dois pontas velozes). Alain Pérrin, treinador em 2007/08, até tentou implantar um 4-4-2 no começo da temporada, mas a equipe teve um rendimento tão ruim que o treinador foi obrigado a retornar ao antigo esquema.
Puel ainda pena para encontrar a fórmula ideal. O técnico já escalou no 4-3-3, mas em virtude de ausências, suspensões e rodízios, já mandou a campo um 4-4-2 e até um 4-2-3-1 (de péssima lembrança no primeiro tempo do duelo contra o Bayern de Munique na LC, em Gerland). Se a tática muda com freqüência, há uma grande rotatividade entre os jogadores, impedindo a formação de uma equipe-base. O resultado desta salada está na falta de entrosamento, notada principalmente com a fragilidade da defesa.
Com estes pontos fracos evidentes, o Lyon deixou de amedrontar seus adversários. Outra de suas características, a marcação e pressão quase insuportáveis nos primeiros minutos de partida para sufocar os rivais e definir o jogo logo, perdeu-se no tempo. O time de vez em quando consegue fazer alguma vítima nesses botes fatais, mas agora se tornou freqüente ver o OL acuado, sem tanta criatividade para atacar e com uma postura muitas vezes covarde, ao se fechar em seu casulo e fazer o tempo correr sem grandes anseios.
Futuro nada promissor
Até por conta dos seguidos problemas vividos por sua defesa, o OL tem atuado com muito receio. Na grande maioria das oportunidades, a equipe se mostra com seis jogadores atrás da linha da bola, sem esquecer que Govou e Éderson também tem recuado para auxiliar no combate no meio-campo e também buscar jogo. Como Juninho Pernambucano não anda com a mesma inspiração de outras épocas, complica-se a chance de se construir um estilo de jogo fluido, em direção ao ataque.
Ao contrário de temporadas recentes, o Lyon não desperta mais tanto medo em seus principais rivais. Para completar, contra seus adversários diretos na briga pelo título da Ligue 1, o OL também não exibe mais o mesmo bom desempenho contra quem ousa lhe desafiar. A comparação dos resultados dos lioneses contra os primeiros colocados da tabela ou diante de times tradicionais nestas duas temporadas mostra uma realidade preocupante para a torcida.
Em 2007/08, o Lyon venceu os dois confrontos contra Bordeaux (vice-campeão) e Paris Saint-Germain. Contra Rennes, Nancy e Saint-Etienne, os lioneses ganharam um duelo e empataram outro. Apenas o Olympique de Marselha conseguiu a façanha de derrotar o OL nas duas partidas entre eles. Em 2008/09, até agora os resultados estão bem diferentes e longe deste aproveitamento.
O Lyon tomou de 3 a 0 do Rennes, em partida na qual nem viu a cor da bola. Diante do PSG, o OL perdeu de 1 a 0 em outra exibição pífia. Contra o Bordeaux, apesar do triunfo por 2 a 1, os lioneses foram completamente dominados pelos rivais por um longo período. Na vitória por 3 a 2 sobre o Nice, os lioneses contaram com uma certa ajudinha da arbitragem para sair de campo com os três pontos. O Lille arrancou um empate por 2 a 2. Apenas o Toulouse sentiu a verdadeira fúria dos heptacampeões, mas o 3 a 0 sofrido pelos Violetas saiu logo na primeira rodada.
Para completar, o time nunca esteve tão dependente de Karim Benzema. A ausência do atacante em algumas partidas, devido a uma contusão, provou como o OL cai demais de rendimento sem seu principal jogador. Em teoria, o elenco da equipe teria condições de amenizar o problema, mas na prática o resultado foi o pior possível. Sem o atacante da seleção francesa, Puel viu seu time se transformar em um clube comum.
Os problemas físicos de Benzema eram a oportunidade pedida por Fred para convencer tanto ele como o clube de seu valor. No entanto, o brasileiro não conseguiu repetir suas atuações quando era titular absoluto. Quando esteve ao lado de Benzema, Fred também encontrou problemas de adaptação ao estilo do companheiro. Para piorar, o ex-cruzeirense jogou tudo no ventilador ao afirmar que desejaria ter seu contrato rescindido com os lioneses. Para quem estava enrolado com o presidente Jean-Michel Aulas por conta de seus gestos de indisciplina na temporada passada, esta foi a gota d’água.
As outras alternativas ficaram longe de encher os olhos. Piquionne, de tão destacado desempenho no Saint-Etienne, virou um peso morto. Keita, um dos homens de confiança de Puel no Lille, oscila demais e ainda não encontrou seu espaço. Ederson, esperança para substituir Juninho, tem jogado bem, mas se limita apenas ao lado esquerdo do campo. Pjanic, promissor meia-atacante do Metz, sofreu grave lesão e mal teve tempo de mostrar seu valor. Há ainda Delgado, longe de convencer torcida e o treinador.
Com tantas dificuldades, o Lyon caminha para a segunda metade da temporada repleto de incertezas. Nem mesmo o retorno dos lesionados garante alguma tranqüilidade, até pela falta de identidade tática da equipe como explicado anteriormente. Levando-se em consideração que o OL encara “apenas” o Barcelona nas oitavas-de-final da LC, o alto risco de eliminação precoce do torneio continental desenha no horizonte mais uma temporada frustrante. Para quem investiu pesado para apagar a impressão ruim deixada em 2007/08, a cópia perfeita do que aconteceu antes deixará uma grande sensação de derrota, mesmo se confirmado o octocampeonato da Ligue 1.



