Ligue 1

Cheio de jovens destaques, há 20 anos o Monaco se coroava com uma conquista inesquecível

No mesmo dia em que entra em campo para iniciar o seu sonho rumo à decisão da Liga dos Campeões, o Monaco se recorda de outro grande momento. Há exatos 20 anos, uma das gerações mais brilhantes já vistas no principado conquistava a Ligue 1 1996/97. Seria, inclusive, também semifinalista da Champions na temporada seguinte – embora a eliminação justamente para a Juventus faça com que os supersticiosos prefiram não lembrar. De qualquer maneira, grandeza daquele time já estava estabelecida. Importantíssimo para a história do clube e, sem exageros, para a do futebol francês.

VEJA TAMBÉM: História: Todos os representantes da Ligue 1 que alcançaram as semifinais da Champions

Dono de cinco títulos da Ligue 1 até então, o Monaco vivera o seu último grande período na virada dos anos 1980 para os 1990. Faturou o Francês em 1988, além de ter sido vice-campeão por duas vezes, atrás apenas do esquadrão do Olympique de Marseille. Naquela época os monegascos também se acostumaram a fazer boas campanhas nas competições continentais, incluindo aí um vice da Recopa Europeia e as semifinais da Champions em 1994. Tempos de vários grandes jogadores no Estádio Louis II, incluindo na lista respeitável nomes como George Weah, Jürgen Klinsmann, Ramón Díaz, Lilian Thuram, Youri Djorkaeff, Glenn Hoddle, Mark Hateley e Patrick Battiston. Tempos de um jovem e promissor técnico chamado Arsène Wenger.

Visto como estudioso e arrojado, Wenger permaneceu no Monaco por sete anos, até 1994. Depois, aventurou-se no Japão, antes de iniciar sua trajetória no Arsenal. E a saída do comandante marcou o fim de uma era para os monegascos. O clube demorou a encontrar um treinador que suprisse a lacuna. Apostou em nomes com história no Louis II, mas nenhum deu certo. Jean Petit e Jean-Luc Ettori somavam juntos mais de mil jogos pela Ligue 1, ídolos absolutos durante décadas. Não vingaram. Já em 1995, a diretoria trouxe de volta à casamata Gérard Banide, responsável pela conquista de 1982 e que estava trabalhando nas categorias de base. Ficou pouco tempo. Sua missão seria mesmo a de preparar os jovens. Apenas abriu alas para que o novo dono da prancheta chegasse: Jean Tigana.

monaco 1997

Aos 40 anos, o antigo craque da seleção francesa dispensava apresentações. Sempre foi um meio-campista referendado pela inteligência, campeão da Euro 1984 e semifinalista da Copa de 1986, além de peça-chave em timaços do Bordeaux e do Olympique de Marseille. Aposentado no Vélodrome, iniciou sua carreira de técnico no Lyon, onde também tivera passagem marcante como jogador. Levou o clube ao vice-campeonato da Copa da França. Não recusaria o desafio de liderar o Monaco de volta ao topo da Ligue 1, dentro de um novo momento.

VEJA TAMBÉM: Poucos perceberam na hora, mas o maior Juve x Monaco da história foi prévia da Copa de 1998

Antes, em 1994, o Monaco perdera algumas das principais estrelas de seu elenco. George Weah e Jürgen Klinsmann saíram, sem reposição com a mesma tarimba. Os alvirrubros passaram a confiar mais no bom trabalho de Banide com a base, rendendo bons valores desde o início da década. Além disso, o clube não se fez de rogado para aproveitar os espólios do Olympique de Marseille, após seu rebaixamento à Ligue 2 pelo caso de suborno contra o Valenciennes. Vieram Sonny Anderson, Fabien Barthez e Éric Di Meco, além de Basile Boli, este após uma rápida passagem belo Rangers.

O Monaco montava sua base. E os resultados começavam a aparecer. Após um nono lugar na última temporada de Wenger e um sexto na seguinte, Tigana conseguiu liderar os alvirrubros a uma honrosa terceira posição em 1996, terminando atrás apenas do campeão Auxerre e do forte Paris Saint-Germain. De qualquer maneira, a equipe assegurava uma vaga na Copa da Uefa e demonstrava que aquela geração tinha muito a render. Não dá para negar que a venda de Lilian Thuram ao Parma faria falta. Ainda assim, o time trouxe alguns bons reforços pontuais e, principalmente, vivia a afirmação de alguns talentos “da casa”, crias da base ou pinçados bem jovens.

monaco 9

A fórmula perfeita levou o Monaco à conquista irrefutável. Ao mesmo tempo, Tigana combinou uma defesa segura e um ataque irresistível. Terminaram a campanha com os melhores números do campeonato em ambos os setores. Além disso, a disparada entre meados de outubro até abril foi emblemática. De um início errante, a equipe emendou 15 vitórias em 20 rodadas. Assumiu a ponta da tabela no início do segundo turno para não sair mais. Encerrou a competição 12 pontos à frente do Paris Saint-Germain.

