França

Enfim a primeira!

O primeiro turno da Ligue 1 terminou e o Paris Saint-Germain padecia de uma ‘sídrome do Parc des Princes’. Dono da melhor campanha como visitante, o PSG recebia seus adversários em casa com todas as cerimônias possíveis e nem parecia se incomodar quando algum dos convidados abria a geladeira para pegar uma cerveja e se refestelar no sofá. A total abulia em seu estádio provocou a ira dos torcedores, cuja paciência já havia estourado há tempos. Além de toda essa pressão, com protestos cada vez mais próximos das vias de fato, as chamas do rebaixamento chamuscavam os pés do clube. Era necessária alguma reação para, no mínimo, salvar a honra.

O PSG aproveitou muito bem a oportunidade logo na primeira rodada do returno. O adversário também lhe favoreceu em todos os aspectos. Não era o líder Lyon, mas sim um trôpego Lens em busca desesperada de pontos para sair da área de descenso. Contra um concorrente direto, cabia aí uma certa dose de precaução, mas sobretudo explorar o nervosismo do inimigo para conquistar um importante triunfo.

Em campo, as duas equipes deixaram muito claras suas intenções de trancar todos os espaços e arriscar muito pouco. A todo instante, longos lançamentos davam o tom da forma como ambos escolheram para tentar alguma jogada ofensiva. Além disso, as constantes perdas da posse de bola no meio-campo tornaram o jogo bastante amarrado, com poucos lances de emoção. A vitória parisiense começou a se desenhar a partir de um momento negativo. Na parte final do primeiro tempo, Digard se contundiu e foi substituído por Diané. Logo em sua primeira chance, o marfinense mandou uma bola no travessão. O melhor estava reservado para o segundo tempo.

A entrada de Pauleta para os 45 minutos finais também ajudou a melhorar a situação do PSG. Exatamente os dois reservas foram os grandes responsáveis pela tranqüila vitória por 3 a 0. Diané, com uma assistência para a Águia dos Açores e dois gols marcados, provou ser ainda bastante útil. O clube cogitava uma possível transferência do atacante para um clube do Qatar. Depois do desempenho do marfinense, os dirigentes pensaram melhor. Foram necessárias onze partidas para o time finalmente encerrar o jejum caseiro. O alívio pelo fim deste jejum, porém, não esconde as limitações da equipe.

Pauleta e Diané brilharam, mas até onde lhes depositar confiança? Luyindula vinha bem como titular após um tempo entre os suplentes. A dupla reserva contra o Lens teve várias oportunidades e fracassou diversas vezes quando estiveram no onze inicial. Enquanto houver essa irregularidade, não apenas no ataque como em todos os setores da equipe, o PSG continuará nesse martírio. Ao menos, não terá mais o grande peso suportado nos ombros pela seqüência de resultados ruins no Parc des Princes. Com os ânimos da torcida acalmados, cabe seguir com os planos para reconquistar a confiança de seus fãs – e os dias de bom futebol.

A 20ª rodada também viu outra série negativa vir abaixo. O Rennes, que não vencia uma partida pela Ligue 1 desde 28 de outubro, acertou-se contra o Olympique de Marselha e bateu o rival por 3 a 1. Méritos para Guy Lacombe; o treinador apostou em algumas mudanças na forma de jogar dos bretões e se deu muito bem. Com Cheyrou no meio, Lemoine e Echiejile como titulares e o trio ofensivo formado por Wiltord, Pagis e Briand desde o começo, os rubro-negros encontraram um bom equilíbrio.

Pode-se alegar que o Rennes apenas conseguiu superar o adversário a partir da expulsão de Krupoviesa no segundo tempo. Contudo, o OM deu algum trabalho com Akalé, seu novo reforço, e Cissé, e os bretões resistiram bem. Há alguns ajustes ainda (por exemplo, Hansson falhou no gol dos marselheses), mas Lacombe obteve um saldo positivo. Há tempo para a recuperação.

Balanço do primeiro turno – III

Na última parte da série, falamos um pouco dos três primeiros colocados. Embora lidere com certa folga, o Lyon não demonstra a mesma grandiosidade exibida em temporadas recentes. O Nancy, com um time equilibrado e sem estrelas, tornou-se a maior ameaça ao OL. Já o Bordeaux se adaptou muito bem ao estilo de trabalho de Laurent Blanc e colhe os frutos de seu bom planejamento.

