Ligue 1

Morre Louis Nicollin, personagem singular que dedicou sua vida a transformar o Montpellier

O Montpellier foi o grande amor da vida de Louis Nicollin. Por 43 anos, o empresário foi proprietário e presidiu o clube francês. E sua fama extrapolou o que poderia se esperar de alguém em seu cargo. Não apenas por transformar um pequeno time do litoral em um participante costumeiro da Ligue 1, campeão nacional justamente quando o Paris Saint-Germain iniciava os seus planos de dominar o país. “Loulou” era uma figura singular. Vários adjetivos podem ser aplicados ao dirigente, dos mais elogiosos aos mais controversos. Fato é que, acertando muito mais do que errando, Nicollin marcou. Por isso mesmo, seu falecimento aos 74 anos, vítima de um ataque cardíaco, deixa de luto o futebol francês. Várias personalidades deixaram suas mensagens de condolências nas últimas horas.

Cabe dizer que, antes de se apegar ao Montpellier, Nicollin sempre foi um fanático por esportes. O dirigente nasceu na região de Rhône-Alpes e era torcedor fanático do Lyon. Tinha o sonho de ser jogador de futebol, o que não foi possível ao começar a trabalhar cedo, mas ainda assim jogou na segunda divisão nacional de handebol. E foi administrando a empresa de coleta de lixo da família que o jovem desenvolveu o tino para os negócios. Era conhecido principalmente pela ótima relação com os funcionários, tratando todos como iguais. O Montpellier surgiu como uma oportunidade para se inserir no futebol quando tinha 31 anos. Logo se apaixonou. Tanto que, tempos depois, expandiria os seus investimentos a outros esportes – especialmente o rúgbi e o handebol, nos quais conseguiu ser mais bem-sucedido, ainda que sem o mesmo envolvimento vivenciado nos gramados.

Quando Nicollin chegou ao Montpellier, em 1974, o clube tentava se reconstruir, após passar por uma série de fusões. A principal agremiação antecessora até possuía sua história de respeito no cenário nacional, incluindo participações na primeira divisão e um título da Copa da França. Contudo, despencou a partir da década de 1960, sofrendo com os problemas financeiros. Declarou a sua insolvência e renasceu pelas mãos de Nicollin. O novo dono ajudou a equipe a subir da quarta divisão, regionalizada, à primeira em apenas sete temporadas. Já a estabilidade na elite foi conquistada a partir da segunda metade dos anos 1980. Tempos ambiciosos, em que o empresário não media esforços para trazer grandes jogadores, em certos períodos com ajuda financeira do poder público local.

Neste período, o Montpellier contratou grandes estrelas internacionais. O zagueiro Júlio César, o meio-campista Carlos Valderrama e o atacante Roger Milla marcaram época em La Paillade. O clube também tinha o costume de apostar em jovens talentos franceses, como Eric Cantona, Stéphane Paille e Vincent Guérin. E viu a ascensão, a partir das categorias de base, do maior ídolo de sua história: Laurent Blanc. O zagueiro capitaneou o clube na primeira grande conquista de Nicollin: a Copa da França de 1990. Treinado por Aimé Jacquet, o Montpellier derrotou o Racing de Paris na decisão. O projeto esportivo merecia os justos aplausos.

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A força daquele período não foi mantida por tanto tempo, mas o Montpellier se estabeleceu como um clube de primeira divisão. Passou toda a década de 1990 na elite. A virada do século guardou alguns momentos de altos e baixos, até a guinada a partir de 2009, quando La Paillade assegurou o acesso. Precisou de apenas três anos para conquistar um dos títulos mais surpreendentes da história da Ligue 1. Por mais que o PSG começasse a investir pesado em contratações, os modestos desafiantes tomaram o topo da tabela de assalto. O time de René Girard foi mais regular naquela campanha, terminando com a taça. Elenco no qual despontavam Olivier Giroud, Younès Belhanda, Rémy Cabella, Souleymane Camara, John Utaka, Mapou Yanga-Mbiwa, Hilton. Nicollin celebrou, do alto de seus 69 anos, pintando os cabelos com as cores do clube. O sucesso não se manteria, com as discrepâncias da liga, mas a façanha estava completa.

Aquele foi, também, o momento de maior exposição do presidente. Na França, todos já conheciam a figura apaixonada e controversa. Mas as declarações de Nicollin, com seu linguajar característico, ganhavam as manchetes pelo bem ou pelo mal. Por vezes, protagonizava picardias, como a vez em que chamou Adriano Galliani de “Kojak”, ao comentar o interesse do Milan em um de seus jogadores. Em compensação, perdia a mão com frequência e recebia duras críticas – como na vez em que, semanas depois de ganhar um prêmio pelo combate à homofobia, deu declarações homofóbicas e perdeu a honraria, embora tenha pedido desculpas posteriormente. Um personagem sui generis, de uma montanha-russa de emoções e atitudes. Nunca unânime. E, assim, extramente humano, da grosseria à generosidade, mas especialmente pelo apreço ao futebol.

Ao longo desses 43 anos, Nicollin não economizou dinheiro, tempo ou esforço pelo Montpellier. Fez do clube não só um negócio, mas também a parte mais carnal de sua vida. E, deixando as polêmicas e as fanfarronices de lado, não dá para negar a sua importância para o futebol francês. A maneira como ele revolucionou o time modesto, que se tornaria campeão nacional, serve de enorme exemplo. É a imagem mais forte que fica, entre tantas impressões causadas por uma personalidade tão impactante.

Bônus

Louis Nicollin deixou uma das maiores coleções de artigos esportivos do mundo. Seu acervo conta com milhares de peças, incluindo mais de quatro mil camisas de futebol – muitas delas, usadas pelos próprios jogadores em partidas oficias. Acabou criando um museu em Montpellier, possível de ser visitado:

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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