Ligue 1

Os obstáculos que Neymar precisará superar para ser crucial ao PSG

Após uma temporada de desempenho espetacular interrompida por mais uma lesão, Neymar pode ser o condutor de um PSG diferente, mas precisará fiar atento em alguns aspectos

Neymar finalmente estreou na pré-temporada do Paris Saint-Germain e, como ele mesmo vinha dizendo que estava bem fisicamente para jogar, precisou mostrar isso em campo. Ele foi titular, em um time formado por muitos reservas, em amistoso do clube francês com o Jeonbuk Hyundai Motors, da Coreia do Sul. O brasileiro fez dois gols e ainda deu uma assistência de calcanhar para outro. Uma grande atuação, que mesmo sendo em um jogo completamente desimportante, levanta algumas boas questões para a temporada.

Foi o primeiro amistoso de pré-temporada que Neymar participou pelo PSG. Ele ficou no banco em todos os jogos do time no Tour pelo Japão. O brasileiro sequer saiu do banco no empate por 0 a 0 com o Al Nassr, na derrota para o Cerezo Osaka por 3 a 2 e na derrota para a Inter de Milão por 2 a 1. A vitória por 3 a 0 sobre o Jeonbuk foi, assim, a primeira vitória dos parisienses na pré-temporada.

Foi também o último jogo de preparação antes do início da temporada na Ligue 1, no dia 12 de agosto, contra o Lorient, no Parque dos Príncipes, em Paris. Até lá, não se sabe qual será a situação do clube, com a potencial saída de Kylian Mbappé parecendo iminente e muitas incertezas sobre como será armado o time. Até por isso, Neymar pode oferecer algo importante para o time.

A boa relação com Luis Enrique ainda pode render frutos

Luis Enrique é um técnico que conhece bem Neymar. Foi com ele que o brasileiro viveu o seu melhor momento na carreira, pelo Barcelona. Na temporada 2014/15, Neymar foi artilheiro da Champions League com 10 gols, empatado com Lionel Messi, seu companheiro de time, e Cristiano Ronaldo, na época no Real Madrid.

Mais do que isso: Neymar marcou gols em todos os jogos a partir das quartas de final da competição, incluindo, evidentemente, a final contra a Juventus. Não por acaso, esteve entre os melhores do mundo nas eleições individuais (foi o terceiro colocado, atrás de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo).

Tudo isso parecia indicar que Luis Enrique poderia contar com Neymar para o início da pré-temporada. Não foi assim. A situação do jogador no PSG também não ajuda muito. Além da instabilidade que o clube vive pela situação de Mbappé, hoje a principal estrela parisiense, há ainda outros pontos.

Luis Enrique é um técnico que exige muito comprometimento e disciplina. Embora não seja o estilo sargentão que nos acostumamos a ver no Brasil, um país que ama um esporte militarizado, o treinador espanhol é sim muito exigente. E uma das razões que Neymar se tornou tão decisivo e crucial para Luis Enrique foi esse aspecto. No Barcelona, ele era um jogador capaz de compensar a ultra ofensividade do time.

Em um ataque histórico com Lionel Messi e Luis Suárez, Neymar era o mais jovem. Era também quem mais se esforçava, sem a bola, para fechar os espaços. Era ele quem fechava o lado esquerdo, quase tornando o time um 4-4-2 defendendo, em vez do 4-3-3 com a bola que nos acostumamos a ver.

Essa é uma função que Neymar nunca exerceu no PSG e dá para dizer que ele nem poderia fazer isso hoje, dada as diferenças físicas que o jogador tem hoje, com 31 anos. E esse é outro aspecto.

Um dos problemas é que há especulações que Luis Enrique já está bem insatisfeito com a forma como a situação toda sobre Mbappé é gerida pelo PSG. O técnico não é dos que aceita calado desmandos e já há rumores que a saída de Luis Campos da direção pode ser o ponto final na história do espanhol nos parisienses, antes mesmo da temporada começar. Parece absurdo, mas pensando em quem é Luis Enrique, que não aceita esse tipo de bagunça, é bem plausível. E aí pode complicar mais ainda para Neymar.

Neymar precisa adaptar o seu jogo na Ligue 1

Neymar não é mais o jogador que chegou ao Barcelona em 2013. Aquele ponta rápido, incisivo, de uma velocidade absurda e habilidades difíceis de serem encontradas pelo mundo se tornou um jogador muito mais centralizado no seu jogo, mais cerebral e muito menos veloz. O físico do jogador mudou ao longo dos anos, até pelas muitas lesões — e ao menos uma parte disso dá para atribuir ao fato da liga francesa ser uma das mais fisicamente duras no mundo. Não em intensidade, mas em força física.

Vários jogadores já falaram sobre isso. Jogar na França exige que o jogador toque a bola mais rápido ou seja muito mais rápido que os rivais para evitar contados desnecessariamente violentos. Há muito mais leniência com embates físicos na Ligue 1.

Em um ambiente como esse, é importante que o jogador se adapte, até para o seu próprio bem. A fama de cai-cai — atribuída com razão, diga-se — fez com que os árbitros da Ligue 1, já habitualmente muito lenientes, fossem ainda mais com o brasileiro. E isso deu autorização para muita pancadaria contra o brasileiro passasse impune.

