Dez anos do conto de fadas do Montpellier, o campeão improvável que impôs o primeiro fracasso ao PSG milionário
O Montpellier tinha passado pela segunda divisão três anos antes e conseguiu seu milagre em 2011/12
O Campeonato Francês quase sempre foi um dos mais equilibrados da Europa. A hegemonia recente do Paris Saint-Germain pode indicar outra coisa, mas a Ligue 1 historicamente mudou de mãos com frequência e viu potências se alternarem de tempos em tempos. Essa rotatividade de campeões permitiu, inclusive, diferentes contos de fadas a equipes menores. E uma das mais incríveis aconteceu há exatos 10 anos, com o Montpellier. Justo na temporada em que o PSG começava a receber o dinheiro do Catar, o dono da taça foi um time de investimento bem menor e que havia subido da segundona três anos antes. La Paillade contou com seu apaixonado presidente, um treinador competente e estrelas em ascensão – entre elas, Olivier Giroud. Ao longo da última década, outros desafiantes foram capazes de destronar Paris, mas ambos com seu grau de poderio financeiro. Ver um milagre como o do MHSC se repetir é algo ainda mais improvável no atual futebol francês – e por isso aquelas lembranças são tão saborosas.
A história do Montpellier é diretamente ligada a Louis Nicollin, o presidente que fez do clube o grande amor de sua vida. Nascido na região de Rhône-Alpes, “Loulou” era torcedor fanático do Lyon e aficionado por esportes, a ponto de atuar na segunda divisão francesa de handebol. No entanto, o francês precisou trabalhar desde cedo na empresa de coleta de lixo da família e assim fez sua fortuna. O Montpellier surgiu em seu caminho quando ele tinha 31 anos, como uma oportunidade de se inserir no futebol. Logo aquele clube se tornaria a sua vida, com um grande envolvimento no dia a dia.
O Montpellier passava por momentos delicados quando Nicollin chegou, em 1974. A cidade tinha sua importância no futebol nacional, com direito a participações na primeira divisão e o título na Copa da França de 1929. Porém, a principal agremiação de Montpellier nestes primórdios encarou problemas financeiros e passou por uma série de fusões, até virar o atual MHSC. Loulou assumiu um time que tentava se reconstruir na quarta divisão do Campeonato Francês. Foi quando o empresário mostrou que poderia ser um grande dirigente. Em sete anos, La Paillade conquistou três acessos e encerrou uma ausência de quase duas décadas na primeira divisão.

No fim dos anos 1980, o Montpellier viveu seu primeiro período dourado. O clube conquistou a Copa da França em 1990 e fez boas campanhas na primeira divisão do Campeonato Francês. Eram tempos de talentos em eclosão e estrelas internacionais. Nicollin contratou jogadores do calibre de Roger Milla, Carlos Valderrama e Júlio César, ao passo que ajudou nas explosões de Laurent Blanc e Eric Cantona. Quando a equipe colocou as mãos na copa após seis décadas, seu treinador era ninguém menos que Aimé Jacquet, futuro comandante da França campeã do mundo e que pouco antes treinara uma equipe fortíssima do Bordeaux.
O Montpellier se manteve como um time de primeira divisão até 2000, quando caiu, mas conquistou o acesso imediato depois disso. Mais lento seria o processo de reconstrução após o descenso em 2003/04. La Paillade ficou cinco anos na Ligue 2 e chegou a flertar com a terceirona, até subir na última rodada de 2008/09. A promoção, aliás, não era a única boa notícia naquela temporada. O MHSC conquistou em 2009 a Copa Gambardella, a mais tradicional competição de base da França. Existia uma clara fornada de talentos ali, que poderia auxiliar o time em seu retorno à primeira divisão.
Responsável pelo acesso, Rolland Courbois decidiu não permanecer no comando do Montpellier. Louis Nicollin, então, fez uma aposta interessante na escolha de seu novo técnico. O presidente entrou em contato com René Girard, um pupilo de Aimé Jacquet, de quem foi jogador nos tempos de Bordeaux e depois auxiliar na seleção. A partir de 2002, Girard treinou os Bleus em diferentes categorias na base. Por esse trato com os novatos, o técnico recebeu o convite para desenvolver um trabalho de longo prazo no Montpellier. Poderia lapidar as promessas da base e também reforços pouco badalados. E isso se tornaria uma das chaves para a ascensão de La Paillade.

O Montpellier foi uma grata surpresa da Ligue 1 em 2009/10. Voltou e de imediato emplacou na quinta colocação. Para 2010/11, o time perdeu alguns jogadores importantes e não conseguiu repetir o impacto. Ficou num modesto 14° lugar, muito por conta da queda de desempenho na reta final, com seis derrotas nas últimas oito rodadas. Assim, quando a Ligue 1 de 2011/12 começou, La Paillade não aparecia entre os candidatos ao título. Muito pelo contrário, a expectativa era de que o time de René Girard estivesse satisfeito em garantir a permanência na primeira divisão.
