Festival do vinho

Dez anos depois, Bordeaux e Olympique de Marselha chegam à ultima rodada da Ligue 1 em situações parecidas. Como naquela época, girondinos e marselheses deixaram para definir qual deles seria campeão em seus derradeiros jogos no campeonato. Em 1998/99, os Marine et Blanc levaram a melhor; agora, têm tudo para repetir o feito. Com três pontos de vantagem sobre o OM, os comandados de Laurent Blanc precisam apenas de um empate fora de casa diante do Caen, ameaçado de cair, para colocar as mãos na taça. Tarefa simples? Nem tanto, até mesmo pelo futebol apresentado pela equipe no triunfo sobre o Monaco por 1 a 0 no Chaban-Delmas.
Contra um clube que conta as horas para sair de férias, o Bordeaux demonstrou um nervosismo em excesso. Um comportamento justificável, até pela possibilidade de o time se sagrar campeão de acordo com o resultado do confronto do Olympique contra o Nancy. Mais de 33 mil pessoas compareceram ao estádio para empurrar os girondinos rumo ao título, mas nem esse ambiente foi capaz de fazer os jogadores se exibirem em suas melhores condições.
O Monaco tomou as rédeas da partida, e soube explorar a dificuldade de criação dos donos da casa com contra-ataques sempre perigosos. Para sorte do Bordeaux, Park estava com a pontaria ruim – castigo pago com a falta cobrada por Gourcuff e desviada por Chamakh, em saída lenta de Ruffier. Como em seus últimos jogos, os girondinos levaram a melhor sobre seu adversário nem tanto por seu domínio territorial, mas sim por sua eficiência. A décima vitória consecutiva ilustra muito bem como os Marine et Blanc andam iluminados. Exatamente esse brilho deve fazer a diferença diante do Caen.
Enquanto isso, o Olympique de Marselha cumpriu com sua obrigação ao bater o Nancy fora de casa por 2 a 1 – seu sétimo triunfo seguido como visitante. A derrota para o Lyon na rodada anterior colocou pressão extra sobre os ombros dos marselheses, que sentiram a necessidade de reagir para não entregar a taça de mão beijada ao Bordeaux. Embora o espírito da equipe tenha sido diferente do exibido na semana anterior, a parte final do duelo deixou a torcida preocupada. O ASNL não só fez seu gol como esteve próximo de empatar.
Foram 85 minutos de domínio do OM, mas os cinco de cochilo quase complicaram a vida da equipe. O Nancy mostrou-se bastante tímido ofensivamente, ainda mais pela ausência de Hadji. Mandanda passou quase o jogo inteiro sem ser incomodado, mas se viu em apuros depois do gol de N’Guemo em falha de marcação da defesa. Momentos de desatenção como esses, ocorridos no Vélodrome diante do Lyon, complicaram a situação do time na luta pelo título. Contra o Rennes, em casa, o Olympique não pode vacilar de novo de jeito algum, mas seria pedir demais.
Apesar das atuações abaixo do esperado nas últimas rodadas, o Bordeaux chega mais inteiro para a decisão. A longa série invicta, a boa fase de Gourcuff e Chamakh e, mais importante, a vantagem sobre o Olympique deixam o clube em situação bem mais confortável. Não se deve esquecer que o OM joga obrigado a vencer e, além disso, precisa rezar muito por uma derrota dos Marine et Blanc para dar a volta olímpica. Tudo isso em um Vélodrome lotado, em clima de completa apreensão – ou seja, um cenário propício para mais um fracasso dos anfitriões, dada a “tremedeira” do time quando atua em casa em momentos decisivos.
O Bordeaux só não pode esperar por facilidades diante do Caen. O SMC vem de derrota para o Lyon (3 a 1) e está empatado com o Saint-Etienne, que cairia se a Ligue 1 já tivesse se encerrado. Apesar das dificuldades à vista, o outro pretendente ao título está com a vida bem mais difícil. Além do Olympique sofrer com a “síndrome do Vélodrome”, o Rennes também entra em campo com algo em vista, embora suas chances de se classificar para a Liga Europa sejam pequenas. Ou seja: os girondinos podem reservar o champanhe e colocá-lo no gelo. Ou melhor, separar aquela garrafa especial de um bom vinho, guardada para ser servida apenas em ocasiões especiais.
