Dez anos depois do fracasso na Copa do Mundo de 2010, Raymond Domenech retorna o futebol. O treinador foi anunciado neste sábado como novo comandante do Nantes. As especulações ao redor do antigo técnico da seleção francesa pipocavam no Estádio de la Beaujoire desde a última semana. Agora, a escolha é oficial. Às vésperas de completar 69 anos, Domenech trabalhou como comentarista e foi presidente da associação de técnicos durante a última década. Contudo, não assumiu outra equipe. Chegou a ser especulado em clubes e seleções, mas no máximo dirigiu ocasionalmente a equipe nacional da Bretanha. O Nantes mostrará o que o veterano ainda será capaz de realizar na casamata.

Domenech teve uma carreira razoável como jogador. O lateral defendeu o Lyon por mais de uma década, além de ter atuado por clubes como Bordeaux, PSG, Strasbourg e Mulhouse. Chegou a disputar oito partidas pela seleção. Já sua carreira como treinador começou no próprio Mulhouse, antes mesmo de pendurar as chuteiras. De lá, assumiu o Lyon em 1988 e teve um papel importante no início da gestão de Jean-Michel Aulas. Levou os Gones de volta à primeira divisão e iniciou a modernização que ajudaria a dinastia iniciada a partir da década seguinte.

A partir de 1993, Domenech assumiu a seleção sub-21 da França. O treinador dirigiu também os Bleus nas Olimpíadas de 1996 e participou de diferentes competições com os juniores, incluindo o próprio Europeu Sub-21 e o Mundial Sub-20. Desta maneira, trabalhou com uma imensa lista de talentos formados pelo país – que inclui Zinédine Zidane, Claude Makélélé, Lilian Thuram, Robert Pirès, Patrick Vieira, Thierry Henry e David Trezeguet. Tal passagem o credenciou a ser promovido à seleção principal em 2004, numa escolha surpreendente para substituir Jacques Santini após a eliminação para a Grécia na Eurocopa.

Os primeiros dois anos de Domenech garantiram seu maior impacto. Reencontrando-se com vários de seus pupilos, o treinador liderou a campanha até a decisão da Copa de 2006. Mesmo assim, suas decisões eram repletas de debates, especialmente porque o técnico considerava o signo de seus atletas nas convocações. Assim, nomes importantes eram ignorados nas listas. A fraca campanha na Euro 2008, com a queda na fase de grupos ocupando a lanterna da chave, aumentou os questionamentos. E tudo se tornou pior na Copa de 2010, com a classificação garantida pelo infame toque de mão de Thierry Henry. Na África do Sul, Domenech expulsou Anelka do elenco, depois de insultos do atacante. Também houve um confronto entre Patrice Evra e o assistente Robert Duverne, que levou os jogadores a se recusarem a treinar. A eliminação na primeira fase foi a gota d’água, com o técnico se recusando a cumprimentar Carlos Alberto Parreira após a derrota para os Bafana Bafana.

Domenech, que nunca foi o mais popular dos treinadores da seleção, caiu em desgraça depois daquele episódio. Demitido pela federação francesa, chegou a tentar processar os dirigentes. E nunca conseguiu outro emprego nos clubes locais, aproveitando sua imagem “contestadora” como comentarista – onde distribuía críticas ácidas, tantas vezes apelativas. O Nantes, apesar de tudo, escolheu o veterano para dirigir a equipe neste momento. A decisão mantém um padrão recente dos Canários, que chegaram a apostar em medalhões como Cláudio Ranieri e Vahid Halilhodzic nos últimos anos.

Desde a última temporada, o Nantes era dirigido por Christian Gourcuff – outro técnico bastante rodado. Os auriverdes chegaram a flertar com a Champions League a certa altura do Campeonato Francês 2019/20, mas despencaram com o passar das rodadas. E a campanha na atual temporada também é fraca, com o time rondando a zona de rebaixamento. A escolha de Domenech deixa desconfianças naturais, especialmente pela bagagem de polêmicas do treinador e por seu tempo inativo. Mas não deixará de ser uma história interessante de se acompanhar neste restante de Ligue 1.