Por falar em projetos, o Le Mans está em um nível acima do esperado por ele mesmo. O Auxerre tenta recuperar o tempo perdido, situação semelhante à vivida pelo Olympique de Marselha. Eliminado da Liga dos Campeões, o OM precisa reencontrar o equilíbrio para dar a volta por cima.

Auxerre

Campanha: 15º
Destaque: Sammy Traoré
Decepção: Toifilou Maoulida

Em épocas recentes, o Auxerre estaria envolvido em disputas por vagas em competições européias. No entanto, em um período de transição como o atual, a prioridade do clube se tornou lutar para escapar da zona de rebaixamento. O início do AJA na Ligue 1 foi desesperador. Em sete rodadas, a equipe venceu apenas uma vez, perdeu seis e marcou tão somente um gol. Houve uma ligeira melhora logo em seguida, mas nada capaz de devolver as esperanças de dias melhores. Com um ataque que marca poucos gols (no total, foram 17 em 19 partidas no primeiro turno), a situação do time comandado por Jean Fernandez piora quando se analisam os números de seu setor defensivo. O AJA tomou 26 gols, a segunda defesa mais vazada de todo o campeonato. As recorrentes críticas a Olivier Sorin, cujo desempenho decepcionante ajuda a explicar números tão ruins, pouco mudam as perspectivas para o restante do torneio.

O Auxerre sentiu demais as saídas de diversos jogadores importantes, sem repor com a mesma qualidade. Benoît Cheyrou, Kanga Akalé, Lionel Mathis, Younes Kaboul, Bakary Sagna, Fabien Cool e Yohan Radet saíram e deixaram o AJA bem desequilibrado. Mesmo com os cofres relativamente abastecidos com tantas negociações, o clube gastou mal esse dinheiro. O maior exemplo fica por conta da transferência de Toifilou Maoulida. A equipe pagou € 2,5 milhões ao Olympique de Marselha para ficar com o atacante, mas o jogador jamais correspondeu às expectativas. Ele marcou somente um gol em 15 jogos e ainda perdeu dois pênaltis contra o Bordeaux. Se quiser permanecer na Ligue 1 sem passar por maiores preocupações, o time precisará contratar um defensor, pois o AJA ainda pena para sobreviver sem Sagna.

Bordeaux

Campanha:
Destaque: David Bellion
Decepção: Souleymane Diawara

Ricardo Gomes havia acabado de deixar o Bordeaux e pairavam incertezas quanto ao futuro da equipe. Afinal, o treinador brasileiro havia recuperado o prestígio do Bordeaux com um bom elenco, sobretudo forte em seu sistema defensivo. A dúvida aumentou quando os Marine et Blanc anunciaram o nome do substituto: Laurent Blanc. O ex-volante da seleção francesa comandaria pela primeira vez uma equipe, mas os dirigentes resolveram deixar os temores quanto à inexperiência do técnico e lhe deram total apoio. Eles certamente riem à toa quando observam a tabela da Ligue 1. Ao contrário da temporada passada, a equipe demonstrou consistência ao ficar de fora do bloco dos cinco primeiros colocados apenas duas vezes. Além disso, foi o único clube francês sobrevivente da fase de grupos da Copa Uefa. Um prêmio à regularidade e à constância de um sério candidato a uma vaga na próxima edição da Liga dos Campeões.

Os girondinos se orgulham por ter o segundo melhor ataque do campeonato, com 27 gols. Muito se deve à contratação de David Bellion. O substituto de Jean-Claude Darcheville deixou o antigo titular para trás e, enfim, fez os adversários temerem o ataque azul. Em 19 jogos, ele marcou dez gols. Mesmo com esse número positivo, há ainda alguns ajustes necessários. A inviolabilidade da defesa ficou no passado. Blanc fez o Bordeaux se preocupar mais em atuar de forma ofensiva, mas pagou seu preço. O clube tomou 23 gols (15ª defesa da Ligue 1). O velho problema da ausência de um líder no meio-campo persiste. Contra adversários diretos na disputa dos primeiros lugares, o Bordeaux se deu mal contra seus rivais (perdeu para Caen, Lyon e Nancy). No entanto, mesmo com esses defeitos, os Marine et Blanc contam com sua maior experiência para desbancar o Nancy e, quem sabe, ameaçar o Lyon.