Na rabeira
O Le Havre aguarda há algum tempo para saber quem o acompanhará em seu retorno à Ligue 2. Garantido na lanterna, o HAC terá um companheiro conhecido em sua viagem de volta à segunda divisão. Em um confronto direto para escapar da guilhotina, o Sochaux levou a melhor sobre o Nantes e venceu por 2 a 1. Os Canários precisam de um milagre para continuar na elite, um ano depois de sua promoção. Resta saber qual será o terceiro rebaixado. Caen e Saint-Etienne chegam à última rodada empatados e um deles não deve escapar.
Embora e Sochaux e Le Mans tenham chances de descer, os dois pontos de vantagem de ambos sobre Caen e Saint-Etienne os deixam tranquilos de uma certa forma. Para o Nantes, a queda anunciada só seria evitada se acontecesse o seguinte: o time goleasse o Auxerre, SMC e ASSE fossem derrotados de forma impiedosa e, além disso, os Canários conseguissem tirar uma diferença de 16 gols de saldo. A matemática ainda não permite dizer, mas o FCNA volta à segundona com méritos.
Pela enésima vez, o Nantes se cansou de cometer os mesmos erros defensivos exibidos desde o começo da temporada. Com um sistema defensivo frágil (o terceiro mais vazado da Ligue 1), não dava mesmo para os Canários desejarem algo além de figurar em posição mais nobre na tabela. Com um ataque pouco inspirador, com a presença de um Klasnic aquém de suas possibilidades e um meio-campo de quase nenhuma inspiração, o FCNA mais uma vez amarga uma queda. Talvez este segundo rebaixamento reforce alguma lição que deveria ser aprendida com a primeira queda.
E uma constatação: dois dos três clubes que subiram nesta temporada para a primeira divisão retornam à Ligue 2. O único a escapar, ironicamente, foi o Grenoble, o mais cotado para cair antes do início do torneio. O GF 38 ficou longe de brilhar no campeonato, mas ao menos demonstrou um mínimo de equilíbrio durante um ano de provações. Para quem estava com dúvidas quanto à participação na Ligue 1, além da preocupação em investir recursos com o novo Stade des Alpes e outros itens de infraestrutura, a manutenção na elite foi uma grande vitória.
Por sua vez, o Caen aparece como candidato potencial para ser o terceiro rebaixado. Na última rodada, a equipe atua em casa, mas não poderia ter pela frente um adversário pior: o Bordeaux, que precisa ao menos do empate para confirmar o título. Ou seja, não se trata de um adversário que tenha sua situação garantida e que poderia entrar em campo relaxado. Embora tenha um saldo de gols melhor do que o Saint-Etienne (-6 a –20), o SMC tem um quadro muito mais complicado do que o do seu rival.
O Saint-Etienne paga o preço por ter se dedicado à Copa Uefa e deixado a Ligue 1 de lado. Conforme avançava no torneio continental, a situação no Francês piorava a cada rodada, com costumeiras figurações na lanterna. A eliminação fez o time voltar tarde demais suas atenções para o Francês. Contra um Auxerre sem pretensões, os Verdes até fizeram uma boa partida na casa do inimigo, mas perderam por 1 a 0 graças a um “branco” de sua defesa.
Apesar do perigo de voltar à Ligue 2, o Saint-Etienne está em vantagem na sua briga contra o Caen. No caldeirão de Geoffroy-Guichard, o ASSE recebe o Valenciennes, que já escapou do perigo de cair e nada mais tem a disputar. Com uma torcida inflamada, um adversário pouco disposto a incomodar e, sobretudo, o fato de o SMC enfrentar um Bordeaux que precisa de um bom resultado para ser campeão, o caminho dos Verdes parece menos doloroso.



