Luxemburgo sem moral

A estreia da França nas eliminatórias da Eurocopa-2012 deixou um ponto de interrogação nos torcedores. Afinal, os Bleus conseguiram a proeza de perder em pleno Stade de France para a Bielorrússia. A sequência de partidas, porém, serviu para tranquilizar quem já arrancava seus cabelos, temerosos por uma repetição dos últimos fiascos da equipe. em três jogos, a equipe conquistou três vitórias. Apesar de um futebol pouco convincente, os comandados de Laurent Blanc ao menos ocupam a liderança do grupo D.
Não dá também para festejar completamente os triunfos sobre Romênia e Luxemburgo. Há de se lembrar que os franceses atuaram em casa nestas duas partidas e que os luxemburgueses estão bem longe de oferecer qualquer resistência. No entanto, era de se pensar o mesmo diante dos bielorrussos e deu no que deu. Melhor para Blanc, que agora consegue a folga necessária para pensar melhor na equipe, que só disputará seu próximo jogo pela competição em 2011.
Contra Luxemburgo, a França exibiu alguns problemas preocupantes. Diante de um adversário frágil e com a única preocupação de se fechar em sua defesa, os Bleus encontraram muitos problemas para atacar. Blanc optou por um 4-4-2 com seu meio-campo em losango, exatamente com o intuito de reforçar a presença de seus jogadores ofensivos no meio da armadura dos visitantes. O sistema se mostrou falho.
Entre os principais defeitos vistos, os franceses utilizaram muito pouco as jogadas pelas laterais, que facilitariam a tarefa de abrir a defesa adversária. Por outro lado, o meio-campo ficou bastante congestionado, com Gourcuff, Diaby, Diarra e Malouda disputando cada pedaço de um espaço bem restrito. A escalação de Hoarau, um típico centroavante, também foi questionável; se não havia cruzamentos nem o jogo era físico o bastante para um jogador do porte dele, o que ele fazia ali?
Malouda foi a figura emblemática deste problema de posicionamento. O meia-atacante do Chelsea atuou mais recuado do que de costume e, mesmo assim, não conseguiu se encontrar em campo. Ele ainda não ofereceu o apoio suficiente pelo lado esquerdo, deixando Clichy praticamente sozinho e, portanto, sem poder avançar muito sob o perigo de deixar uma avenida às costas.
Já o duelo contra a Romênia parecia uma reedição do confronto contra a Bielorrússia. A França teve o controle da partida em suas mãos, mas não conseguia o golpe fatal para derrotar o adversário. Blanc adotou um 4-2-3-1 que se mostrou muito eficiente quanto ao domínio da posse de bola. No entanto, o time fracassou quando o assunto foi a definição das jogadas ofensivas.
É bem verdade que os franceses estavam bem nos desarmes, mas a Romênia respondia com um posicionamento defensivo exemplar. Os méritos da vitória por 2 a 0 pertencem em grande parte a Blanc. O treinador mudou o panorama da partida com as três alterações feitas e que se mostraram decisivas. Rémy e Gourcuff fizeram os gols e Payet, autor do passe para o segundo gol, infernizou a vida dos defensores rivais.
Ao fazer a lição de casa, a França ganhou moral com a torcida em um momento importante. O trabalho de Blanc aos poucos recupera a confiança dos franceses em sua seleção, algo perdido com as trevas que acompanhavam Raymond Domenech. Agora, o treinador terá a tranquilidade necessária para prosseguir com seu trabalho de renovação.
Visita indesejada
E assim se decidiu: nada de torcida visitante nos dois clássicos entre Paris Saint-Germain e Olympique de Marselha nesta edição da Ligue 1. A Ligue de Football Professionel (LFP) tomou a decisão motivada pelos acontecimentos da temporada passada, quando um torcedor do PSG morreu e diversos outros incidentes ocorreram com brigas de torcidas. Questiona-se, porém, se tal medida realmente terá alguma validade.
Cabe lembrar que a morte do torcedor do PSG ocorreu exatamente quando não havia torcedores do OM para a partida no Parc des Princes. Facções rivais de torcidas do time da capital se enfrentaram e a tragédia aconteceu. Por mais que se reforce a segurança, parece que a violência dos torcedores está sempre um passo à frente das autoridades.
Quando a questão já parecia polêmica por si só, o Olympique tratou de jogar mais lenha na fogueira. O clube cogitou fazer um boicote ao jogo no Parc des Princes, marcado para 7 de novembro. Em comunicado, a diretoria do OM afirmou que sua torcida é bem comportada e que não se envolvia em incidentes havia muito tempo. Mentira! Basta lembrar a praça de guerra na qual se transformou o entorno do estádio Vélodrome quando seguidores do OM e do PSG se enfrentaram.
Quando você joga a culpa no outro pelos problemas de vandalismo, violência e selvageria, apenas atiça a sede do outro em querer acabar com sua raça. A estratégia usada pelo Olympique de Marselha somente piorou um clima já estratosfericamente pesado para um clássico que já se anunciava perigoso demais para torcedores comuns. As torcidas organizadas do PSG são as mais sanguinolentas da França e estão diretamente envolvidas na morte de duas pessoas nos últimos três anos.
O que mais falta em toda esta discussão é aquilo no qual ela deveria se basear: o bom senso. Ao defender a ideia de um jogo com torcida única tanto em Paris como em Marselha, a LFP tomou uma atitude que desagradou as duas equipes e já se mostrou fracassada no passado. Como combater um adversário que pode ser alguém que está ao seu lado e torce para o mesmo time? É bem mais fácil controlar a violência quando você consegue identificar grupos rivais e isolá-los.
O OM age com intransigência ao aumentar a tensão e reforçar a inimizade com a torcida do PSG, a quem impõe a culpa por tudo. Obviamente, nem é preciso falar dos hooligans parisienses, que brigam entre si quando não têm um oponente ao alcance. Enquanto as autoridades não se mexem e tomam atitudes mais enérgicas para o combate à violência, a selvageria continuará solta.