Le Mans

Campanha:
Destaque: Tulio de Melo
Decepção: Anthony Le Tallec

Os planos do MUC 72 eram bem claros no começo da temporada. Mais preocupados com a construção de um novo estádio e projetos para melhorar a infra-estrutura do clube, o Le Mans adotou a manutenção de um discurso pouco ambicioso na Ligue 1. A saída do treinador Frédéric Hantz aumentou as incertezas quanto ao desempenho do time no torneio. A transferência de Grafite para o Wolfsburg também deixava incertezas, pois o brasileiro era a principal referência do setor ofensivo. Aos poucos, todos os temores deram lugar à tranqüilidade. O técnico Rudi Garcia manteve o estilo de jogo da equipe, mais preocupado em buscar o ataque com trocas rápidas de passes. E se havia a necessidade de encontrar um matador, a solução estava dentro do próprio elenco: Túlio de Melo voltou aos seus melhores dias.

O atacante brasileiro finalmente se livrou dos problemas físicos e voltou a ser decisivo para o Le Mans. Com dez gols marcados, ele ajudou a equipe a contar com o terceiro melhor ataque da Ligue 1. Foi o suficiente para diversos clubes europeus manifestarem seu interesse pelo jogador. Se o ataque brilha, o mesmo não pode se dizer da defesa, que tomou 26 gols e está entre as mais vazadas da competição. E não dá para classificar a campanha da equipe como fruto da sorte. O MUC 72 ficou fora das cinco primeiras colocações apenas entre a 4ª e a 8ª rodadas. O time tem como mérito mostrar em campo a mesma vontade de vencer tanto dentro como fora de casa (em dez duelos como visitante, ganhou quatro e perdeu seis). Sem medo de perder, o Le Mans tem tudo para surpreender. Se fugir das últimas posições já estava de bom tamanho, a chance de se classificar para um torneio continental seria um prêmio justo pelo que mostrou até agora.

Olympique de Marselha

Campanha: 11º
Destaque: Mamadou Niang
Decepção: Karim Ziani

A temporada prometia ser promissora para os marselheses. Classificado de forma direta para a fase de grupos da Liga dos Campeões, o time lamentou a perda de Franck Ribéry, negociado com o Bayern de Munique. Contudo, os € 26 milhões recebidos foram gastos sem loucuras. Chegaram Zenden, Ziani, Givet, Benoît Cheyrou, Faty… Cissé foi contratado em definitivo e havia um clima de otimismo. As primeiras vitórias na LC apagaram o desempenho pouco brilhante nas rodadas iniciais da Ligue 1. Nem mesmo a presença na zona de rebaixamento assustava, pois havia a justificativa de se concentrar exclusivamente na competição continental. Não demorou muito para haver uma recaída. Quando se pensava que o time havia deixado de lado a irregularidade, eis que a desorganização bateu às portas do Olympique justo quando a classificação para as oitavas-de-final na LC parecia certa. Os velhos problemas defensivos voltaram à tona, principalmente graças às seguidas falhas de Taiwo, e a ‘síndrome do Vélodrome’ despertou. A goleada sofrida por 4 a 0 em casa diante do Liverpool foi um golpe para fazer a equipe acordar.

A troca de Albert Emon por Eric Gerets no comando do Olympique começa a ter seus efeitos sentidos. O primeiro havia perdido o tom para manter a motivação de um time frágil psicologicamente com os seguidos tropeços. Na Ligue 1, foram sete empates, a maior parte deles quando os marselheses tinham o domínio completo sobre seus inimigos, mas permitiram a reação. Já o belga tratou de manter a calma e, aos poucos, devolver um pouco da confiança perdida aos seus atletas. Para ajudar, Mamadou Niang vive grande momento, com dez gols marcados e de incrível valia na preparação de jogadas ofensivas. Até mesmo jogadores pouco badalados, como Valbuena e Ayew, tiveram suas oportunidades, prova de que nem só de medalhões se faz um grupo coeso. Mandanda, titular no gol após a grave lesão de Carasso, foi irregular, algo até normal para um jovem. A chegada de Krupoviesa promete, enfim, dar uma solução para a lateral-esquerda. Com a Copa Uefa em mente, o OM deseja apenas encontrar um pouco de estabilidade para se recompor.

