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A derrota do Olympique de Marseille no final de semana, em casa, por 2 a 1 para o Nîmes, então lanterna da Ligue 1, colocou o clube phocéen em uma encruzilhada, forçado a buscar uma reação para evitar que o colapso na temporada seja irreversível. O vexame, e sobretudo a forma como ele foi percebido em termos do nível de entrega dos jogadores, fez explodir uma crise que lenta e progressivamente se instalava no OM ao longo da temporada. Ela hoje se expressa em várias facetas e não parece ter uma solução fácil, mas qualquer que seja o caminho de recuperação, ele passará antes de mais nada por uma melhora urgente nos resultados.

O revés contra o Nîmes na rodada passada foi o fundo do poço para o Marseille na temporada, o que é significativo, considerando a vergonhosa campanha na fase de grupos da Champions League. Uma série de situações que vinham relativamente latentes, com algum espaço na mídia mas não tanto destaque, ganharam os holofotes após mais uma atuação fracassada da equipe de .

No dia seguinte à derrota, o presidente do clube, , furioso, soltou os cachorros para cima de seu elenco. Suas palavras foram vazadas por fontes internas à imprensa e ressoaram nos últimos dias. “Se o estádio estivesse cheio, dez mil torcedores estariam esperando por vocês na saída”, teria dito o dirigente segundo o jornal Le Parisien, classificando ainda como “patética” a atuação contra o Nîmes e dizendo que os atletas eram “indignos de vestir a camisa”.

Eyraud teria ainda feito um ultimato aos jogadores com contrato acabando ao fim desta temporada, dizendo que eles teriam 48 horas para dizer se pretendiam serem profissionais até o fim. Caso contrário, poderiam procurar outro clube já durante a atual janela de transferências de janeiro.

Vista por parte da imprensa local como possivelmente uma tentativa de melhorar sua imagem diante do torcedor, a explosão de Eyraud acabou por jogar ainda mais luz sobre sua gestão problemática. Em dezembro de 2020, o presidente foi fortemente criticado pela torcida após dizer em uma entrevista que o OM tinha muitos torcedores como funcionários, que ficavam abatidos e deixavam seu desempenho profissional ser influenciado por resultados em campo, evocando a necessidade de se buscar um “equilíbrio entre a paixão e a razão”. Agora, a menção aos jogadores em fim de contrato e sua entrega em campo sublinham apenas a incapacidade de Eyraud em lidar com a questão no tempo certo, algo ainda mais problemático considerando o status de alguns desses nomes, como e Jordan Amavi.

“Existem aqueles em fim de contrato, jogadores que estão chegando, outros que partem. Talvez estejamos pagando o preço disso. Estamos um pouco preocupados com a sequência (do trabalho)”, afirmou o técnico André Villas-Boas.

A incerteza em torno de quem estará no clube ou não na próxima temporada, por sinal, poderia ajudar a explicar um outro grande problema que atravessa o OM no momento: a percepção de falta de comprometimento e entrega por parte dos jogadores.

Existe uma impressão cada vez maior de que há um desequilíbrio no elenco, com alguns poucos atletas se entregando bastante e muitos outros não fazendo o mínimo. Isso ficou destacado pelo fato de que Payet, uma referência técnica e também de status no grupo, correu apenas 6,81 quilômetros contra o Nîmes, quando a média para jogadores de futebol em uma partida é de 10,8 quilômetros.

Mais do que erros técnicos ou a necessidade de ajustes táticos, o que salta aos olhos atualmente no jogo do OM é a falta de estado de espírito e de sintonia dos jogadores, visão que é maximizada após uma produção tão fraca contra o lanterna depois de uma atuação relativamente boa contra o poderoso PSG, pela Supercopa da França (derrota por 2 a 1 na última quarta-feira).

A situação é tão ruim que não teria sido apenas o presidente do clube a dirigir palavras duras aos jogadores. Segundo a RMC Sport, André Villas-Boas, em conversa com seus comandados após a derrota para o Nîmes, teria ameaçado entregar seu cargo. Com o nível de comprometimento que tem visto por parte de seu elenco, o português estaria se sentindo traído pelos jogadores, os quais sempre defendeu em público, blindando-os de críticas ou de polêmicas, com o principal exemplo disso sendo o caso de Payet: na frente das câmeras, Villas-Boas sempre apoiou o meia e nunca evocou os problemas de atrasos e ausências nos treinamentos que têm marcado sua temporada.

