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Depois do vice-campeonato da Ligue 1 em 2019/20 e do consequente retorno à Champions League após sete anos, o que era para ser um ano de afirmação ao Olympique de Marseille virou uma grande decepção. A campanha vexatória na competição europeia, com eliminação ainda na fase de grupos, tem sido complementada por um desempenho sofrível a nível nacional, e mesmo tudo isso ficou agora em segundo plano devido à grande crise institucional que vai se desenhando em torno, sobretudo, da figura do presidente Jacques-Henri Eyraud e de sua relação com os torcedores.

A convivência entre as duas partes já não era das melhores, mas pareceu chegar ao limite da animosidade depois de declarações polêmicas de Eyraud, que, em entrevista em dezembro de 2020, afirmou que o clube tinha em sua estrutura torcedores demais funcionários, que ficavam abatidos e deixavam seu desempenho ser influenciado por resultados da equipe em campo. Para o presidente, era preciso buscar um equilíbrio entre a paixão e a razão.

O episódio apenas terminou de sedimentar a ideia que a torcida tinha de Eyraud, de um homem de negócios parisiense incapaz de entender a relação do torcedor com o clube e com sua cidade, uma simples engrenagem do mundo financeiro cujas medidas afastam o apaixonado do OM e assepsiam a instituição. Como braço direito do proprietário norte-americano Frank McCourt, a quem ajudou na aquisição do Marseille em outubro de 2016, estaria mais preocupado com os interesses do patrão do que com os do clube e seus apaixonados.

Desde então, os protestos da torcida se multiplicaram até chegar ao ponto visto no fim de janeiro, quando cerca de 400 torcedores foram até o centro de treinamento do Olympique de Marseille e atacaram a instalação com fogos de artifício. Sua insatisfação não era exatamente com o elenco ou o corpo técnico, mas, sim, com a direção, especialmente a figura do presidente.

, presidente do Olympique de Marseille (Divulgação/Ligue 1)

Diante das cenas marcantes de violência, Eyraud buscou uma resposta firme, mas pareceu errar em sua abordagem. Nesta segunda-feira (15), o OM anunciou o lançamento de uma iniciativa chamada de “Ágora OM”. Em seus primeiros pontos, parece positiva, apresentando um projeto de criar grupos e plataformas de discussão entre direção e torcida. Porém, além de afirmar que não irá mais tolerar atos violentos como os do ataque ao CT, o clube notificou aos grupos de ultras que poderia em breve dar um fim à convenção que existe entre as duas partes. Na prática, isso significaria, entre outras coisas, que os assentos hoje reservados a esses grupos seriam colocados à venda individualmente, como todo o restante do estádio.

Há quem veja a decisão do OM como oportunista. Éric Di Meco, ex-jogador do Marseille e hoje comentarista, levanta a hipótese de que Eyraud esteja tirando proveito do episódio de violência no CT para empurrar uma agenda que já estaria em seus planos, talvez para tornar o clube mais atrativo a potenciais compradores no futuro. Di Meco lembra ainda do forte burburinho à época da compra do Marseille, em 2016, de que Eyraud seria torcedor do PSG. “Quando você vê o que ele faz e ouve o que ele diz, é como se fosse uma operação de sabotagem”, afirmou.

Ao longo da semana, após a divulgação dos planos para a Ágora OM, os grupos de torcedores intensificaram seus protestos pela saída de Eyraud e anunciaram a sua resposta: manifestações contínuas e diárias. O primeiro passo foi uma campanha para que a torcida deixasse de seguir o clube nas redes sociais, o que já trouxe perdas de mais de uma dezena de milhares de seguidores por dia. Agora, miram onde mais dói: o bolso. Desde a quinta-feira (18), esses grupos iniciaram um boicote ao Uber Eats, patrocinador máster do OM, cobrando um posicionamento da empresa e chamando os torcedores a excluírem o aplicativo e utilizarem o concorrente Just Eat.