Nancy

Campanha:
Destaque: Kim
Decepção: Moncef Zerka

Ninguém esperaria que o Nancy fosse o grande rival do Lyon nesta primeira parte do campeonato. Maior surpresa da temporada até aqui, o ASNL jamais deixou de ocupar um dos dois primeiros lugares da Ligue 1 desde sua primeira rodada. O pequeno clube se aproveitou dos desempenhos irregulares de concorrentes mais tradicionais para se firmar no topo com um elenco equilibrado, tomado por impressionante regularidade. O clube não perdeu em casa no primeiro turno; aliás, a equipe sofreu apenas duas derrotas em 19 partidas. Qual o segredo para o sucesso? A resposta vem do próprio elenco, com poucas alterações sofridas nos últimos tempos. Sem contar com grandes estrelas, mas com um conjunto forte, o técnico Pablo Correa colhe os frutos da evolução de seus comandados. Embora haja uma tendência de queda de rendimento, ilustrada pela série de empates em seus últimos jogos, o Nancy mostrou capacidade suficiente para colocar medo no Lyon, e isso já é uma grande conquista.

Kim surge como melhor exemplo deste crescimento de todo o grupo. O atacante, ex-Atlético Mineiro, foi contratado pelo clube em 2005. Marcou apenas um gol em sua primeira temporada. Depois, foi às redes quatro vezes em 2006/07. Nesta Ligue 1, ele já balançou as redes inimigas em seis oportunidades, sem contar outros lances de perigo proporcionados por seus deslocamentos rápidos. Como não deve sofrer grandes baixas em seu elenco, o Nancy segue como um forte concorrente até mesmo ao título. Resta saber se o time manterá o mesmo nível após deixar de ser apenas um time surpreendente para se tornar um adversário temido por todos.

Lyon

Campanha:
Destaque: Karim Benzema
Decepções: Kader Keita e Fabio Grosso

A tabela mostra o Lyon na liderança da Ligue 1 e com certa folga sobre o segundo colocado. Tornou-se costume nem perguntar mais quem está em primeiro lugar na tabela, mas o OL deu alguns motivos para tornar a resposta a esta questão nem tão óbvia assim. O time teve um início de temporada lamentável; houve uma recuperação, com ganho de ânimo extra com uma heróica classificação para as oitavas-de-final da Liga dos Campeões. No entanto, os lioneses apresentam-se em um nível inferior ao da temporada passada, uma frustração para quem esperava ver um clube titânico devido às expectativas criadas com contratações de peso.

A hegemonia do Lyon foi colocada em dúvida logo nos primeiros passos do campeonato francês. Em três rodadas, a equipe sofreu duas derrotas – isso sem contar as apáticas atuações em seus dois confrontos iniciais na LC (derrotas por 3 a 0 para o Barcelona, no Camp Nou, e Rangers, em pleno Gerland). Alain Pérrin viu que seus planos de montar o time num 4-4-2 não dariam resultado, ainda mais com as graves lesões sofridas por Coupet e Cris. Sem o goleiro e o zagueiro, a defesa se viu obrigada a conviver com um Vercoutre inseguro no gol e um Anderson com dificuldades para entrar em forma e se adaptar. Por falar em reforços, em 2007/08, os lioneses erraram a mão mais do que de costume.

O clube gastou uma fortuna para tirar Keita e Bodmer do Lille. Considerados dois dos melhores jogadores do país nas temporadas anteriores, nenhum deles brilhou. No caso de Keita, por quem o OL pagou € 18 milhões (sua contratação mais cara da história), a decepção foi maior. Incapaz de repetir suas atuações no LOSC, sua contribuição ao ataque lionês foi praticamente nula. Com excesso de individualismo, ele perdeu espaço para o crescente Hatem Ben Arfa e tornou-se um reserva de luxo. Fabio Grosso segue uma linha idêntica. O lateral chegou como esperança de maior qualidade tanto ao apoio como para a marcação. O italiano não consegue fazer bem nem uma coisa nem outra. Belhadj, a outra opção para o setor, conseguiu ser pior e sentiu o peso da inexperiência. Por isso mesmo, ele foi cedido ao Lens para ganhar um pouco mais de tempo de jogo.

Então foi tudo péssimo para o OL? Também não. Ao menos o clube viu o amadurecimento de Benzema, que deixou Fred no chinelo com seu oportunismo, qualidade nas finalizações e forte presença de área. Não à toa, ocupa o posto de artilheiro da Ligue 1 e ganhou espaço na seleção francesa. O Lyon começou a se acertar a partir da 5ª rodada do campeonato francês, quando Pérrin voltou ao tradicional 4-3-3. Nas nove rodadas seguintes, foram oito vitórias, suficientes para devolver o ânimo a um grupo que não se acostumou a perder. Os lioneses estão em evolução na temporada e, embora não tenham mais aquele mesmo espírito demolidor, seguem soberanos.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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