Um fator favorável ao Montpellier era o entrosamento de seu conjunto. A formação daquele time havia se iniciado ainda na segunda divisão. O goleiro Geoffrey Jourdren era cria da casa, com rodagem nas seleções de base. A zaga contava com a ascensão de Mapou Yanga-Mbiwa, outro prata da casa que jogou pelos Bleus. Ao seu lado, um dos reforços para 2011/12 era o veterano Hilton, campeão nacional pelo Olympique de Marseille e pronto para se tornar uma lenda no Estádio de la Mosson. O lateral direito Garry Bocaly tinha participado do acesso, apesar de uma passagem posterior por Marselha. Já na esquerda, Henri Bedimo chegava do Lens como uma solução para o setor.
Na cabeça de área, Jamel Saihi surgiu na base e começou a pintar no time de cima durante a segundona. Já Benjamin Stambouli era um dos campeões da Copa Gambardella de 2009 que começava a eclodir. O chileno Marco Estrada era outra opção, trazido um ano antes da Universidad de Chile. O time campeão da base também contribuía na armação com Rémy Cabella e principalmente Younès Belhanda, este o grande craque da companhia, o meia de toque diferenciado. Mais à frente, as pontas eram ocupadas por John Utaka (mais rodado, vindo do Portsmouth naquela temporada) e Souleymane Camara (trazido do Nice na segundona, uma bandeira do MHSC). Já o homem de referência era Olivier Giroud, que chegou do Tours e não se deu bem no primeiro ano de Ligue 1, antes de realmente deslanchar.

O Montpellier costumava atuar num 4-2-3-1. Tinha uma defesa forte e segura, muita velocidade pelos lados do campo, transições fatais. Hilton e Yanga-Mbiwa formavam uma dupla de zaga bastante entrosada, assim como a combinação entre Bedimo e Utaka pelo lado esquerdo gerava um tormento aos adversários. De qualquer forma, as vitórias do MHSC costumavam girar ao redor de Belhanda e Giroud. Era o camisa 10 de habilidade e malícia, que se unia ao centroavante matador e também muito inteligente. Acabaram se tornando a fórmula do sucesso, com 21 gols e 12 assistências para Giroud, além de 12 gols e seis assistências para Belhanda.
Antes que o Montpellier desabrochasse, porém, os favoritos do campeonato eram outros. O PSG começava a receber o dinheiro do Catar e fez suas contratações, embora ainda abaixo do nível que viria depois. Javier Pastore, Thiago Motta, Jérémy Ménez, Diego Lugano, Blaise Matuidi, Maxwell, Alex, Salvatore Sirigu e Kevin Gameiro eram os investimentos principais, que se uniam a destaques antigos como Nenê e Christophe Jallet. Dono da taça anterior, o Lille sofreu um desmanche, mas conseguiu segurar Eden Hazard, além de trazer Dimitri Payet e Joe Cole. O Olympique de Marseille tinha Loïc Rémy, André Ayew e Mathieu Valbuena entre os protagonistas do ataque. Já o Lyon contava com Hugo Lloris para segurar as pontas no gol, além de Lisandro López e Bafétimbi Gomis na frente.
Longe da badalação, o Montpellier tinha um elenco bastante unido. O clima nos vestiários era ótimo, com um grupo que sabia dar seu máximo em campo, mas também se divertir fora. A relação com Louis Nicollin e René Girard também ajudava. Além disso, existia uma grande identificação com a torcida. O MHSC é um clube cujos torcedores aplaudem lances de efeito, mas gostam ainda mais quando seus virtuosos se colocam a serviço do coletivo. A equipe deixava clara sua garra, especialmente nos jogos em casa. Explicitava o que, por lá, é chamado de “O espírito da Paillade” – La Paillade, no caso, é a região da cidade onde o time está sediado.

“O espírito da Paillade significa nunca desistir, mostrar solidariedade, lutar. É um reflexo da nossa vizinhança, que não é das mais favorecidas em Montpellier. Muitos imigrantes chegaram do norte da África, há uma grande mistura na população. São pessoas que sofrem, lutam e, quando vão ao estádio, apenas pedem uma coisa: que no final de cada partida a camisa esteja encharcada. Depois de conseguir isso, você pode perder para um time mais forte que você, mas também pode derrubar gigantes”, resumiria Laurent Nicollin, filhou de Loulou e atual presidente, à revista SoFoot.
Esse espírito se manifestou no Montpellier desde as primeiras rodadas. Afinal, o time venceu suas três primeiras partidas e já saltou para a liderança. A grande credencial veio na segunda rodada, com o triunfo por 1 a 0 sobre o Lille no Estádio Pierre Mauroy, gol de Giroud. La Paillade não estava a passeio. A invencibilidade do MHSC foi quebrada na quarta rodada, na visita ao Lyon. No entanto, os bons resultados continuaram a vir até o embate com o PSG na oitava rodada. Já era um encontro com caráter decisivo, considerando a liderança dos azarões e o investimento dos parisienses. Dentro do Estádio de la Mosson, o Paris conseguiu vencer por 3 a 0, num jogo de eficiência dos visitantes e muitos lamentos dos anfitriões – dos gols perdidos às decisões da arbitragem. Ainda assim, a equipe de René Girard tiraria uma lição sobre o que precisava mudar e melhoraria substancialmente.
