Lyon VII, o rei da Ligue 1

Nem mesmo quando cumpriu uma temporada com desempenho inferior ao de suas expectativas, o Lyon deixou de comemorar a conquista de mais um título consecutivo da Ligue 1. Apesar das chances dadas pela equipe para alguém lhe roubar o cetro, no final o OL impediu o Bordeaux de subir ao trono. Fortaleceu-se o ditado de que é muito simples explicar o futebol francês: são 22 jogadores atrás da bola e no fim o campeão é o Lyon. A hegemonia no país está mantida, a torcida festeja de novo, as esperanças para a Liga dos Campeões se renovam… Entretanto, a taça erguida por Juninho Pernambucano não esconde os defeitos apresentados pelos lioneses ao longo de 2007/08 – aliás, bem mais numerosos do que nos últimos tempos.
Mesmo nos momentos nos quais o time deveria respirar mais aliviado, ele jamais conseguiu repetir a mesma serenidade de épocas bem próximas. A prova para esse desequilíbrio se encontra a partir da 28ª rodada. Com a vitória por 4 a 2 sobre o vice-líder Bordeaux, o Lyon abriu uma diferença de nove pontos em relação aos Marine et Blanc. A distância daria a certeza da conquista de um título antecipado, sem grandes preocupações. Neste momento se sentiu a disparidade entre os elencos de temporadas anteriores. Sem ser o mesmo rolo compressor, o OL demonstrou uma irregularidade acima do habitual em uma situação na qual se acostumou a ligar o piloto automático e deixar o ritmo elevado fluir até a consagração definitiva, com algumas rodadas de antecedência.
Tal inconstância tem raízes logo no começo de 2007/08. Na fase de grupos da Liga dos Campeões, o Lyon perdeu duas vezes por 3 a 0 para Barcelona (no Camp Nou) e Rangers (em pleno Gerland) sem demonstrar o mínimo poder de reação. A mesma ausência de ímpeto se revelou nas partidas finais da Ligue 1. Como os rivais domésticos dos lioneses não têm o mesmo nível de seus adversários da LC, tornou-se menos difícil contornar suas debilidades e caminhar, a passos trôpegos, rumo ao título.
Para a próxima temporada, a direção do clube precisa promover uma grande reformulação em seu elenco. Juninho Pernambucano, líder do grupo, não consegue mais manter o mesmo nível de suas atuações devido às suas condições físicas. Vários reforços contratados se revelaram verdadeiros fiascos. Na zaga, Anderson colecionou erros e fez a torcida sentir saudades de Cris. O campeão mundial Grosso não se adaptou e esteve perdido em boa parte das vezes nas quais esteve em campo. Nem dá para citar Crosas, um reserva do Barcelona, e Delgado como esperanças para um futuro melhor.
Alain Pérrin também chega bastante desgastado ao final do campeonato. Contratado com a chancela de ser campeão da Copa da França pelo Sochaux, o técnico não foi além de seus predecessores. Considerado como um especialista na área tática, ele precisou se explicar pessoalmente ao presidente Jean-Michel Aulas por algumas de suas escolhas, como foi visto após o empate sem sal por 1 a 1 com o Rennes na 31ª rodada. Sem despertar grandes amores na diretoria, Pérrin passou longe da unanimidade também entre os jogadores, em uma contribuição vital para seu destino provável – a porta de saída.
Desde sua chegada, o técnico despertou em alguns dos principais líderes do elenco uma certa antipatia. Pérrin até ganhou um apelido nada carinhoso: PPH, uma abreviatura para ‘passera pas l’hiver’ (não passará do inverno). Logo de cara, ele quis montar a equipe em um 4-4-2, mas os resultados insatisfatórios o fizeram retornar para o costumeiro e vitorioso 4-3-3 ao qual os atletas estavam acostumados e se sentiam muito mais à vontade para atuar. Sem pulso e desmoralizado, Pérrin contou com a sorte de ter um inspirado Benzema para salvar a equipe várias vezes.
Ainda falta muito para o Lyon ter algum concorrente à altura na França, mas os erros cometidos nesta temporada colocaram em dúvida a força da equipe. Também não há motivo para desespero, pois o clube demonstrou saber tirar lições positivas de suas falhas. Para 2008/09, os lioneses precisam tomar mais cuidado em seu planejamento, principalmente quando pensar na lista de reforços. Embora a Ligue 1 tenha se tornado monótona para o OL pela falta de desafios maiores, o time não deve se esquecer da existência da Liga dos Campeões, fonte de seguidas decepções. Se acertar a mão como antes, a equipe terá a certeza de viver dias mais calmos e fazer sua torcida voltar a sonhar com vôos mais altos, sem o risco de pousar de forma desengonçada como um albatroz.
