França

HISTÓRIA | França, Copa do Mundo de 1982: o início de tudo

Por Renato Muller

A Copa de 82 é marcante para o futebol brasileiro. A derrota da seleção para a Itália, mesmo com um futebol de alto nível, levou a um pragmatismo e a uma visão que gerou uma década de times cada vez mais defensivos.

Para os franceses, 82 também foi marcante. No forte verão espanhol, surgia uma geração de jogadores que colocou o país na elite do futebol mundial. Liderada por um meio-campista genial que seria considerado o melhor do mundo pouco tempo depois, e com um time que jogava com muita classe, a equipe da França superou décadas de atuações fracas e passou a ser respeitada no cenário global.

Até o início do jogo contra a Inglaterra, no dia 16 de junho, o retrospecto da França em Copas não era digno de Jules Rimet: apenas um terceiro lugar em 1958 e muitas eliminações ainda na primeira fase. Durante as eliminatórias, uma classificação em segundo lugar, superando a Irlanda apenas no saldo de gols e ficando atrás da Bélgica, vice-campeã europeia, não animava os torcedores. Com a bola rolando nos gramados espanhóis, um desempenho inconstante: derrota na estreia por 3 a 1; goleada sobre o Kuwait (4 a 1) e empate com a Tchecoslováquia (1 a 1), o suficiente para garantir a segunda colocação no grupo.

O jogo contra o Kuwait foi um dos vários momentos marcantes da Copa de 82: ao sofrer o quarto gol, em lance de impedimento de Girèsse, o príncipe kuwaitiano Fahad Al-Ahmed Al-Jaber Al-Sabah ficou revoltado, invadiu o gramado, paralisou o jogo e fez com que o gol fosse anulado. Barraco total que não impediu seu time de ser derrotado.

Apenas na segunda fase desabrochou o futebol dos chamados Três Mosqueteiros franceses (que, como no livro, eram quatro: Genghini, Girèsse, Tigana e Platini). Um meio de campo leve, habilidoso, de toque de bola e grande visão de jogo, comandado pelo maior jogador que a França já havia visto até então. Platini era quem dava ritmo ao ataque e, com uma visão de jogo privilegiada, surpreendia os adversários com longos lançamentos e uma técnica refinada. Enfrentando Áustria e Irlanda do Norte, os franceses venceram por 1 a 0 (gol de Genghini) e 4 a 1 (dois de Girèsse e dois do atacante Rocheteau), utilizando um sistema de jogo bastante fluido que não contava com um centroavante típico (tanto Six quanto Rocheteau eram originalmente pontas, abrindo espaço para que os meias chutassem a gol).

O próximo adversário era a bicampeã Alemanha Ocidental, que foi a campo no dia 8 de julho sem seu maior astro. Karl-Heinz Rumennigge, melhor jogador europeu no ano anterior, ficou no banco, sem condições ideais de jogo. Mesmo assim, os alemães dominaram as ações no início da partida em Sevilha, em um jogo que se tornaria épico. A Alemanha abriu o placar aos 17 minutos: Breitner (único remanescente do time campeão em 74) recebeu a bola de Dremmler no meio de campo entre três franceses, disparou em direção à área e lançou Fischer, que dividiu com o goleiro Ettori. Na sobra, Littbarski encheu o pé para abrir o marcador.

A França não demorou muito para reagir. Nove minutos depois, Platini converteu pênalti claríssimo sofrido por Rocheteau. Conforme o tempo passava e o empate permanecia, com poucas chances de gol claras, o jogo ia se tornando mais duro. Amoros e Littbarski se estranharam, depois Tigana foi derrubado por Dremmler em um lance que mereceria, no mínimo, cartão amarelo. Mais adiante, em uma tentativa francesa, o goleiro alemão Schumacher deliberadamente deixou o corpo em uma dividida com Platini.

A situação ainda ficaria pior: no início do segundo tempo, Forster acertou as costas de Rocheteau com o joelho em um lance longe da área. Genghini, contundido, foi substituído por Battiston. A Alemanha Ocidental pressionava com seu jogo de força e os franceses, no toque de bola, procuravam vencer a defesa adversária. Aos poucos, a França passou a dominar as ações: Rocheteau, Battiston e Platini perderam chances de desempatar.

Com o segundo tempo já avançado, Bossis roubou a bola de Dremmler e passou-a para Tigana, que encontrou Platini na meia direita. O maestro francês lançou Battiston nas costas da defesa, entre o goleiro Schumacher e o líbero Stielike. O francês chegou primeiro e tocou no canto direito, para fora. Schumacher, que tinha saído do gol para tentar interceptar a jogada, pulou e acertou Battiston com o ombro. Nocaute. Battiston desmaiou em campo e Platini chegou a achar que o companheiro havia morrido. No fim, quebrou três costelas e dois dentes, além de ficar desacordado por quase 30 minutos.

Com o tempo regulamentar chegando ao fim, os dois times desperdiçaram várias chances, em um jogo aberto em que os franceses controlavam o ritmo e os alemães investiam em ataques velozes. Aos 45 do segundo tempo, Amoros chutou de fora da área no travessão. A decisão iria para a prorrogação.

Se a partida já havia sido tensa, o tempo extra entraria para a história: logo aos 2 minutos, falta na lateral direita da área para a França. Girèsse cruzou, a bola bateu na barreira e sobrou para Trésor, livre na marca do pênalti. Um voleio indefensável: 2 a 1. O técnico alemão Jupp Derwall colocou em campo Rummenigge, mas em um lance bem trabalhado do ataque francês, a bola sobrou livre para Girésse, que, de fora da área, ampliou a vantagem dos Bleus: 3 a 1. A partida parecia decidida, mas os franceses continuavam atacando em bloco. Em um descuido da defesa, um cruzamento de Littbarski encontrou Rummenigge na área. Com um toque sutil, o alemão venceu Ettori para diminuir a desvantagem.

Nem assim os franceses deixaram de lado a ofensividade. E os alemães souberam aproveitar os espaços deixados para igualar a partida: Littbarski cruzou novamente da esquerda, Hrubesch cabeceou para o meio da área e Fischer, de costas, chutou de meia bicicleta para o gol. Um incrível 3 a 3.

Como se não bastasse um jogo com quatro gols na prorrogação, ele ainda seria o primeiro na história das Copas a ser decidido na cobrança de pênaltis. Girèsse, Kaltz, Amoros, Breitner e Rocheteau converteram, enquanto Ettori defendeu a cobrança de Stielike. Mais uma vez a França estava a um passo de sua primeira final de Copa.

Por pouco tempo: Schumacher defendeu a cobrança de Six e Littbarski empatou em 3 a 3. Os craques Platini e Rummenigge converteram. Bossis cobrou, para nova defesa de Schumacher, e Hrubesch colocou a Alemanha Ocidental na final, mais uma vez.

Na decisão do terceiro lugar, desgastada pela semifinal, a França caiu diante da Polônia (3 a 2), mas não importava: o time de Platini já havia mostrado que era a nova força emergente do futebol mundial. Dois anos depois, em 1984, os Bleus alcançaram o título europeu, em mais uma exibição de gala do trio Tigana / Girèsse / Platini. Na Copa de 1986, um terceiro lugar (novamente caindo nas semifinais diante da Alemanha Ocidental) mostrava o brilho daquela geração. A França só seria campeã mundial em 1998, mas as bases para o título foram criadas naquela noite quente de 1982 em Sevilha.

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