Ligue 1

O Olympique oferece uma boa oportunidade para Gerson apresentar o alto nível de Flamengo também na Europa

Depois de reconstruir sua reputação no Flamengo e encontrar seu melhor futebol, Gerson segue à Europa e será treinado por Sampaoli

O Olympique de Marseille oficializou nesta quarta-feira a chegada de Gerson como seu novo reforço para a próxima temporada. A transferência do meio-campista era tratada como certa e amplamente noticiada pela imprensa brasileira. Os marselheses desembolsam €25 milhões, com possíveis bônus de até €5 milhões. Já o Flamengo, que ainda permanece com um percentual do passe para vendas futuras, no mínimo dobrará seu investimento inicial – e sem contar a mudança de cotação das moedas. Se o negócio representa um valor recorde ao Fla, também é vantajoso ao clube francês do ponto de vista esportivo, considerando o amadurecimento e o futebol apresentado pelo camisa 8 desde 2019. Por fim, também é uma boa chance para Gerson restabelecer seu nome na Europa, depois das passagens silenciosas na Roma e na Fiorentina.

Gerson totalizou 54 jogos pela Serie A. Deixou a impressão de um jogador com potencial, mas que não possuía uma posição tão definida e que não estava pronto às exigências táticas dos clubes italianos. Depois de se frustrar na Roma, o meio-campista teve um pouco mais de espaço na Fiorentina, mas atuando por vezes como um meia ofensivo. A volta ao Flamengo se tornou fundamental para Gerson redescobrir seu futebol e apresentar novamente sua qualidade técnica. Em dois anos no país, virou incontestavelmente um dos melhores volantes em atividade na América do Sul.

O Flamengo cresceu muito com Gerson. E o meio-campista também ganhou demais com a camisa rubro-negra, amadurecendo seu futebol. Especialmente em 2019, sob as ordens de Jorge Jesus, o camisa 8 virou um motor do Fla. Contribuía com sua qualidade nos passes e também por sua aproximação dos atacantes. Talvez não tenha sido o melhor, mas dá até para discutir se não foi o mais importante dos jogadores por sua função na temporada vitoriosa do clube. Seu talento ficava ainda mais evidente e estava claro como o volante teria lenha para queimar de volta na Europa.

Depois de brilhar novamente no Brasileiro de 2020, apontado por muitos como o melhor do Flamengo na conquista do troféu, os últimos meses de Gerson foram mais irregulares, com o meio-campista sem apresentar sua máxima intensidade em meio ao desgastante calendário. Mas não é isso que mina o seu moral ou que diminui a reputação construída com a camisa rubro-negra. O volante permanece como um dos melhores da posição no continente e, aos 24 anos, tem tempo para se provar outra vez no futebol europeu. O Olympique de Marseille parece garantir um ambiente favorável à mudança. Vai para um clube tradicional, numa bela cidade, com uma torcida fervorosa. Mais importante, poderá se encontrar com um treinador que conhece seu potencial e saberá como aproveitá-lo da melhor maneira – o que não aconteceu na Serie A.

O encontro de Gerson com Jorge Sampaoli será dos mais interessantes. Os dois se enfrentaram como adversários, mas o treinador reconhece o valor do meio-campista para ser uma referência técnica no Olympique de Marseille. O início do trabalho do argentino já vinha sendo positivo, considerando a forma como os celestes cresceram de produção na reta final da Ligue 1, mesmo sem conseguirem disputar uma vaga na Champions League. Agora, o comandante tenta arraigar mais suas ideias e aplicar melhor seu estilo de jogo com os novos contratados. Gerson é uma escolha nesse sentido, para auxiliar no dinamismo proposto pelo técnico.

Desta maneira, dá para acreditar que Gerson terá um impacto positivo em Marselha. Ainda que a Ligue 1 possua um estilo de jogo mais físico, é bem possível que o Olympique estabeleça uma proposta mais ofensiva e beneficie o meio-campista. Basta ver também a maneira como outros jogadores brasileiros têm se dado bem na França. A forma como Lucas Paquetá se encontrou no Lyon e virou um dos destaques do time pode servir de exemplo, caso Gerson deseje mesmo se empenhar e marcar seu nome no Vélodrome – e, quem sabe, dar outros saltos ainda na carreira.

O Flamengo faz um bom negócio do ponto de vista financeiro, considerando o cenário limitado pela pandemia. Esportivamente, perde um grande valor. A ascensão de João Gomes no setor ou a volta de Thiago Maia garantem alternativas, embora seja difícil encontrar um atleta que reproduza a função do camisa 8, bem como sua versatilidade. E a impressão é de que a história não se fecha. Por aquilo que construiu no Flamengo e pela forma como se tornou um dos jogadores mais queridos da torcida, não é difícil imaginar a volta de Gerson dentro de algum tempo. Seu nome, de qualquer forma, está na história do clube.

Agora, as expectativas ficam àquilo que ele pode aportar ao Olympique de Marseille. Na temporada passada, os celestes estiveram abaixo do que se espera de um clube de seu tamanho, mas podem crescer. A própria chegada de Sampaoli deixava boas expectativas e os reforços pontuais trazidos no meio da campanha melhoraram o elenco. Nesta nova temporada, imagina-se que o Olympique consiga brigar pelas primeiras posições desde o início e volte a sonhar com a presença na Champions League. A chegada de Gerson é uma aposta neste sentido, com a confiança de que o volante possa reproduzir o ótimo futebol dos tempos de Flamengo também na Europa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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