Ligue 1

O Lyon x Marseille durou quatro minutos, com Payet atingido por uma garrafa de água e a retirada de seu time de campo

Payet foi vítima de mais uma agressão e, depois de quase duas horas de indecisão, o duelo acabou suspenso

A temporada da Ligue 1 tem sido marcada por diversos episódios de violência das torcidas, com objetos atirados em campo e invasões. O Nice x Olympique de Marseille ganhou as manchetes por ser remarcado, após as agressões dos torcedores rubro-negros contra os jogadores celestes. E, neste domingo, de novo os marselheses foram alvo de agressores nas arquibancadas. Dimitri Payet foi atingido por uma garrafa quando ia bater um escanteio no Estádio Groupama e o Lyon x Marseille não durou nem quatro minutos. Os celestes se recusaram a voltar a campo e, após longa espera, o duelo acabou mesmo suspenso.

O ambiente hostil ficou claro desde o princípio, com o primeiro objeto atirado sem atingir ninguém antes de um escanteio. Logo na sequência, quando Payet se preparava para fazer o cruzamento, uma garrafa de água cheia pegou diretamente em seu rosto. O meia caiu instantaneamente e foi cercado pelos jogadores, enquanto recebia o atendimento médico. Payet, vale lembrar, também tinha sido vítima no início da confusão contra o Nice e foi atingido nas costas. Depois que o veterano se recuperou, as duas equipes se retiraram de campo, orientadas pelo árbitro Ruddy Buquet. O agressor, por sua vez, foi detido e expulso do estádio.

A princípio, a informação era de que o jogo poderia ser retomado – o que, segundo a liga, teria sido uma decisão da prefeitura local. Com o passar dos minutos, todavia, transparecia que o Olympique de Marseille não estava disposto a retornar a campo depois da agressão – algo que já tinha acontecido contra o Nice. Houve uma discussão acalorada nos vestiários entre membros das duas equipes. À medida que o tempo passava, o duelo se tornava menos provável. Porém, prevalecia uma grande indefinição, sem nenhum esclarecimento público.

Mais de uma hora depois, a volta da partida foi anunciada nos alto-falantes do estádio. As arquibancadas já esvaziavam quando os jogadores do Lyon retornaram ao campo para se aquecer. O pedido no telão era de que, se outro incidente acontecesse, o duelo seria suspenso em definitivo. Os atletas do Olympique de Marseille, em contrapartida, se recusaram a acatar e ficaram nos vestiários. Alguns jogadores do Lyon ainda tentaram convencê-los. Permanecia uma expectativa de que a partida poderia terminar, mas o árbitro reviu a decisão de reiniciar a partida e logo os jogadores dos Gones também deixaram o gramado.

Foram cerca de duas horas até que uma resolução fosse tomada. Por fim, confirmou-se a suspensão do duelo, conforme a posição do árbitro Ruddy Buquet, por avaliar a falta de segurança. Segundo o Olympique de Marseille, o próprio Payet justificava que não estava em condições psicológicas para atuar, o que gerou a mobilização de seus companheiros. Nas tribunas, a insatisfação dos ainda presentes era clara, depois do tempo perdido no local.

Depois do jogo, Ruddy Buquet explicou sua decisão: “Gostaríamos que tivesse acontecido de outra maneira. Minha decisão sempre foi de não retomar. Foram mencionados os riscos de perturbação da ordem pública. Mantenho minha decisão, que era óbvia por razões esportivas. São muitas considerações a se levar em conta, mas a final era minha. Precisamos proteger os jogadores, somos nós árbitros que garantimos a segurança em campo. São tantas coisas a levar em conta: o estádio cheio, a saída dos jogadores. Um comitê se reunirá depois e as medidas serão tomadas. O mundo dos esportes aguarda mais ação. Assumo a minha responsabilidade”.

Presidente do Olympique de Marseille, Pablo Longoria reiterou a postura de sua equipe: “O clube disse desde o início que cabia ao árbitro tomar a decisão. Pedimos para que ele visse o estado psicológico dos nossos jogadores. Payet estava afetado, não era bom ver isso. Devemos nos questionar, porque não é normal toda essa violência no futebol. Devíamos nos divertir, e não ficar falando sobre isso. Depois de uma noite dessas, acho que podemos pedir para pensarmos todos juntos para evitar novos incidentes”.

Já Jean-Michel Aulas, presidente do Lyon, não aprovou a condução do episódio: “Foi um situação paradoxal. A segurança tirou o indivíduo, que estava sozinho, não com os ultras. Imaginamos que o jogo poderia voltar, mas o árbitro decidiu que não. Quando foi anunciado que voltaríamos, o Marseille teve uma reação violenta e pediu para que o árbitro visse Payet. O médico confirmou a mim que tinha mais medo que dano. A mudança do árbitro foi incompreensível, mas não podemos mudar isso. Estamos bem organizados, o agressor foi preso, não havia mais risco”.

Em nota oficial, a Liga de Futebol Profissional condenou a agressão e os insultos discriminatórios direcionados a Payet depois que o jogador tinha sido atingido. A entidade ainda ressaltou como a segurança é responsabilidade do clube mandante e das autoridades locais, embora afirme que medidas estão sendo tomadas para punir essas situações no futebol francês. Uma reunião emergencial ocorrerá nesta segunda.

A situação indica uma séria dificuldade da Ligue 1 e das autoridades locais em lidar com as ações nas arquibancadas. Os episódios são repetitivos desde a retomada do público e as sanções se mostram inócuas, seja com o fechamento parcial das arquibancadas ou com multas em dinheiro. A ver como a organização do campeonato agirá depois de mais uma situação lamentável – mas, pela indecisão ocorrida em Lyon, não dá para esperar muito.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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