Ligue 1

Em plena crise, Rennes coleta cacos da primeira participação na Champions e aposta no longo prazo

A boa condução de um projeto consistente nos últimos anos levou o Rennes à sua primeira participação em Champions League nesta temporada. Infelizmente para os bretões, o passo foi maior do que a perna, e o clube acabou eliminado antecipadamente, empatando na estreia, contra o Krasnodar, e perdendo todos os cinco jogos seguintes no grupo E. O momento é de coletar os cacos e recomeçar, e a direção do clube dá a entender que não terá uma reação intempestiva ao momento de crise. Em vez disso, a confiança segue no trabalho que, observado todo o cenário, tem sido um grande sucesso.

O Rennes estreou na Champions League em casa, contra o Krasnodar, o adversário menos complicado da chave, e só conseguiu um empate em 1 a 1. O que viria a seguir, no entanto, seria muito pior. Foram cinco derrotas seguidas, incluindo um 3 a 0 para o Chelsea em que a sorte esteve do lado dos Blues. Com os resultados, o Rennes fechou a fase de grupos na lanterna, de fora mesmo da Liga Europa.

Os números mostram que faltou aos bretões experiência, tranquilidade e um pouco de qualidade para se chegar a melhores resultados. Ao longo de todos os duelos, os franceses não foram tão inferiores quanto os placares e a classificação final sugerem, mas foram punidos por oferecer muitas chances aos adversários e por não aproveitar as suas próprias.

A equipe teve mais finalizações que os oponentes na soma total (73 a 71), quase o mesmo número de finalizações a gol (25 a 27), mas marcou apenas três tentos, sofrendo 11. Em média, precisou de 24 chutes para marcar um gol, enquanto sofreu um a cada seis finalizações.

Técnico da equipe, Julien Stéphan destacou como isso pesou para a aventura infortuna dos rennais na competição europeia: “O que é frustrante não é ter sido manipulado pelos movimentos coletivos do oponente, mas sim pelas oportunidades que demos a eles, pelas quais fomos punidos. O (futebol em) alto nível é isso também. Na competição de alto nível, qualquer oportunidade dada a seu oponente prejudica muito”.

Stéphan, no entanto, tentou tirar algo de positivo da experiência, destacando o aprendizado que fica para seu plantel jovem. “É o fim de um capítulo de nossa temporada. Isso permitiu que nosso elenco muito jovem crescesse, que nossos jogadores muito jovens crescessem. Permitiu também ao clube se enriquecer e ganhar experiência.”

Presidente do Rennes, Nicolas Holveck pediu que haja um esforço coletivo na equipe para que ela possa voltar ao nível de atuação que apresentou no princípio da temporada francesa e que logo se perdeu.

“Todos elogiaram o jogo do Rennes nas seis primeiras rodadas (da Ligue 1). Agora precisamos encontrar novamente esse impulso coletivo. A solução está nas mãos dos jogadores. Eles têm que nos mostrar que podem reencontrar os valores que tínhamos no início da temporada”, disse.

Estas seis rodadas iniciais do Campeonato Francês parecem que aconteceram há uma eternidade. Àquela altura, comecinho de outubro, o Rennes liderava a competição, com quatro vitórias e dois empates. O início de campanha era uma confirmação de que o projeto gradual e bem estruturado dos anos anteriores acabava de dar um novo salto, justamente no ano da primeira participação em uma Champions League. No entanto, o fechamento da janela de transferências chegou, Raphinha, destaque ofensivo da equipe foi vendido ao Leeds no dia final do mercado, e não por coincidência o Rennes vem em uma queda significativa desde então.

Dos 13 jogos após aquele encontro pela sexta rodada contra o Reims, somando todas as competições, o Rennes perdeu nove, empatou três e venceu apenas um, determinando a eliminação da Champions e a queda para a nona colocação da Ligue 1. Neste período, sofreu com uma defesa passiva e um ataque perdido sem a referência que era Raphinha. A própria característica do homem contratado para repô-lo, Jérémy Doku, é diferente. Enquanto o brasileiro jogava pela direita para trazer para o meio, finalizando com a esquerda, sua perna boa, Doku é destro e busca encerrar suas jogadas de maneira diferente. De maneira geral, a equipe pareceu perder seus automatismos, e mesmos as subidas pelas pontas dos laterais Traoré e Maouassa perderam sua eficácia em um time que cada vez mais parece desencontrado em campo. A lesão de Eduardo Camavinga em meio a isso tudo, é claro, não ajudou.

Mesmo com tudo indo de mal a pior, o presidente Holveck mantém a fé no trabalho feito pelo técnico Julien Stéphan. Reitera o apoio à função do treinador no projeto e afirma que não serão três semanas que irão mudar sua opinião: “Posso te assegurar que jamais vi tanto trabalho realizado por uma comissão técnica em todos os níveis. Não são três semanas de competição que mudarão minha opinião. Para mim, o Stade Rennais e Julien Stéphan são uma parceria para os meses e os anos por vir”.

Em um clube de investimento modesto, a formação de jogadores é essencial para o sucesso futuro, e Holveck enxerga em Stéphan a figura perfeita para levar a cabo a condução dos atletas das categorias de base ao time profissional, com os casos de Adrien Truffert e Eduardo Camavinga como alguns dos mais recentes exemplos de sucesso da equipe bretã, reveladores do tipo de qualidade que a academia tem formado.

“Como já disse, o Julien Stéphan encarna o projeto ao longo prazo, porque ele conhece o Stade Rennais melhor do que ninguém. Ele conhece os jogadores das categorias de base de maneira perfeita. Ele os integra no elenco profissional progressivamente e os coloca para jogar. E eu conheço poucos treinadores que tomariam esse risco, ainda mais na Liga dos Campeões”, exaltou Holveck.

Ex-técnico da equipe B do Rennes, Stéphan assumiu o comando do time principal em dezembro de 2018, após a demissão de Sabri Lamouchi. Ainda na mesma temporada, 2018/19, mesmo com tão pouco tempo de trabalho, conseguiu feitos marcantes, levando o time a uma inédita oitava de final de Liga Europa e, mais impressionante ainda, ao título da Copa da França de 2019 em cima do Paris Saint-Germain, com um time que tinha como destaques Bourigeaud, Ben Arfa, Ismaïla Sarr, Benjamin André e Bensebaini, entre outros. O sucesso daquela equipe não passou despercebido, e esses últimos quatro se transferiram para outros clubes.

Este desmanche apenas reforçou o quão bom era o trabalho de Stéphan, que, apesar desses obstáculos, recrutou bem, com destaque especial para Édouard Mendy e Raphinha, hoje ambos na Premier League, e levou o Rennes a uma inédita classificação à Champions League ao alcançar o terceiro lugar da Ligue 1 em 2019/20.

Ainda inexperiente, Stéphan tem agora um teste importante para seu início de carreira. Neste tempo como técnico do time principal, não viveu um momento tão ruim como este, e a verdade é que não parece haver solução fácil para a espiral de maus resultados dos últimos dois meses. No entanto, qualquer que seja o caminho, ele deverá passar por uma melhora dos jogadores recém-contratados, que vivem natural adaptação a um novo clube, e possivelmente por um crescimento da mais nova safra de jogadores promovidos ao time principal, entre eles Adrien Truffert e Georginio Rutter, de 18 anos, que indicam ter um interessante futuro pela frente.

Mostrar mais

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo