França

Leão amansado

A França vive novos tempos com a chegada de François Hollande à presidência. No entanto, a vitória do socialista sobre Nicolas Sarkozy deixou o mundo do futebol em pânico com sua proposta de aplicar um imposto de 75% sobre a parcela mais rica da população. Ou seja, os bolsos dos principais jogadores da Ligue 1 seria abalado de forma brutal. A promessa causou polêmica no esporte e Hollande já recuou e anunciou que aliviará a mordida do Leão.

Se a medida fosse levada realmente a cabo, o futebol francês correria um grande risco de ver um êxodo de seus principais nomes. Qual estrela gostaria de ver seu salário reduzido de forma tão abrupta? Obviamente, qualquer esforço para tornar a Ligue 1 mais atrativa iria para o ralo, já que nenhum atleta de renome iria se sujeitar a uma taxação como esta.

Para um clube como o Paris Saint-Germain, que gastou uma fortuna para reforçar seu elenco e inchou sua folha salarial, a ideia de Hollande cairia como uma bomba. De uma hora para outra, ficaria praticamente impossível segurar suas estrelas diante de propostas de outros clubes para ganhar mais. O prejuízo milionário faria muita gente arrancar os cabelos.

Outras consequências relegariam o futebol francês ao segundo escalão europeu. Sem jogadores de renome, ficaria ainda mais complicado vender o campeonato como um bom produto. Seria natural a renegociação dos valores dos direitos de transmissão com valores puxados para baixo. Ou seja, os clubes receberiam uma fatia ainda menor de uma importante fonte de receitas. Isso sem contar na provável queda de arrecadação com a venda de ingressos. Houve até quem propagasse que o plano do presidente, caso fosse mesmo adotado, significaria a morte do futebol francês.

A grande repercussão negativa da proposta fez Hollande rever seus conceitos. O novo presidente decidiu mudar um pouco as regras e excluiu desta mordida todos aqueles profissionais cujas atividades estejam ligadas à inteligência, talento ou esforço – preservando, assim, intelectuais, artistas e atletas. Mesmo assim, a França continua como um dos países que mais castigam seus jogadores com impostos altos. Hoje, a taxa paga pelos jogadores profissionais chega a 41% dos ganhos e pode ficar um pouco maior.

Hollande, fã declarada de futebol, nem começou a governar e já cria polêmica. A necessidade de se tomar medidas de austeridade para aliviar a crise econômica que paira sobre a Europa se torna uma questão de sobrevivência. Cobrar altas taxas de impostos dos mais ricos parece uma medida interessante à primeira vista, mas por outro lado inibe qualquer tipo de investimento no país. A ideia é simples: para que vou gastar uma grana violenta se serei obrigado a arcar com custos elevadíssimos em impostos e ter um retorno muito baixo?

Exatamente por isso, já existe um temor com a preparação francesa para organizar a Eurocopa em 2016. No total, haverá obras em nove estádios, com a construção de quatro arenas e a reforma de outras cinco. Como a maior parte da verba para estas obras virá dos cofres públicos, Hollande terá um grande desafio pela frente para não comprometer o andamento dos trabalhos e apertar o orçamento. Como o novo presidente ainda não tratou do assunto, desde já a apreensão toma conta dos organizadores do torneio.

Gourcuff não

A proximidade da Eurocopa produziu um efeito renovador em Yoann Gourcuff. O meia, de temporada tão apagada, ressurgiu quando menos se esperava alguma coisa neste Lyon que se arrasta à espera das férias. Para o meia, porém, a esperança de ser chamado por Laurent Blanc para a disputa do torneio continental se tornou seu prato de comida. Embora sejam pequenas as chances de convencer o treinador, ele faz questão de mostrar que está vivo.

Blanc deixou claro: há uma diminuta possibilidade de Gourcuff fazer parte do grupo dos Bleus na Euro. O que poderia soar como um aviso para o meia se conformar virou a oportunidade da vida do jogador. Após uma boa exibição na final da Copa da França contra o Quevilly, ele novamente teve papel decisivo no empate por 1 a 1 contra o Brest. Talvez seja um despertar muito tardio, mas chama a atenção esse momento bem peculiar do atleta.

Contratado pelos lioneses em 2010, Gourcuff pouco justificou os € 22 milhões investidos para tirá-lo do Bordeaux – onde era a estrela do elenco comandado por… Blanc. Em sua primeira temporada na nova casa, foram 33 jogos disputados e apenas quatro gols marcados (somando todas as competições disputadas). Em 2011/12, os números do meia são ainda menos animadores: 21 partidas e dois gols, sem contar as lesões em sequência.

O gol contra o Brest encerrou um jejum que durava desde outubro (!), quando havia marcado pela última vez (no dérbi contra o Saint-Étienne). A ressureição de Gourcuff tem a ver com a volta da confiança dele consigo próprio. Melhor fisicamente, ele retomou a condição de titular diante do Quevilly. Seus companheiros também tiveram papel fundamental para que ele conseguisse jogar bem de novo, e não apenas de forma pontual.

Contra o Brest, Gourcuff deu mais um passo em seu projeto de fim de temporada: acumular minutos de jogo e mostrar que pode ser (muito) útil ao time que contar com ele. Gols, assistências e elogios de colegas, técnico e dirigentes massageiam o ego do camisa oito, mas ele deve saber que não basta isso para garantir um lugar entre os eleitos de Blanc. De nada adianta atropelar nesta reta final se ainda houver uma pontinha desconfiança com relação a sua capacidade dentro de campo.

Por mais que Gourcuff esteja de volta e tenha se reencontrado após longo período nas sombras, ele deve ter a consciência de que sua missão está longe de se considerar cumprida. Blanc conta com diversas opções para o setor. Ribéry, Valbuena, Nasri, Ménez e Martin já foram testados à exaustão e, embora tenham tido seus altos e baixos, estão à frente do lionês mesmo sem se mostrarem opções ofensivas incontestáveis.

Falta muito pouco tempo para Gourcuff conseguir cavar seu espaço no avião que levará os Bleus para a Euro. Para ser mais exato, são apenas dois jogos até o dia 15 para o meia arrebentar (contra Évian e Ajaccio) em campo. Se apenas quatro partidas foram suficientes para Blanc mudar seus conceitos, então o treinador dos Bleus assinará seu atestado de incoerência e jamais poderá alegar que priorizou a lógica em suas convocações.

Gourcuff só poderia sonhar em participar da Euro se estivesse jogando desde o início deste semestre neste nível. Não dá para fazer uma aposta tão arriscada com base em uma amostragem tão pequena de partidas. Os Bleus não têm esse espaço para testes, ainda mais com um jogador que deu poucos resultados quando foi exigido nas oportunidades nas quais vestiu a camisa azul. Levar Gourcuff seria um dos maiores erros que Blanc poderia cometer.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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