Ligue 1

Dois anos depois da queda e sob nova direção, o Toulouse volta mais forte à primeira divisão francesa

O Toulouse bateu na trave em 2020/21, mas manteve as bases do projeto e fez uma campanha excelente na Ligue 2

O Toulouse permaneceu por quase duas décadas como nome constante na primeira divisão do Campeonato Francês. Os violetas fizeram algumas campanhas na parte de cima da tabela e se classificaram até a uma edição da Champions League, embora normalmente ocupassem o bolo intermediário. O rebaixamento em 2019/20 pôs fim a uma sequência de 17 anos na Ligue 1. Porém, o retorno não demorou a acontecer. Líder absoluto na Ligue 2, Téfécé comemorou o acesso nesta segunda-feira. A vitória por 2 a 0 sobre o Chamois Niort antecipou o serviço em três rodadas e garantiu uma grande festa dentro do Estádio de Toulouse. Há expectativas altas com o novo momento da agremiação, que mudou de dono e apresenta um bom trabalho nos bastidores.

O Toulouse tem uma história curiosa. A fundação do clube em 1970 acontece para preencher a lacuna do antigo Toulouse Football Club, que conquistou a Copa da França em 1957 e acumulou temporadas na primeira divisão nacional. Com dificuldades financeiras, a agremiação se fundiu com o Red Star Paris, então na segunda divisão. O clube da capital herdou a vaga na elite em 1967/68, assim como jogadores e comissão técnica do TFC. Porém, a população da cidade não aceitou bem a mudança e criou um novo Toulouse três anos depois. O recomeço se deu na segunda divisão, até que os violetas aparecessem na elite em 1982/83.

O Toulouse chegou a ser terceiro colocado do Campeonato Francês em 1986/87, permanecendo na elite de maneira ininterrupta até 1993/94. A virada do século seria mais delicada aos violetas, que oscilaram entre as duas primeiras divisões, até serem rebaixados à terceirona em 2001 por dívidas. Depois disso, o Téfécé conquistou dois acessos consecutivos e voltou mais forte à elite em 2003/04. Foi quando atravessou seu período mais longo na Ligue 1 e fez bons papéis, em especial pela terceira colocação na Ligue 1 em 2006/07. Alguns bons nomes estouraram pela equipe neste ínterim, como Moussa Sissoko, André-Pierre Gignac e Wissam Ben Yedder.

Mais recentemente, o Toulouse vinha de campanhas claudicantes, até sofrer o rebaixamento em 2019/20. A Ligue 1 foi encerrada por antecipação em decorrência da pandemia, mas a situação do Téfécé era péssima mesmo faltando dez rodadas, com o time a 14 pontos de sair da zona de rebaixamento. A sequência incluía 17 derrotas nas 18 partidas anteriores. O descenso culminou na saída de Olivier Sadran, proprietário que iniciou a reconstrução na terceirona em 2001. Desgastado, ele preferiu deixar a cena e novos investidores chegaram ainda em julho de 2020, com a compra efetuada pelo fundo de investimentos Red Bird.

A chegada de um grupo americano deixou parte da torcida em sinal de alerta. O rival Bordeaux, afinal, se afundou na malfadada experiência com o King Street. Contudo, a linha de trabalho do Red Bird seria diferente. Em vez de tentar administrar o Toulouse como uma “empresa”, trataram os violetas como o que são, um clube de futebol. E isso passou pela chegada de gente especializada para os cargos principais. O novo presidente seria Damien Comolli, que foi olheiro do Arsenal no auge de Arsène Wenger, além de atuar em cargos diretivos de clubes como Saint-Étienne, Tottenham, Liverpool e Fenerbahçe. Tinha bagagem suficiente para a reconstrução e pretendia construir uma identidade em campo que fosse abraçada pela calorosa torcida.

Por mais que o Toulouse tomasse boas decisões e tivesse o maior orçamento da segunda divisão, o acesso não seria imediato. A equipe viveu bons momentos e revelou Amine Adli, eleito o melhor jogador da competição, mas terminou na terceira colocação da Ligue 2 em 2020/21 e precisou disputar os playoffs. Até chegou à decisão contra o Nantes, antepenúltimo colocado da Ligue 1. Cada equipe venceu uma partida, mas o gol fora de casa determinou a permanência dos Canários na elite. A missão dos violetas recomeçaria em 2021/22, ainda com Comolli à frente, mas com a saída do treinador Patrice Garande.

O Toulouse recorreu ao técnico Philippe Montanier para esta temporada. Contaria com um comandante experiente, de trabalhos relevantes por Rennes e Real Sociedad. Além do mais, que tinha atuado como goleiro do clube nos anos 1990. Já dentro de campo, muitos reforços chegaram, até para suprir vendas como a de Adli, negociado com o Bayer Leverkusen. A diretoria não gastou tanto, mas se pautou no estudo de dados e na atenção a ligas secundárias, algo que marcou os métodos desenvolvidos por Comolli desde os tempos de olheiro. Entre as novidades estava o ponta brasileiro Rafael Ratão, levado do Slovan Bratislava. De novo os violetas entravam como favoritos na segundona, mas dessa vez para não deixar a oportunidade passar. O time apareceu na zona de acesso direto na terceira rodada e não saiu mais de lá. São apenas três derrotas em toda a campanha, com 22 vitórias. O rendimento ofensivo é muito alto, com 80 gols marcados, incluindo dez jogos em que o Téfécé anotou pelo menos quatro gols.

A torcida do Toulouse podia contar nos dedos os dias para a subida. O time vem numa sequência invicta de sete partidas, que inclui vitórias nos confrontos diretos com Paris FC, Sochaux e Auxerre. Nesta segunda, bastava vencer o Chamois Niort para abrir uma vantagem de 11 pontos na zona de acesso direto, com mais três partidas pela frente. Foi o que aconteceu, com os 2 a 0 no marcador. Brecht Dejaegere e Ado Onaiwu anotaram os gols, sob uma grande atmosfera no Estádio de Toulouse. E a festa não deve parar por aí, já que o Téfécé ainda terá a chance de comemorar o rebaixamento do rival Bordeaux, que dificilmente escapará da degola na Ligue 1.

Rafael Ratão está entre os destaques do Toulouse na campanha e anotou 11 gols. A artilharia é do centroavante inglês Rhys Healey, trazido do MK Dons, que soma 20 tentos até o momento. Ainda assim, o protagonista é o meia Branco van den Boomen, trazido do De Graafschap na temporada passada. O holandês contribuiu com 12 gols e 21 assistências, inclusive com um passe para o tento que sacramentou o acesso. E caso você esteja se perguntando, sim, ele se chama Branco por causa do lateral que eliminou a seleção de seu país na Copa de 1994, um ano antes que a cria da base do Ajax nascesse.

O favorito para a segunda vaga no acesso direito, neste momento, é o Ajaccio. O clube da Córsega sustenta uma vantagem de três pontos na segunda colocação. Auxerre, Sochaux e Paris FC aparecem logo abaixo como os únicos perseguidores. Caso não consigam a ultrapassagem, poderão disputar os playoffs, que também envolvem o antepenúltimo da Ligue 1 – atualmente o Saint-Étienne. Já o Toulouse pode se planejar para a primeira divisão, com o fortalecimento de uma base promissora. A próxima edição da Ligue 1 terá quatro rebaixamentos, por causa da diminuição dos participantes da competição, de 20 para 18. Mas, pelo que fizeram nesse ano, os violetas podem muito bem almejar outra estadia longa na elite.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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