França

Império em queda

Pelo segundo ano consecutivo, o Lyon caiu nas oitavas-de-final da Liga dos Campeões. Na edição passada, o Manchester United também havia encontrado outro clube francês nesta etapa da competição (Lille) e livrou-se dele quase da mesma forma. Entre o LOSC de 2007 e OL atual deveria haver uma diferença considerável de qualidade, mas em termos práticos as duas equipes se assemelharam diante dos Red Devils. De nada adianta aplicação tática se não houver um pingo de superação.

Para o Lyon, a campanha desta temporada na LC deixa amargas recordações. Pela primeira vez em cinco anos, nunca o time deixou tão claro que sua sobrevivência no torneio seria limitada. Mesmo em 2007, quando caiu para a Roma nas oitavas-de-final, havia o consolo do ótimo desempenho demonstrado na fase de grupos. Desta vez, nem isso serve como apoio. Embora a chave do Lyon fosse complicada (Barcelona, Sttutgart e Rangers), a classificação veio na bacia das almas, após algumas exibições medíocres.

Desta forma, houve uma ruptura em relação aos anos anteriores. De equipe promissora, considerada como possível candidata até ao título, em 2008 o Lyon se transformou em apenas mais um clube periférico. Sem despertar medo em seus adversários, mesmo os de países de nível um pouco abaixo dos quatro maiores campeonatos nacionais do continente, o OL se tornou inofensivo. Antes, o time ainda equilibrava um pouco as ações com um estilo de jogo agressivo, com jogadores promissores e que permitiam uma formação tática sólida, embora sem os recursos astronômicos de rivais dos grandes centros. Agora, essa distância cresceu e coincide com a dificuldade em manter sua hegemonia dentro da França.

Apesar da explosão dos talentos de Benzema e Ben Arfa, não há muito o que se festejar. Com relação a temporadas passadas, a política de contratações em 2007/08 teve um índice de erros assustador. Grosso, Keita e Bodmer, com um alto custo de aquisição, decepcionaram por completo e deixaram a equipe órfã. Na defesa, as lesões de Cris e Coupet desequilibraram o setor, com Vercoutre e Anderson oscilantes demais. Em janeiro, na reabertura do mercado, a urgência em encontrar soluções forçou decisões precipitadas e, por conseqüência, novos fracassos.

Em Old Trafford, os lioneses pagaram pela desatenção no final do jogo de ida. Limitados a chutes de fora da área e a algumas jogadas individuais, o poder ofensivo da equipe foi praticamente nulo. Por outro lado, a parte defensiva foi muito bem, sem deixar tantos espaços livres para o talento dos Red Devils brilhar. Seria a postura ideal para este jogo, mas o OL deveria ter cumprido com sua obrigação em Gerland. Em sua casa, o Lyon comprovou sua mudança de pensamento. De clube ameaçador, dominador de seu adversário, passou a desconfiar de suas próprias capacidades e restringiu seu poder de alcance. De desafiador a conformado, foi apenas um passo.

A eliminação da LC deve ser digerida o mais rápido possível. Deve-se recuperar o ânimo do elenco em pouco tempo, pois apenas alguns poucos dias separam o 1 a 0 de Old Trafford para o confronto contra o Bordeaux, vice-líder da Ligue 1. Um novo revés seria um desastre nesta altura, pois o Lyon permitiria a aproximação dos Marine et Blanc. Seu território, livre de ameaças há um bom tempo, passaria a conviver com um intruso de cabeça mais fresca e em ótima fase. Se não se cuidar, o time comandado por Alain Pérrin terá um final de temporada dos mais terríveis.

Duelo de líderes

Os efeitos do baque sofrido na Inglaterra podem muito bem durar por muito tempo em Gerland. Por ironia, o Lyon precisa se livrar logo dos arrependimentos dos duelos contra o Manchester United para se concentrar agora no Bordeaux. Caso se deixe dominar pela apatia, o OL deixará a irregularidade tomar conta de vez da equipe em um momento crucial. Mais do que nunca, o titulo da Ligue 1 precisa ser encarado como a salvação da temporada, daí a necessidade de impedir um novo vacilo diante dos girondinos.

O Bordeaux chega para o duelo nas nuvens. Além de ver o adversário destroçado tanto física como moralmente, a equipe de Laurent Blanc traz viva na memória a grande atuação diante do Paris Saint-Germain no Chaban-Delmas. Contra uma equipe com desempenho bom como visitante, os Marine et Blanc souberam se impor, controlaram a partida à sua maneira e saíram de campo com um triunfo por 3 a 0. O resultado ganha ainda mais valor com as dificuldades impostas pelo PSG.

Montado em um 4-4-2 clássico, o time da capital se inspirou na boa atuação diante do Auxerre na Copa da Liga para arrancar pontos do inimigo. Embora sólidos no primeiro tempo, os parisienses viram sua resistência ruir com a ação insistente do meio-campo do Bordeaux. Não demorou muito para a dupla formada por Bourillon e Clément abrir o bico. Como Rothen também sentiu a parte física e deixou o campo logo, o PSG perdeu seu principal articulador e facilitou as coisas para os donos da casa.

Por sua vez, os girondinos tomaram conta das ações graças ao 4-4-2 de Blanc, com o meio-campo em losango. Embora Wendel tenha sido a grande estrela com seus três gols, chama demais a atenção a forma como o treinador ressaltou o caráter coletivo de sua equipe. A organização tática, o comportamento equilibrado do time durante situações bastante diversas do decorrer do jogo e a sobriedade fazem crer que os girondinos vivem seu auge na temporada.

Sem a Copa Uefa para provocar um cansaço excessivo em seus atletas, Blanc aposta no momento de evolução do Bordeaux para dar a virada em cima do Lyon. Na Ligue 1, o OL conquistou uma de suas típicas vitórias ao derrotar o Lille por 1 a 0 no Stade de France: abriu o placar e tratou de administrar sua vantagem logo, sem muita questão de jogar bonito. Pelo menos até aí não havia a figura do Manchester United para lhe amedrontar, como agora se perfila antes do decisivo duelo.

De nada adianta o retorno de Cris, naturalmente ligado ao aumento de confiança por parte da zaga se o Lyon se acovardar diante de um adversário em melhor fase. O talento de Benzema se diluirá caso Fernando Menegazzo e Alonso fizerem uma marcação eficiente sobre um inconstante meio-campo lionês. Por conta de todos esses ingredientes, o OL precisa se preparar para não ter uma indigestão contra os girondinos. Uma segunda derrota de tamanha importância em um intervalo tão curto deixará o caminho para o hepta repleto de obstáculos cada vez mais intransponíveis.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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