Lille de cabo a rabo

A pausa de inverno chegou, a Ligue 1 está em sua metade e está na hora de rever e analisar o que de mais importante aconteceu até aqui no torneio. Nesta primeira parte, um apanhado geral de como o campeonato transcorreu ao longo destas 19 rodadas. Nas semanas seguintes, um olhar mais profundo sobre como cada um dos 20 clubes da elite francesa se saiu, bem como suas esperanças para o futuro.
Após 60 anos, o Lille enfim pode comemorar o título simbólico de campeão de inverno. O LOSC ainda se dá ao luxo de terminar o turno com um jogo a menos do que Paris Saint-Germain, Rennes e Lyon, seus perseguidores mais próximos – os três estão apenas um ponto atrás do líder. Os Dogues ostentam duas boas marcas: melhor ataque (33 gols marcados) e o melhor desempenho, com 14 pontos conquistados (de 27 possíveis) fora de seus domínios.
A campanha do Lille, porém, apresenta dados negativos. O time possui apenas a nona melhor defesa do campeonato (sofreu 21 gols) e um desempenho apenas regular como mandante (18 pontos obtidos em 27 disputados, o 5º melhor da Ligue 1). Se mantiver a média de pontos atual, o LOSC será campeão com 68 pontos – a mais baixa pontuação desde o título conquistado pelo Lyon em 2003. Em níveis comparativos, o time seria apenas o 6º colocado na última temporada com este número.
Mais alguns números curiosos a respeito da campanha do Lille: a equipe foi a que mais se deu bem nos 15 minutos finais de jogo. Neste período, o LOSC arrancou oito preciosos pontos, contra cinco do Rennes – Olympique de Marselha, Paris Saint-Germain e Lyon, concorrentes diretos dos Dogues pela liderança, perderam um ponto cada se levarmos em consideração os instantes finais de suas partidas.
Por isso, o Lille sentiu menos a sensação de dominar o rival. A equipe esteve à frente do placar diante de seus rivais por apenas 423 minutos, 150 a menos do que o PSG, líder neste quesito. Por fim, o LOSC comemorou a presença de dois de seus atacantes na lista de principais artilheiros da Ligue 1: Moussa Sow (líder com 14 gols) e Gervinho (sete).
A briga pelas primeiras posições se mostra emocionante, como há tempos não se via. A diferença de pontos entre o segundo colocado e o décimo é de apenas quatro pontos. Este acirramento se explica de forma simples: houve uma queda significativa no número de vitórias obtidas pelos donos da casa e um grande aumento nos empates, quando comparamos os resultados desta temporada e da anterior.
Em 2010/11, os mandantes venceram 39,9% de suas partidas até a metade do campeonato, contra os 47% verificados na temporada anterior. Em compensação, os empates se multiplicaram: de 25,5% em 2009/10, passaram para 36%. No entanto, nem esse equilíbrio foi capaz de ajudar o Arles-Avignon. Com apenas oito pontos, o time segue os passos dados pelo Grenoble na última Ligue 1 e já está com os pés na segunda divisão. O time está onze pontos atrás do Monaco, primeira equipe fora da zona de rebaixamento. Ninguém conseguiu tirar uma diferença tão grande assim na metade final do torneio.
O melhor mandante, o Sochaux, obteve 21 pontos de 30 possíveis. Em 2009/10, o Bordeaux havia desperdiçado apenas três pontos neste mesmo período. Na temporada passada, nenhuma equipe havia ultrapassado a barreira de seis empates até a metade do torneio. Em 2010/11, 13 clubes superaram esta marca, com “destaque” para os campeões Auxerre (11 igualdades) e Monaco (dez). O Brest, por sua vez, orgulha-se por ser o único time ainda invicto em casa.
Mais destaques
A Ligue 1 ainda tem sua artilharia dominada por jogadores estrangeiros. Até agora, 52,3% dos gols marcados foram feitos por “não-franceses”. Os africanos lideram com folga, com 28,7%. Os sul-americanos vêm muito atrás, com 12,6%. Os europeus aparecem em terceiro, com 7,6%. Quando se observa a nacionalidade dos goleadores estrangeiros do torneio, porém, a coisa muda de figura.
Os brasileiros dominam a “festa estrangeira” da Ligue 1: os jogadores nascidos aqui fizeram 29 gols (só Nenê fez quase a metade deles – 13). Apesar da liderança, o desempenho foi pior do que o da última temporada, quando os atletas daqui marcaram 40 gols. Em 2010/11, a concorrência se acirrou. Senegal e Costa do Marfim vêm logo a seguir com 20 gols cada um; Marrocos, com 17, também está bem neste páreo.
A renovação feita por Laurent Blanc na seleção francesa mexeu com outra estatística. Aumentou a participação dos jogadores dos Bleus nos gols marcados na Ligue 1: 14,3% contra 10% da temporada anterior. Curiosamente, os artilheiros em cobranças de falta (Vahirua e Payet) marcaram apenas dois gols desta forma. Machado (Toulouse) lidera o ranking dos que mais fizeram gols de pênalti: três.
Artilheiro da Ligue 1, Moussa Sow fez 14 gols até aqui, quebrando uma marca que durava sete anos. O atacante do Lille se mostrou completo: foram oito gols com a perna direita, três com a esquerda e outros três de cabeça. Nenê, do PSG, balançou as redes 13 vezes – 12 delas em chutes com a perna esquerda. Um dado interessante: o brasileiro fez quatro gols nos 15 minutos finais das partidas e só perde para o sul-coreano Park, do Monaco.
A média de gols desta temporada caiu um pouco em relação à anterior: 2,31, contra 2,48 de 2009/10. A Ligue 1 ficou atrás da Bundesliga (3,14), Liga Espanhola (2,74) e Premier League (2,68), mas foi superior à Série A (2,29). Os torcedores franceses tiveram motivos para lamentar; houve um aumento significativo no número de jogos que terminaram empatados sem gols. A taxa, em torno de 5% em 2009/10, subiu para 12,2%.
O resultado mais comum da atual edição da Ligue 1 foi o empate por 1 a 1: 19,15% do total, seguido pelo 2 a 1 (16%). O 1 a 0, campeão da temporada anterior, caiu para a terceira posição com 14,9%, uma queda de 40% com o torneio passado. Apenas 12 partidas tiveram mais de quatro gols marcados. Duas delas foram um 6 a 3 e um 5 a 2, ambas protagonizadas pelo Lille – o que ajuda a explicar muita coisa.



