Ligue 1

Como chegamos à Ligue 1 mais acirrada em uma década

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Desde o início da era Catar no PSG, a Ligue 1 tem se caracterizado, em geral, como um campeonato de um só time, sem clube algum capaz de rivalizar com as centenas de milhões de euros colocadas pelos catarianos no time da capital. É especialmente por isso que a disputa acirrada que vemos na atual temporada do Campeonato Francês impressiona tanto. A última vez em que a distância entre o primeiro e o quarto colocados foi tão pequena a esta altura da temporada havia acontecido apenas no ano que antecedeu a chegada dos investidores multibilionários ao Parque dos Príncipes.

Exceto por uma temporada fora da curva do Monaco em 2016/17 e pelo primeiro ano dos novos donos no Paris Saint-Germain, em que o Montpellier levou a taça, o Campeonato Francês tem sempre ido parar na capital – na maior parte das vezes, com uma distância enorme entre o PSG e o quarto colocado.

Uma combinação da queda de rendimento dos parisienses nesta temporada, causada por problemas acumulados de lesão e pela transição de trabalhos, com a saída de Thomas Tuchel e a chegada de Mauricio Pochettino, e do crescimento de equipes tradicionais nos levou à situação atual: o PSG sequer líder é, posto que fica com o Lille, o Lyon aparece na cola, seguido pelos parisienses, e o Monaco fecha a relação de candidatos ao títulos.

A diferença de seis pontos entre o Lille e o Monaco é a menor vista após 26 rodadas desde a temporada 2010/11, dez anos atrás. Naquela campanha, quatro pontos separavam o então líder Lille do quarto colocado Olympique de Marseille.

Desde então, a liga se caracterizou por uma diferença gritante entre o PSG e o restante das equipes, com a distância entre primeiro e quarto colocados na 26ª rodada chegando a 30 pontos em 2015/16, 28 pontos em 2018/19 e 22 pontos na temporada passada, por exemplo.

O cenário que vemos hoje é bastante raro, mas parece estar de certa forma conectado a um panorama mais amplo de narrativas inesperadas no futebol europeu, muito provavelmente em decorrência dos efeitos da pandemia sobre o esporte. A Premier League, com exceção da liderança disparada do City, vê uma paridade muito grande em seu pelotão de cima, permitindo a equipes como Leicester, West Ham e Everton brigar pelas primeiras posições; a Itália tem a Juventus, campeã das últimas nove edições da Serie A, a oito pontos da líder Inter, com o gigante Milan renascendo e aparecendo bem na disputa pelo Scudetto; e a Espanha tem visto o Atlético de Madrid liderar com alguma tranquilidade desde o início do campeonato, embora dois resultados recentes ruins tenham permitido ao Real Madrid ainda sonhar com uma briga pelo título.

Independentemente dos motivos exatos por trás desse ano surpreendente no futebol, Lille, Lyon e Monaco parecem ávidos a explorar a fresta que se abriu, e o terço final do campeonato, com 12 rodadas restantes, deverá pegar fogo – mesmo que, até lá, alguns desses concorrentes fiquem pelo caminho, como tem sido o padrão no campeonato: da 26ª à 38ª rodada, a distância entre primeiro e quarto colocados costuma se alargar.

Tendo isso em mente, é hora de explorar a temporada dos quatro primeiros colocados da Ligue 1. Desgarrados do restante da competição, com o quinto colocado Lens a 12 pontos do quarto, o Monaco, é seguro dizer que resta apenas este quarteto na disputa.

Classements proposés par SofaScore LiveScore

Lille

1º – 58 pontos

Apesar da saída recente do diretor Luís Campos em meio à venda do clube em dezembro de 2020, o Lille tem, há alguns anos, um projeto claro de formação de equipes competitivas com jogadores jovens e cheios de potencial para revenda futura, com Nicolás Pépé, Victor Osimhen, Gabriel Magalhães e Rafael Leão como exemplos mais recentes e de maior sucesso. Neste sentido, o LOSC encontrou em Christophe Galtier o homem ideal à frente do projeto. Depois de o clube fracassar em sua tentativa com Marcelo Bielsa, que assumiu o comando na temporada 2017/18 e foi demitido após conquistar apenas 12 pontos em 13 rodadas, o francês chegou no fim de 2017 para evitar a queda à segunda divisão, escapou por pouco do descenso naquela temporada 2017/18 e, desde então, deixou clara a evolução, terminando na segunda colocação em 2018/19 e no quarto lugar em 2019/20.

A campanha que tem feito é uma evolução natural tendo em vista a capacidade demonstrada por Galtier de se adaptar rapidamente a mudanças em seu elenco. Mais uma vez, em 2020/21 o treinador achou um ótimo equilíbrio em sua equipe. Mike Maignan é um dos melhores goleiros da liga, a dupla de defesa formada por José Fonte e Sven Botman mistura experiência e juventude com maestria, e o resultado disso é que os Dogues têm a defesa menos vazada da competição.

