Ninguém pode dizer que o não estava avisado. A decisão de contratar se mostrava equivocada desde o anúncio. Não havia muito sentido para os Canários apostarem num treinador que colecionou polêmicas ao longo da carreira, que vinha com o filme queimadíssimo desde a Copa de 2010 e que não tinha dirigido uma equipe sequer na última década. A aventura que durou pouquíssimo. Oito partidas bastaram para que os auriverdes demitissem o comandante de 69 anos. Perdeu quatro compromissos e empatou outros quatro, numa tremenda perda de tempo a um clube que luta contra o descenso.

A torcida do Nantes logo se mostrou contrária à chegada de Domenech. Assim que o treinador foi oficializado pelos Canários, os torcedores realizaram seu protesto. No primeiro treinamento comandado pelo veterano, os ultras tocaram músicas de circo do lado de fora do CT, para todo mundo ouvir. “Raymond Domenech nos explicará sua visão de futebol, o que nos fará rir nas próximas semanas”, ironizavam através de um megafone, com uma série de piadas sobre a escolha e a realidade do clube. Uma situação constrangedora, que mostrava o tamanho do descrédito em relação ao ex-técnico da seleção.

No fim das contas, os torcedores estavam mais do que certos. O começo de Domenech nem seria tão ruim, com o empate por 0 a 0 no clássico contra o Rennes, um adversário bem mais qualificado. Depois, a equipe empataria com Montpellier e Lens. As derrotas logo começariam a surgir, contra Metz e Monaco. Depois do empate no confronto direto com o Saint-Étienne, os Canários perderam no fim de semana passado para o líder Lille. Seria a gota d’água. Nesta quarta, o Nantes enfrentou o Lens pela Copa da França com toda a imprensa já noticiando a demissão. Foi o que ocorreu, sacramentada pela eliminação, com novo revés por 4 a 2.

Se forem analisados os placares, não há nada de muito acachapante. Domenech tentou realizar pequenos ajustes e mudanças de posição. Nada que gerasse um impacto tão grande, num clube sob muitos holofotes e tremenda pressão. Pior, o veterano deu algumas de suas costumeiras declarações desastrosas – como na insensível frase em que disse que “amaria contratar Maradona, mas ele morreu”. E pegou muito mal também sua atitude na derrota para o Lille, ao abandonar os jogadores nos vestiários durante o intervalo, insatisfeito com a apresentação no primeiro tempo. Era óbvio que não duraria.

O Nantes vinha uma posição acima da zona de rebaixamento quando Domenech chegou. Na última rodada, acabou ultrapassado pelo Lorient e entrou no Z-3, ocupando a zona dos playoffs contra o descenso. As distâncias aumentam. O Lorient, logo acima na tabela, tem três pontos a mais. Logo depois, o Strasbourg possui uma vantagem de seis pontos. E é bom não se descuidar, já que Dijon e Nîmes somam 15 pontos, somente quatro a menos que os Canários. Os dois últimos colocados são rebaixados diretamente à Ligue 2.

A aposta em Domenech se provou apenas uma escolha por nome. Se o treinador não demonstrava grande inventividade no seu auge pela seleção francesa e dependia das individualidades, os dez anos longe da casamata pioraram a situação. O elenco pouco competitivo passou a ser ridicularizado. Além do mais, o veterano nunca foi conhecido como um grande motivador. Pelo contrário, os conflitos foram bastante comuns em sua carreira. Não seria ele a tirar do limbo um time que não vence desde o início de novembro, acumulando 15 partidas em jejum.

O substituto de Domenech já foi anunciado pelo Nantes. Seguindo a política do clube, outro medalhão foi escolhido. Os Canários serão treinados por Antoine Kombouaré, mais lembrado por sua passagem pelo Paris Saint-Germain entre 2009 e 2011. Antigo ídolo nos tempos como jogador, o comandante foi queimado logo na chegada dos donos catarianos, por não ter a grife que se esperava. Na época, o time liderava a Ligue 1 e acabou deixando o título escapar para o Montpellier, já sob as ordens de Carlo Ancelotti. Desde então, Kombouaré não conseguiu assumir outras equipes de ponta na França.

O técnico chegou a ter uma passagem curta pelo Al-Hilal. Depois, trabalhou por Lens, Guingamp, Dijon e Toulouse. Seu melhor momento aconteceu no Lens, com direito a um acesso na primeira temporada, apesar da queda posterior. Todavia, seus últimos trabalhos foram bem ruins, com direito a uma sequência de dez derrotas seguidas antes da saída do Toulouse. Kombouaré é mais um escudo para o Nantes, mas ao menos parece ter o mínimo de capacidade para reverter a situação, o que não era o caso de Domenech.

E, no fim das contas, a escolha de Raymond Domenech reflete problemas maiores. Waldemar Kita é um dos donos de clube mais odiados da França. O polonês comprou o Nantes em 2007 e os resultados são muito aquém do poderio histórico dos Canários. O clube sofreu dois rebaixamentos durante a gestão e os protestos são constantes diante da falta de investimento. A passagem meteórica de Domenech, numa escolha ininteligível, só escancara a péssima relação e a falta de perspectivas sérias. Um novo descenso seria bastante factível diante de tamanha instabilidade. São 17 comandantes em 13 anos, somente um deles durando mais de uma temporada. Se o palhaço da vez saiu, o dono do circo continua no picadeiro rindo da plateia.