Queda e LC
Lens e Bordeaux entraram em campo no Félix-Bollaert para um acabar com o sonho do outro. Uma vitória manteria as chances dos girondinos de sonhar com o título, enquanto mandaria os Sang et Or para a segunda divisão. Um triunfo dos donos da casa deixava uma luzinha de esperança de salvação da equipe, com os Marine et Blanc como vice-campeões. Os dois dividiram o empate e as mágoas pelo resultado final desagradável a ambos.
Para o Lens, o rebaixamento foi uma conseqüência direta de seus problemas de planejamento vividos no começo da temporada. A aposta em Guy Roux logo se revelou uma tremenda furada. O treinador estava aposentado, mas os Sang et Or o convenceram a voltar ao mundo do futebol. Ele aceitou o desafio e começou a montar sua base de jogadores, com alguns vindos do Auxerre e com quem já havia trabalhado. Bastaram algumas rodadas para o castelo desmoronar.
Roux pegou suas malas ao sinal de que enfrentaria dificuldades no comando de uma equipe mediana e preferiu não se arriscar. Sobrou para Jean-Pierre Papin recomeçar a montagem da equipe no meio do campeonato. Todo este atraso só fez o moral do grupo desabar. Cabe recordar que o Lens vinha de uma traumática experiência na temporada passada, quando estava com a classificação para a Liga dos Campeões nas mãos e a deixou escorrer por entre os dedos sem grande cerimônia.
Por duas vezes, os donos da casa ficaram atrás no placar. O Lens demonstrou algum orgulho e buscou o empate, mas o placar de 2 a 2 era insuficiente. O clube estava rebaixado, algo que não acontecia desde 1989, e agora terá tempo para repensar muito bem como se deve começar um trabalho sério. Há a necessidade de se correr riscos e fazer uma ou outra aposta, mas os esforços consumidos para convencer Roux a voltar a trabalhar e o desgaste em obter uma autorização para que ele desempenhasse sua função (por estar acima do limite de idade permitido) minaram as resistências da equipe. O pior de tudo foi piorar o ânimo de jogadores com um trauma grande nas costas, aumentando a carga em algumas toneladas.
A mesma lição fica para Toulouse e Paris Saint-Germain. Embora tenham se salvado com vitórias sobre Valenciennes e Sochaux, respectivamente, os dois não deveriam passar por tantos apuros neste fim de temporada. O TFC pagou o preço de querer enfrentar a Liga dos Campeões sem deixar de lado a disputa da Ligue 1. A eliminação para o Liverpool demorou para ser digerida, mas as lesões de Elmander também deixaram o time acéfalo. O clube da capital seguiu o mesmo ilusório caminho, ao achar ter um elenco capaz de brigar pelas primeiras colocações. Embora não seja um esquadrão, o PSG está longe de ser uma equipe péssima, mas sua bagunça interna impediu uma campanha mais digna. Se tiver um pouco mais de sabedoria para contratar reforços, o clube já dará um grande passo.
Na briga pela última vaga à Liga dos Campeões, prevaleceu a experiência do Olympique de Marselha sobre o Nancy. O OM dependia apenas de si e cumpriu sua parte ao derrotar um Strasbourg rebaixado e em um completo clima de fim de feira. Já o ASNL, até então imbatível em casa, caiu diante do Rennes por 3 a 2 de virada, em clara prova de como a ansiedade dos jogadores prejudicou a equipe e a fez amarelar diante de sua própria torcida.
O símbolo deste nervosismo se ilustrou com Bérenguer. Sem a menor calma para controlar o ritmo de jogo, ele errou diversas cobranças de falta e não conseguiu levar o Nancy à frente, apesar da formação ofensiva montada pelo treinador Pablo Correa. Na hora da decisão, quem se sobressaiu foi Guy Lacombe. O técnico do Rennes ganhou a partida ao adiantar sua marcação, sobretudo com a ação incansável de Pagis e Briand no ataque, e supriu a ausência de Leroy, seu melhor garçom. Embora os bretões não tenham se classificado para a Copa Uefa (terminaram em sexto), deram ao Nancy uma lição de como se deve fazer para conquistar seus objetivos.