O meio de campo é bem montado, com peças que se complementam. Renato Sanches e Benjamin André formam uma dupla sólida centralmente no 4-4-2 usual, e Xeka e Soumaré, substitutos imediatos no setor, conseguem relativamente manter o nível de atuação.

No ataque, a principal contratação da temporada, o promissor Jonathan David, demorou a decolar e, a bem da verdade, ainda não se estabeleceu. Ainda assim, vem em clara evolução, marcando cinco gols nos últimos sete jogos da Ligue 1, melhora significativa em relação aos dois gols nos primeiros 19 jogos. O canadense, no entanto, tem certa tranquilidade para se adaptar ao futebol francês visto que outros nomes têm se mostrado prontos para tomar o protagonismo lá na frente. Os meias ofensivos Jonathan Bamba e Jonathan Ikoné têm ótima chegada à frente, enquanto o veterano Burak Yilmaz tem mostrado ainda conhecer o caminho do gol, com 11 marcados em 22 jogos pelo Lille, e Yusuf Yazici parece sempre pronto a entrar e dar sua contribuição.

A consistência do time e do elenco acaba se estendendo também para os resultados. Depois de um início cheio de tropeços, com seis vitórias, cinco empates e uma derrota nas 12 primeiras rodadas, os comandados de Galtier encontraram a regularidade e, nos 14 jogos desde então, acumularam 11 vitórias, dois empates e apenas uma derrota. Do pelotão de cima, é o mais embalado, com seu momento rivalizado talvez apenas pelo Monaco.

Rodadas restantes

28/02 – Lille x Strasbourg
03/03 – Lille x Olympique de Marseille
14/03 – Monaco x Lille
21/03 – Lille x Nîmes
04/04 – PSG x Lille
11/04 – Metz x Lille
18/04 – Lille x Montpellier
25/04 – Lyon x Lille
02/05 – Lille x Nice
09/05 – Lens x Lille
16/05 – Lille x Saint-Étienne
23/05 – Angers x Lille

Lyon

2ª, 55 pontos

Exceto pela campanha inexplicável de semifinalista na Champions League, a temporada passada do Lyon teve uma percepção geral de grande decepção. O clube havia iniciado os trabalhos com Sylvinho, e Rudi Garcia assumiu o comando pouco tempo depois, também fracassando em dar uma identidade ao time. Ainda que precisemos lembrar que a Ligue 1 tenha sido encerrada prematuramente, após 28 rodadas, o fato é que o Lyon terminou em sétimo, fora de qualquer competição europeia, e a paciência com Garcia estava quase no fim.

No início desta temporada, a saída do treinador era quase certa, embora o desempenho na Liga dos Campeões tivesse lhe dado uma sobrevida. Na largada do campeonato, os resultados foram ruins, com apenas uma vitória em seis jogos, mas Garcia enfim encontrou seu esquema de jogo graças à solidez e o encaixe de um meio de campo com muitas boas peças e um ataque transformado pelo posicionamento escolhido pelo treinador.

Com Depay mais centralizado, flutuando pelo campo e ajudando tanto na construção quanto na definição das jogadas, e Tino Kadewere e Karl Toko Ekambi abertos pelas pontas, Garcia conseguiu potencializar todos individualmente e, consequentemente, a produção ofensiva da equipe. No meio de campo, podendo escolher um trio entre Bruno Guimarães, Houssem Aouar, Maxence Caqueret, Lucas Paquetá e Thiago Mendes, o técnico tem administrado uma competição saudável ao mesmo tempo em que consegue manter um bom nível de organização e defesa.

Por fim, a temporada do Lyon não pode ser exaltada sem um destaque para Lucas Paquetá. O brasileiro, que chegou do Milan no início da campanha, rapidamente caiu nas graças da torcida com excelentes atuações e um entrosamento forte com seus companheiros, ajudando na organização, mas também aparecendo com contundência lá na frente.

O início fraco do Lyon logo se tornou uma sequência de 16 jogos de invencibilidade entre setembro de 2020 e janeiro de 2021. A primeira derrota em meses aconteceu para o Metz, mas parece ter sido apenas um parêntese, com o OL vencendo cinco de seus seis jogos desde então.

Rodadas restantes

28/02 – Olympique de Marseille x Lyon
03/03 – Lyon x Rennes
12/03 – Reims x Lyon
21/03 – Lyon x PSG
04/04 – Lens x Lyon
11/04 – Lyon x Angers
18/04 – Nantes x Lyon
25/04 – Lyon x Lille
02/05 – Monaco x Lyon
09/05 – Lyon x Lorient
16/05 – Nîmes x Lyon
23/05 – Lyon x Nice

PSG

3º, 54 pontos

Para um campeonato tão desequilibrado na última década de repente estar tão acirrado, é preciso que o dono da supremacia caia, e isso aconteceu com o PSG a nível nacional. São dois os fatores principais para isso: o período de mudança de comando técnico e os incontáveis problemas de lesão e infecção de Covid-19 ao longo do ano.

Thomas Tuchel chegou à reta final de seu trabalho no PSG desgastado com direção e elenco, sem um padrão convincente e com muita insatisfação de seus comandados com o que percebiam como falta de trabalhos táticos e de instruções individuais. A situação foi piorada pela longa crise de lesões, é claro.

