Ligue 1

Em entrevista, Fàbregas fala sobre como o futebol ficou mais mecanizado e o desaparecimento do camisa 10

Dos atuais jogadores em atividade, Cesc Fàbregas está certamente entre aqueles que dão as mais interessantes entrevistas. Na mais recente delas, ao L’Équipe, o meio-campista do Monaco tocou em diversos assuntos, como La Masia, Messi, o momento da equipe monegasca, mas suas afirmações mais interessantes vieram quando foi questionado sobre as mudanças que percebeu no futebol ao contrastar o início de sua carreira, no começo da década de 2000, com os últimos anos.

Ao longo do tempo, Fàbregas notou uma mudança significativa sobretudo no trabalho dos treinadores. Antes, ele observa, os técnicos estavam lá mais para motivar e dar algumas poucas instruções. Hoje, gostam de controlar tudo e determinar padrões de jogo, onde cada jogador ficará e, por fim, repetir à exaustão os movimentos até que a equipe assimile tudo.

Neste sentido, Fàbregas não encontrou alguém que fizesse mais isso do que Antonio Conte. O meio-campista relatou um “choque” ao começar a trabalhar com o italiano, alguém que admira até hoje e com quem aprendeu muita coisa que, espera, poderá usar em sua futura carreira como treinador.

Por fim, um armador como poucos em sua geração, Fàbregas falou também sobre a questão da “extinção” do camisa 10 clássico, para ele uma figura incompatível com o futebol físico e de entrega defensiva completa de hoje em dia. Confira abaixo alguns trechos da entrevista do espanhol ao L’Équipe.

A mudança do futebol e do trabalho do técnico

“Um meio-campista precisa ajudar a fazer jogar a sua equipe, mas com o objetivo de jogar pra frente e encontrar os espaços. Sempre há um buraco, é preciso saber encontrá-lo, seja com um passe direto ou fazendo o passe para um outro jogador que também o encontrará. É por isso que os treinamentos de hoje em dia têm muitas repetições. Antes, não fazíamos tanto isso. O treinador estava lá mais para motivar do que para dizer como jogar. Há dez ou 15 anos, eles te diziam duas ou três coisas, e era isso. Era: ‘Vai ser um 4-4-2, joguem’. Hoje em dia, todos os treinamentos, de todas as equipes, são extremamente preparados. Eu passo para você, você para ele etc. Não digo que é robotizado, mas o futebol atual é muito mecanizado. É repetição, repetição, repetição, para que todos os jogadores saibam o que devem fazer quando estão no campo.”

“(O futebol evoluiu desta maneira) Talvez por falta de talento… Para fulano, posso explicar uma coisa, e ele a entenderá em um segundo, e passaremos para outra coisa. Para sicrano, preciso explicar dez vezes para que ele a compreenda. O que o treinador atual quer é que todos os jogadores saibam exatamente o que devem fazer. Se estou aqui, este jogador deve estar aqui, e outro ali, para que o triângulo seja assim.”

“Não sei (se os treinadores confiam menos nos jogadores), mas eles estão muito mais focados na maneira de fazer os jogadores atuarem coletivamente. Antes, fazíamos coisas mais individuais, mais específicas para o ponta, o lateral, o meio-campista…”

Antonio Conte e Fàbregas, no Chelsea, em 2017 (BEN STANSALL/AFP via Getty Images/OneFootball)

O impacto do trabalho com Conte

“Quando o (Antonio) Conte chegou ao Chelsea, em 2016, eu comecei a ver o que era o futebol moderno: muitas corridas, sessões fracionadas, muitos treinamentos robotizados, ou seja, ‘você toca para mim, eu para você, se você está lá eu preciso estar aqui’. Depois, havia uma sessão de vídeo para explicar: ‘Isso aqui está certo, isso, não, você deveria estar aqui, este aqui precisa entrar nesse segundo corredor…’ Eu não conseguia acreditar. Foi um choque, porque eu sempre fui um jogador que dependia da criatividade, aquilo em que eu pensava ser o melhor. Não gosto que me digam: ‘Se você tiver a bola, deve passar para tal jogador’. Se eu vejo um passe para o Diego Costa que abriria caminho para um gol, por que eu deveria encontrar um outro jogador? É por isso que sofri um pouco com o Conte no começo. Mas eu entendi que eu precisava me adaptar sem perder meus valores futebolísticos e que outros jogadores precisavam de fato desse tipo de futebol e de discurso. O futebol é assim. Daqui a cinco ou dez anos, chegarão outros treinadores que farão outras coisas, os novos Guardiola ou Klopp.”

Futuro como treinador

“Eu adoraria, um dia. Mas é muito difícil. Você pode ter as melhores ideias e preparar perfeitamente uma partida, e um jogador que faça algo errado pode colocar tudo a perder. Eu amo fazer anotações sobre cada um dos treinadores que tive. Sei que o John Terry fazia isso também. Escrevo muito, tenho quatro ou cinco cadernos. Por exemplo, sobre o Wenger, sobre tal ou tal treinamento, sobre aquilo que eu gostava e que não gostava também. Para aprender e não esquecer, tirar o melhor de cada um. (O treinador sobre o qual mais fez anotações foi) Conte, sem dúvida! Tudo era completamente novo com ele.”

O “desaparecimento” do camisa 10 clássico

“Sim, eles estão desaparecendo. Jogadores de grande qualidade com este perfil, como o Özil ou o James (Rodríguez) não interessam mais tanto aos treinadores. Nesta posição, defensivamente, você fica muito sozinho, precisa correr muito e ser muito forte fisicamente. Esses jogadores podem te dar muito no passe final, mas os treinadores são pragmáticos: eles preferem uma estrutura estável, clara, em vez de depender da boa fase de um só jogador. E todos eles querem uma equipe com boas coberturas defensivas.”

“Sim, é uma pena (resposta ao ser questionado sobre Neymar ser uma exceção e, infelizmente, não jogar tão frequentemente na função). O Neymar é especial. Onde quer que ele jogue, ele sempre fará a diferença. Existem jogadores parecidos, aos quais você pode dar mais liberdade. Mas aos outros, não. Um dia, o Conte disse acho que para o Hazard: ‘Ok, você não quer defender. Então, marque dois ou três gols por partida para mim. Se você os fizer, você poderá fazer o que quiser. Caso contrário, você irá defender, como todo mundo’. O treinador de hoje em dia é isso. (As exceções são) Messi, Cristiano, Neymar. Mas o Neymar defende, hein?!”

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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