VEJA TAMBÉM: Todos os astros que transformaram o melhor Olympique de Marseille em uma seleção

O esteio da equipe começava com Fabien Barthez. Após estourar no Olympique de Marseille, o goleiro chegava ao ápice da forma aos 25 anos. Fase tão boa que o tornou absoluto na seleção francesa às vésperas da conquista da Copa do Mundo de 1998. De longos serviços prestados ao clube, o zagueiro Franck Dumas se colocava como ponto de referência em uma zaga jovem e cheia de novos contratados, entre eles Martin Djetou e Philippe Léonard. O polivalente Gilles Grimandi era outro que contribuía para a engrenagem. No meio, a rotação era riquíssima. Emmanuel Petit também atingia o seu melhor momento no clube onde surgira aos 18 anos, sobrando na qualidade técnica. O belga Enzo Scifo e o escocês John Collins, tarimbados em suas seleções, acrescentavam experiência ao setor, embora não fossem titulares absolutos. Além deles, haviam nomes que não decolaram depois, mas se destacaram naquele momento, a exemplo de Sylvain Legwinski e Ali Benarbia.

Já o ataque guarda as melhores lembranças daquele Monaco. O grande goleador era Sonny Anderson. Em meia temporada pelo Olympique de Marseille, em 1994, o brasileiro já tinha mostrado o seu valor aos franceses. Foi a grande adição do Monaco após o rebaixamento dos celestes, logo assumindo o papel de artilheiro da equipe. E, de fato, terminou como goleador da Ligue 1 em 1996, antes de contribuir na campanha do título com 19 tentos. Ao seu lado, o principal parceiro era Victor Ikpeba, aos 23 anos. Comprado ainda cedo do futebol belga, o nigeriano virou uma aposta que se concretizou naquela temporada. Foram 20 gols marcados, 13 no Francês. Por fim, o novo xodó dos monegascos era ninguém menos que Thierry Henry. Embora não fosse titular absoluto, o garoto de 18 anos se firmou no time de cima naquela temporada. Permitia variações à linha de frente e saía bem do banco de reservas. Não demoraria a se tornar ídolo. Somou nove gols no campeonato.

sonny

Entre as vitórias inesquecíveis daquele Monaco, destaque para os 4 a 1 sobre o rival Nice no primeiro turno, com dois tentos de Sonny Anderson e outros dois de Ikpeba. As Águias, inclusive, seriam rebaixadas naquela temporada. Já o resultado definitivo aconteceu em 26 de janeiro, no retorno da competição após a pausa de inverno. Os alvirrubros haviam tomado a liderança duas rodadas antes, após o PSG se manter soberano no topo da tabela durante quase toda a primeira metade da liga. No confronto direto, um tropeço deixaria os parisienses apenas um ponto atrás. No entanto, o time de Tigana domou seus desafiantes no Louis II e venceu por 2 a 0, abrindo sete pontos de folga na primeira colocação. Legwinski e Anderson anotaram os gols diante do forte adversário, com Raí, Leonardo, Lama, Loko e N’Gotty.

Em 3 de maio, sem sequer entrar em campo, o Monaco confirmou o título graças ao tropeço do PSG contra o Bordeaux, no Parc des Princes. Assim, pôde entrar triunfante no dia seguinte, para festejar com a sua torcida no Louis II, apesar do 2 a 2 com o Caen. Já não importava mais. Depois de nove anos, os alvirrubros voltavam a conquistar a Ligue 1, erguendo a taça da competição pela sexta vez. Simbolicamente, ainda se coroaram justamente em meio às comemorações pelos 700 anos do reinado da Casa de Grimaldi no principado.

Aquele Monaco faria uma campanha digna na Copa da Uefa de 1996/97, atingindo as semifinais. Deixou rivais fortes pelo caminho, em especial o Newcastle de David Ginola e Faustino Asprilla, derrotado em ambos os encontros nas quartas de final. Na etapa seguinte, contudo, os monegascos não foram competitivos o suficiente diante da Internazionale de Zamorano, Ince, Djorkaeff, Zanetti, Bergomi, Pagliuca e outros grandes nomes. Os nerazzurri seriam vice-campeões, perdendo a decisão nos pênaltis para o Schalke 04.

henry barthez

O sucesso do Monaco com a conquista da Ligue 1, entretanto, levou a um pequeno desmanche do elenco. Sonny Anderson partiu para substituir Ronaldo no Barcelona, Petit e Grimandi assinaram com o Arsenal de Wenger, Scifo voltou ao Anderlecht para viver os últimos momentos de sua carreira. Ainda assim, nem todas as perdas foram ruins. David Trezeguet, reserva pouco utilizado na campanha do título, foi o maior beneficiado. O centroavante de 19 supriu totalmente a lacuna no comando do ataque, anotando 23 gols na temporada. Costinha, Willy Sagnol e Philippe Christanval também despontaram. Já Ludovic Giuly, contratado junto ao Lyon no meio da temporada aos 20 anos, começava a se estabelecer como a referência para a próxima era dourada no Louis II.

Sem conseguir defender o título, o Monaco terminou a Ligue 1 1997/98 em terceiro, 11 pontos atrás do campeão Lens. As maiores alegrias se concentrariam na Champions, eliminando o Manchester United e caindo para a Juventus nas semifinais. Em 2000, os monegascos recuperariam a supremacia nacional, em time estrelado pelo quarteto ofensivo formado por Trezeguet, Giuly, Marco Simone e Marcelo Gallardo. A última conquista nacional do clube desde então. O jejum que perdura há 17 anos, todavia, tem tudo para cair em mais algumas semanas.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo