Futebol francês

Lille e seus fantasmas

A sombra de Eden Hazard paira sobre o Lille. Desde a saída do meia-atacante, negociado com o Chelsea, o LOSC não consegue se encontrar em campo. A derrota por 2 a 0 para o Valencia, na segunda rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões, apenas comprova que o belga era bem mais do que um jovem talentoso. Sua presença fazia o time se transformar e funcionar com eficiência.

Embora os jogadores sigam um discurso de confiança, eles mesmos sabem do vazio que ainda não foi preenchido após Hazard deixar o Lille. O belga ditava o ritmo da equipe, transmitia segurança aos seus companheiros e seu talento passava a impressão de que ele poderia resolver o jogo mais complicado com um estalar de dedos. O LOSC se encontra em um estado de luto permanente, como se o choque pela perda de tão importante jogador tivesse lhe arrancado um pedaço da alma.

Em uma temporada, Hazard marcou 20 gols e deu 15 assistências na Ligue 1. Hoje, os atacantes do Lille vivem uma triste realidade. Juntos, Nolan Roux, Túlio de Melo e Gianni Bruno marcaram tão somente dois gols nas dez partidas já disputadas pelos Dogues em 2012/13. Diante do Valencia, a precipitação na hora de finalizar deixou o time sem forças para reagir diante do domínio dos Ches. Era de se esperar bem mais, mas a passividade e o nervosismo dos homens de frente fazem do LOSC um time que não leva grande perigo aos seus adversários.

O Lille se saiu melhor no Mestalla do que em sua estreia vergonhosa contra o BATE Borisov – o que não diz muito, já que qualquer coisa serviria para superar o vexame diante dos bielorrussos. Enquanto o ataque continua inofensivo, a defesa faz água sem Rio Antonio Mavuba para lhe proteger. Gueye, seu substituto, ainda está um nível abaixo do titular e precisa ganhar ritmo de jogo com urgência.

Rudi Garcia deixou claro aos jogadores que era preciso cuidar muito bem de sua defesa antes de querer atacar o Valencia. O treinador não conseguiu resolver um problema e, para piorar, complicou outro ponto fraco. O Lille perdeu a chance de tentar os contra-ataques, já que tinha poucos elementos necessários para cumprir esta função com um mínimo de qualidade. O setor defensivo repetiu os problemas de partidas anteriores, sem ter como impedir os avanços dos donos da casa.

No primeiro gol marcado por Jonas, Mendes poderia apertar a marcação sobre Barragan, mas o miolo de zaga também teve contribuição decisiva. Basa estava muito longe de Soldado, que teve total liberdade para tabelar com o atacante brasileiro. Para completar o ambiente de desastre na defesa, Mathieu Debuchy foi expulso e está fora do duelo contra o Bayern de Munique.

Se o sonho de se classificar para as oitavas de final da LC parecia distante após a derrota para o BATE Borisov, agora o pesadelo da eliminação se torna cada vez mais nítido. Sem volume de jogo, com Marvin Martin e Salomon Kalou muito tímidos (e que ainda sofreram problemas físicos) e um Dimitri Payet bastante inconstante, o LOSC deve se sentar no divã e resolver seus dilemas. O primeiro – e mais fundamental – será se livrar de uma vez por todas da sombra de Hazard.

Na Ligue 1, a situação também é desanimadora. Fora apenas sete pontos ganhos em sete partidas. A queda diante do Rennes por 2 a 0 sacramentou o ritmo digno de um time que está ameaçado pelas últimas posições. Em 15º, o LOSC está onze pontos atrás do líder Olympique de Marselha e a sete do Lyon, dono da última vaga para a próxima LC. Os Dogues devem se conscientizar logo que existe vida além do belga, embora hoje ela seja bem mais sem graça do que quando Hazard vestia a camisa do clube.

Tombo do alto

O Olympique de Marselha sofreu um duro golpe na hora mais imprópria possível. Líder e com 100% de aproveitamento, o OM navegava em águas calmas na Ligue 1 até se encontrar com o Valenciennes fora de casa. Foi o suficiente para o OM passar pelo Cabo das Tormentas e ter seu barco avariado severamente. Afinal, perder a invencibilidade com uma goleada por 4 a 1 para o VA deixa com pé atrás até seu torcedor mais confiante.

Na semana anterior ao clássico contra o Paris Saint-Germain, os marselheses tombaram diante do trio ofensivo formado por Danic (um gol e uma assistência), Le Tallec (dois gols) e Kadir (um gol e uma assistência). Ficou nítido como o OM começa a sentir os efeitos da maratona de jogos deste início de temporada. O jogo contra o Valenciennes foi o 12º disputado pelo time até agora nesta temporada e cabe lembrar que o técnico Elie Baup tem opções reduzidas para promover um rodízio de jogadores na equipe titular.

Do lado do PSG, Kevin Gameiro aproveitou muito bem sua primeira chance como titular ao lado de Zlatan Ibrahimovic. O atacante não decepcionou e fez os gols da vitória por 2 a 0 sobre o Sochaux, provando ao técnico Carlo Ancelotti que pode muito bem contar com seus serviços quando algum dos ‘galácticos’ estiver fora da equipe. Gameiro não balançava as redes desde 11 de março – ou 398 minutos.

A volta por cima de Gameiro tem muito a ver com o esquema escolhido por Ancelotti para esta partida. O técnico preferiu montar o PSG em um 4-4-2, ao qual o atacante está bem mais habituado. Foi com esta formação que ele brilhou no Lorient, seu ex-clube, e se cansou de fazer gols. O goleador mostrou que pode ser uma alternativa confiável quando houver esta necessidade de alterar o esquema tático do time.

O Lyon tinha a chance de aproveitar o tropeço do OM e se aproximar da liderança, mas também vacilou. Mesmo jogando em Gerland, o OL foi derrotado pelo Bordeaux por 2 a 0 e perdeu sua invencibilidade nesta temporada. Os lioneses não resistiram ao 3-5-2 exibido pelos girondinos, que buscavam apenas um empate fora de casa. Os Marine et Blanc, porém, montaram uma bela muralha e encerraram uma série de quatro empates.

Os donos da casa até tiveram a iniciativa durante o jogo, mas foram ineficazes na conclusão das jogadas – muito por conta da excelente atuação da defesa do Bordeaux. Os girondinos não se intimidaram e anularam o plano lionês, baseado no toque de bola e na exploração de lances pelas pontas. Quando o esquema não funcionava, Carrasso aparecia com suas defesas quase milagrosas para segurar o 0 a 0 parcial.

O Bordeaux achou seus gols com a devida participação especial de Lovren. O defensor do Lyon falhou na jogada do primeiro, marcado por Trémoulinas, e hesitou ao lado de Dabo na hora de atacar Diabaté, que mandou de cabeça para as redes. Os girondinos tiveram a eficiência ofensiva que o OL não teve, materializada na figura de um Lisandro López incrivelmente desorientado.

Com seus meio-campistas recuados e atacantes isolados, os girondinos ainda viram Lacazette ter um gol invalidado, para desespero do Lyon. O Bordeaux conquistou uma vitória sem méritos, como reconheceu o treinador Francis Gillot, mas que levou a equipe para mais perto da briga pelas primeiras posições. Os lioneses também precisavam deste golpe para acordar e corrigir suas falhas.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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