O Montpellier emendou uma sequência de oito rodadas sem perder depois disso, com seis vitórias. O Olympique de Marseille esteve entre as vítimas. Contudo, o fim do primeiro turno não foi tão animador assim. Derrotas para Valenciennes e principalmente Évian custaram o simbólico título de inverno. O PSG terminou o ano de 2011 na liderança, mesmo que tenha demitido o técnico Antoine Kombouaré naquele momento, para garantir a chegada de Carlo Ancelotti ao posto.
O começo de 2012 seria bastante positivo ao Montpellier. A equipe venceu as quatro primeiras rodadas do novo ano, derrotando o Lyon neste momento. Quando veio o confronto direto com o PSG, o empate por 2 a 2 poderia não dar a liderança ao MHSC, mas o time mostrou como poderia competir ao virar o placar e fazer os parisienses sofrerem até arrancarem a igualdade nos minutos finais. O espírito da Paillade prevalecia. Apesar de uma derrota para o Nancy, o Montpellier venceu cinco dos sete jogos seguintes. Superou Saint-Étienne e Olympique de Marseille para recuperar a liderança. No Vélodrome, aliás, Belhanda evidenciou a mágica que rodeava aquela fase. O camisa 10 matou no peito o passe de Giroud e emendou um lindo voleio, que saiu do alcance de Steve Mandanda e entrou na gaveta. Foi o gol mais marcante da campanha.
No meio de abril, o Montpellier perdeu para um Lorient lutando pela sobrevivência. O PSG ficava apenas dois pontos atrás. Mas aquele seria o último revés da campanha. La Paillade venceu Valenciennes e Toulouse, antes de empatar com o Évian. Paralelamente, o Lille auxiliou ao ganhar dos parisienses. Faltando mais três rodadas, a vantagem do MHSC era de três pontos. O time não deixaria escapar. Uma bela mostra disso veio com uma difícil vitória por 2 a 0 sobre o Rennes, fora de casa, na antepenúltima partida.
Por fim, os dois últimos jogos são inesquecíveis para o Montpellier. O Lille, ainda com chances mínimas de título, era o oponente no penúltimo compromisso. O Estádio de la Mosson virou um verdadeiro caldeirão e o gol decisivo no triunfo por 1 a 0 saiu aos 49 do segundo tempo, com o substituto Karim Aït-Fana, após um contra-ataque puxado por Giroud. Só faltava mais um passo, e o empate bastaria na partida final. Seria uma ocasião tensa, contra um Auxerre já rebaixado, mas cuja torcida botou pressão nos visitantes. Apesar disso, o MHSC venceu por 2 a 1. Olivier Kapo até abriu a contagem para os anfitriões no primeiro tempo, mas John Utaka empatou 12 minutos depois e garantiu a virada aos 30 da segunda etapa. O PSG, que precisou virar contra o Lorient, não ficou sequer um minuto como virtual campeão. Mesmo com certa aflição, nada tirava a taça do Montpellier naquele dia.
A comemoração do Montpellier seria das mais malucas. A começar pelo presidente Nicollin, que, do alto de seus 69 anos, pintou os cabelos de laranja e azul. “Nos vestiários, achamos Loulou. Não sabíamos se ele estava sonhando ou o quê. Ele estava sem respirar. Parecia estar dizendo a si mesmo: ‘Droga, o que acabamos de fazer?’. Ele estava em transe, encharcado de suor. Era pura alegria”, relembraria Giroud, à SoFoot. A cidade inteira saiu às ruas para receber os campeões. Acontecia uma catarse de um dia tão sonhado, mas que parecia impossível, e que dificilmente se experimentaria de novo. O espírito de La Paillade tinha seu dia para extravasar.
Aquele Montpellier não prosperou muito além. O time caiu logo na fase de grupos da Champions seguinte, sem uma vitória sequer, e retornou de imediato à vida modesta de meio de tabela na Ligue 1. Ao menos, aproveitou o dinheiro das premiações para melhorar suas estruturas e passar longe do risco de rebaixamento, com um patrimônio muito maior – algo que Laurent Nicollin conduz após a morte de Loulou, vítima de um ataque cardíaco cinco anos após o título. O legado daquele feito inigualável não esteve em novas taças, mas na estabilidade possibilitada a uma agremiação de realidade limitada – que não passou de um sexto lugar nas últimas dez temporadas.
Mesmo entre os destaques individuais, a maioria ali não vingou longe do Estádio de la Mosson. Giroud foi a grande exceção, enquanto Belhanda e Yanga-Mbiwa nunca emplacaram além daquele feito. História maior deixaram aqueles que seguiram como bandeiras em La Paillade, a exemplo de Hilton e Camara. Esse contexto posterior de vacas magras, porém, valoriza o milagre alcançado pelo MHSC em 2011/12. Um devaneio virou realidade e não passou perto de se repetir. Tudo soa ainda mais inacreditável.