Neymar poderia se adaptar, tem inteligência futebolística e capacidade para isso, mas preferiu seguir nos embates físicos. Talvez para provar um ponto, talvez por teimosia, mas não importam as razões. O ponto é que ele fez isso e, hoje dá para dizer, ele perdeu essa disputa. Sofreu lesões todos os anos que esteve em campo, e lesões relativamente graves, o que diminuiu muito o seu tempo em campo.

Desde 2017, quando chegou ao PSG, Neymar nunca conseguiu fazer mais do que 22 jogos na Ligue 1 (de um total de 38), o que é um sintoma desse problema. Infelizmente, os árbitros continuam lenientes, a Ligue 1 continua sendo uma liga que parece ter uma linha tênue entre ser muito dura e ser violenta, e, sem tomar cuidado, isso deve continuar acontecendo.

Número de jogos de Neymar pela Ligue 1 pelo PSG:

  • 2017/18: 20 jogos
  • 2018/19: 17 jogos
  • 2019/20: 15 jogos
  • 2020/21: 18 jogos
  • 2021/22: 22 jogos
  • 2022/23: 20 jogos

Fisicamente inteiro, Neymar é um jogador sem igual para o PSG

Neymar, do PSG (Icon Sport)

Com todos os problemas citados, Neymar ainda é um craque muito acima da média e mostrou isso na última temporada, antes de, novamente, se machucar, em fevereiro. A sua temporada até chegar a Copa do Mundo era excelente. No total, contando até ele se machucar, foram 29 jogos, em todas as competições, com 18 gols e 17 assistências. Números absolutamente fenomenais.

A questão física é crucial para Neymar e isso tem que ser um ponto de atenção dele e da comissão técnica. Com isso em mente, é possível pensar que Neymar pode fazer uma temporada similar à temporada passada, com um papel ainda mais preponderante caso Mbappé deixe a equipe — ou seja afastado durante toda a temporada, o que soa um blefe dos dirigentes do clube para forçar a sua transferência.

A capacidade técnica de Neymar é algo que o tornou um criador de jogadas como poucos no mundo. Se em 2013 ele começou a usar a camisa 10 na seleção brasileira mais como um ato simbólico pensado por Luiz Felipe Scolari para marcar a importância que o então jovem tinha, ao longo dos anos ele se tornou de fato um criador de jogadas, um camisa 10 que é uma espécie de ponta de lança, capaz de finalizar bem e também fazer grandes passes.

Se olharmos os números de Neymar pelo PSG, isso fica muito claro. Em 173 jogos até aqui, ele marcou 118 gols e fez 77 assistências. O número de assistências tem crescido ano a ano, dada a sua mudança de posição e função em campo. Se na sua chegada ele era um intrépido ponta pela esquerda, ele se tornou um segundo atacante e um meia ofensivo que consegue atuar mais recuado para criar chances para os companheiros. Em um time que tinha Mbappé e Messi, dois finalizadores espetaculares, isso floresceu ainda mais, embora já viesse acontecendo.

Sem Messi e potencialmente sem Mbappé, o PSG precisa de Neymar. O elenco tem bons nomes, jogadores que têm qualidade técnica, mas nenhum do nível que o brasileiro pode oferecer. Mesmo Gonçalo Ramos, um dos mais especulados para trocar o Benfica pelo Parque dos Príncipes nesta temporada, não chegaria com a capacidade de ser tão importante quanto Neymar pode.

A relação tão ruim entre ele e a diretoria do clube, além da tensão dele com os torcedores, torna essa missão mais difícil. Mas em campo, ele pode contornar esse aspecto, especialmente em um time que não tem um jogador da mesma capacidade. Marco Asensio, contratado nesta temporada, é ótimo jogador, mas dificilmente será um protagonista. Lee Kang-In é talentoso e chegou do Mallorca com expectativas, mas está distante de ser um jogador de nível mundial. O mesmo vale para Carlos Soler, Fabián Ruiz e mesmo o atual Marco Verratti.

Os melhores jogadores do time, sem contar Neymar, são seus defensores. O capitão Marquinhos, Milan Skriniar, Lucas Hernández ou mesmo Achraf Hakimi. Nenhum deles, porém, tem o peso de um Neymar como capacidade técnica, como capacidade de decisão, ou mesmo como um jogador que será referência para os demais em termos técnicos.

Assim, a temporada é uma grande chance para Neymar, se ele souber lidar com esses problemas. O PSG não tem muita opção, a não ser que vá ao mercado buscar um jogador com essa capacidade — o que é sempre uma possibilidade, afinal, se há um time que pode fazer isso, este é o PSG. Considerando que Neymar tem contrato até 2025 (com opção de mais um ano que Neymar já disse que acionará), é improvável que ele saia. O seu salário é muito alto e não parece haver interesse o bastante — nem de outros clubes, nem de ele mesmo sair. A Arábia Saudita até chegou a acenar, mas o próprio jogador não se empolgou com a ideia.

Sendo assim, Neymar deve ficar no PSG. Então, é bom que o PSG faça uso dele. E se Neymar souber aproveitar essa chance, pode ser o craque que ele é e decisivo como pode ser. Ele ainda tem tempo para isso. Mas exigirá muito mais esforço e adaptação do que foi feito até aqui.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
Botão Voltar ao topo