Depois de antagonizar a torcida, Eyraud conseguiu também acrescentar a classe política de à sua lista de inimigos. Políticos de diferentes partidos no espectro condenaram o plano de romper a convenção com a torcida. Prefeito de Marselha, Benoît Payan afirmou que escreveu ao presidente do OM para que ele acalme os ânimos com os torcedores, classificando de incompreensível a decisão de romper a convenção. Jérémy Bacchi, senador de Marselha, elevou o tom da crítica: “Não contente de ser o responsável pela situação caótica do clube, Eyraud quer esvaziar o estádio de seus torcedores, para ter um estádio assepsiado. Mas o que ele não sabe é que não se apaga uma paixão. O OM somos nós”.

“A primeira coisa é que a direção não deve bater de frente com seus torcedores. A Ágora, por que não, mas se os membros principais dos grupos não estiverem presentes, não vejo qual será a sua utilidade. Se o clube é o que é, é em grande parte graças a seus torcedores. O OM não é nada sem eles, você não pode enviar uma carta de notificação formal como essa. Ou envolvemos todos ou é inútil”, acrescentou Sébastien Jibrayel, responsável de esportes em Marselha.

A discussão chegou até mesmo à ministra do Esporte da França, Roxana Maracineanu. Em entrevista à France Info nesta sexta-feira, ela condenou a violência, mas reforçou a necessidade de se levar em consideração a opinião dos apaixonados.

“Irei falar com o sr. Eyraud por telefone. Acho muito importante que respeitemos os torcedores, eles estão lá desde antes dos dirigentes chegarem, eles continuarão lá por anos, e é preciso respeitá-los, associá-los, encontrar pontos em comum, discutir com eles e os envolver também, por que não, na governança do clube.”

Torcedores do OM em coletiva de imprensa nesta sexta-feira (NICOLAS TUCAT/AFP via Getty Images/OneFootball)

Nesta sexta-feira, os grupos de ultras concederam uma entrevista coletiva em que reafirmaram seu descontentamento e pediram a saída de Eyraud. Rachid Zeroual, um dos porta-vozes, afirmou: “Se o McCourt quiser manter Eyraud, convocaremos todos os marselheses a protestar. Ele quer vender o clube sem seus torcedores. Sabemos que será duro, mas não desistiremos. Queremos que ele caia fora do OM”.

“Todos os grupos de torcedores estão aqui, no coração da cidade, longe da ágora imaginária. Somos a voz de milhares de torcedores enojados com a política dos dirigentes”, completou Christian Cataldo, outro dos porta-vozes.

“Queremos um presidente que entenda de futebol e que tenha respeito pelos torcedores e os marselheses. Jamais nos metemos em seus negócios. Não o reconhecemos mais como dirigente do OM. Está na hora de você partir”, completaram os torcedores.

Ainda que tenha ficado em segundo plano, o desempenho dentro de campo certamente não ajuda a amenizar a situação tensa. A ânsia pela participação na Champions League logo se transformou em vexame, com o Olympique de Marseille perdendo cinco de seus seis jogos na fase de grupos, e o time é apenas o sétimo colocado da Ligue 1, a 12 pontos do quarto colocado, o Monaco.

O momento é de transição na comissão técnica. Desde que pediu demissão do clube, irritado com a contratação por empréstimo de Olivier Ntcham sem seu aval, o time tem sido comandado pelo técnico interino Nasser Larguet, enquanto a direção busca um substituto ao português. Sampaoli, do Atlético Mineiro, é visto como o favorito a assumir o cargo.

Diante da enorme pressão que vem sofrendo de torcida, classe política e até parte da imprensa, Jacques-Henri Eyraud pode se ver forçado a, por fim, se demitir do clube, mas mesmo este desfecho não é muito simples. Sua proximidade do proprietário, Frank McCourt, pode acabar por pesar a seu favor.