Como exemplo, em um momento de novembro, o clube tinha 12 jogadores do time principal lesionados: Bernat, Kimpembe, Sarabia, Icardi, Verratti, Draxler, Neymar, Mbappé, Gueye, Kehrer, Florenzi e Moise Kean.

Com a demissão de Tuchel e a chegada de Pochettino na virada de ano, o PSG está em transição, e é cedo para esperar uma transformação total da equipe. O argentino, ainda assim, tem um retrospecto bom à frente do clube na Ligue 1, com seis vitórias, um empate e duas derrotas em nove jogos. Inevitavelmente, ainda está exposto a momentos de baixa, sobretudo lidando com desfalques. Atualmente, são quatro os lesionados, incluindo os importantíssimos Ángel Di María e Neymar.

Ainda que entre para quase todas as partidas como favorito, não é simples cravar previamente qual será o desempenho do PSG em seus jogos. Com a chegada do momento de mata-mata da Champions League dividindo a atenção dos atletas para seu verdadeiro grande objetivo, isso aumenta.

No entanto, é claro que há também motivos para acreditar em uma reta final melhor e mais estável para os parisienses. O mercado do clube foi bem feito. Limitado financeiramente por causa da pandemia e forçado a ser criativo na janela de verão, trouxe jogadores em acordos por empréstimo, como Kean, Danilo Pereira e Florenzi, e pareceu acertar nesse recrutamento. Conseguindo de alguma forma manter boa parte do elenco saudável, tem peças suficientes para atacar tanto a frente nacional quanto a europeia.

Rodadas restantes

27/02 – Dijon x PSG
03/03 – Bordeaux x PSG
14/03 – PSG x Nantes
21/03 – Lyon x PSG
04/04 – PSG x Lille
11/04 – Strasbourg x PSG
18/04 – PSG x Saint-Étienne
25/04 – Metz x PSG
02/05 – PSG x Lens
09/05 – Rennes x PSG
16/05 – PSG x Reims
23/05 – Brest x PSG

Monaco

4º, 52 pontos

Depois do sucesso da temporada 2016/17, que teve o título da Ligue 1 e uma campanha semifinalista da Champions League com um elenco que contava com nomes como Bernardo Silva, Kylian Mbappé e Thomas Lemar, o Monaco vinha patinando, em busca de um treinador que passasse a impressão de ser o nome certo para manter o clube no patamar esperado, de participações constantes na Champions League. Os insucessos da segunda passagem de Leonardo Jardim e de Henry e Robert Moreno parecem ter ficado para trás, e Niko Kovac dá indícios de ser a figura necessária.

Sob o comando do croata, o Monaco, de forma completamente natural, foi inconstante no início da temporada, com três vitórias, três derrotas e dois empates nas oito primeiras rodadas. Alternou na sequência momentos bons e ruins, com quatro vitórias seguidas acompanhadas de três derrotas consecutivas. No entanto, desde então, decolou.

Em evolução, a equipe já está invicta há 11 jogos na competição, com nove vitórias no período. A mais recente delas foi a declaração final de força para colocar o time na briga pelo título: 2 a 0 sobre o Paris Saint-Germain, em pleno Parque dos Príncipes.

O Monaco conta com uma boa mistura de jovens promissores e jogadores mais experientes. Badiashile, Caio Henrique, Tchouaméni, Fofana e Diop têm despontado na temporada, enquanto medalhões como Ben Yedder, Volland e Golovin vêm correspondendo às expectativas. Volland, contratado nesta temporada, levou um tempo para decolar, passando as seis primeiras rodadas sem marcar, mas agora já se entende muito bem com Ben Yedder no ataque e tem 12 gols e oito assistências em 24 jogos. Golovin, por sua vez, perdeu 15 das primeiras 17 rodadas da Ligue 1 por lesão, mas, desde seu retorno, tem sido um dos principais destaques do grande momento vivido pelos monegascos.

O time está em clara evolução, tem obtido ótimos resultados, mas ainda dá a sensação de estar no início de um trabalho, com margem para melhora. O foco principal de Kovac no momento deve ser em aprimorar a defesa. A equipe tem pontuado graças a seu poderoso ataque, mas ainda é vulnerável lá atrás, embora tenha apresentado uma leve progressão neste sentido, com a atuação contra o PSG como bom exemplo recente. Com o momento a seu favor, e impulsionado pela sequência que o levou da oitava à quarta colocação, o Monaco é das equipes a mais se ficar de olho dentro deste quarteto.

Rodadas restantes

28/02 – Monaco x Brest
03/03 – Strasbourg x Monaco
14/03 – Monaco x Lille
21/03 – Saint-Étienne x Monaco
04/04 – Monaco x Metz
11/04 – Monaco x Dijon
18/04 – Bordeaux x Monaco
25/04 – Angers x Monaco
02/05 – Monaco x Lyon
09/05 – Reims x Monaco
16/05 – Monaco x Rennes
23/05 – Lens x Monaco

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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