Os atletas teriam então intervindo, afirmando que cabia a eles questionarem sua própria postura. O português teria suavizado seu discurso após sua fala inicial, mas ainda dizendo que, se fosse ele o problema, poderia deixar o clube. Na mesma conversa, o zagueiro espanhol Álvaro teria dito que, “após um ano e meio no clube, aprendi que os jogadores não têm o direito de desrespeitar esta camisa”.

A fonte interna que revelou a história contou à RMC Sport que a ameaça teria agido desde então como um choque de realidade. Sem confirmar o relato tenso, Villas-Boas revelou no início desta semana que a derrota para o Nîmes virou ponto de partida para uma série de conversas nos últimos dias.

“Todos tomaram a palavra. O presidente com os jogadores, eu com os jogadores, os jogadores com a comissão, o capitão. Houve várias boas trocas, permanecemos concentrados para a sequência, espero que isso dê um impacto positivo sobre o estado de espírito. Devemos todos nos olhar no espelho para fazer melhor”, afirmou AVB em entrevista coletiva na segunda-feira (18).

Villas-Boas assumiu que, ao menos em termos de resultados, o Marseille vive uma crise. “Neste aspecto, precisamos sair da crise. Começamos bem a temporada com uma partida com um excelente estado de espírito contra o PSG (vitória em Paris por 1 a 0 em 13 de setembro). Quando você vê como as coisas acontecem lá atrás, não é bom, estamos longe de nossos objetivos. O estado de espírito é bom nos treinamentos, precisamos aplicá-lo no campo.”

Apesar do fracasso histórico na Champions League, com quatro derrotas nas quatro primeiras rodadas da fase de grupos colocando o clube como recordista de revezes seguidos na competição (13, entre as temporadas 2011/12, 2013/14 e 2020/21), o Marseille mantinha até meados do mês passado uma boa campanha na Ligue 1. Com dois jogos atrasados por causa de infecções por Covid-19 em clubes adversários, se via em condições até de ultrapassar o então líder PSG na tabela caso vencesse seus jogos em atraso. Em vez disso, iniciou contra o Rennes, em 16 de dezembro, uma indigesta sequência de tropeços, com apenas uma vitória em seis jogos, somando ainda três derrotas e dois empates.

Nesta quarta-feira (20), o OM tenta dar um primeiro passo em sua reação ao enfrentar o Lens em jogo adiado da 9ª rodada. Hoje a oito pontos do Lyon, terceiro colocado na tabela e último dos classificados à Champions League caso a temporada terminasse agora, mesmo um cenário positivo, de vitórias nos dois jogos em atraso, ainda deixaria o Marseille a dois pontos do grupo que vai à principal competição continental da Europa. O contraste de perspectivas indica o quão grande foi a queda recente.

Para se levantar, o Marseille precisará, entre outras coisas, que seus principais jogadores se apresentem para o desafio. Florian Thauvin e, sobretudo, têm feito temporada problemática, cada um por seu motivo.

Payet, grande líder técnico do vice-campeonato em 2019/20, não consegue repetir em 2020/21 o mesmo protagonismo ou mesmo chegar perto disso, trazendo à mesa ainda problemas de comportamento. Thauvin, por sua vez, lidera as estatísticas de gols (6) e assistências (9) na equipe, mas vem sendo criticado por sua entrega coletiva.

Villas-Boas revelou ter tido uma conversa recente com a dupla para resolver a questão, indicando que a reação da equipe passará também pela confiança em seus xerifes: “Não quero colocar isso em praça pública, mas recebi os dois no meu escritório, o Steve (Mandanda) também. Isso resta entre nós. Precisamos dos três em seu melhor nível”.

Esta segunda metade de temporada para o Marseille deve, por fim, ajudar a definir o próprio futuro de Villas-Boas no clube. Para além do consenso de que resultados importam para a permanência de um treinador, o português tem contrato apenas até o fim da temporada e, questionado sobre uma continuidade, teve a mesma hesitação em responder que apresentou na campanha passada, quando esteve perto de deixar o OM após uma crise organizacional. Por ora, o técnico prefere focar o momento: “Não sei, não é a hora de falar disso. (…) Fizemos uma Champions League ruim e, no momento, não temos o direito de pensar em uma renovação”.