FrançaLigue 1

E quem nada de braçada na Ligue 1 é…

Quem esperava o domínio absoluto do Paris Saint-Germain nas primeiras rodadas da Ligue 1 deve ter se surpreendido não só com o desempenho do time da capital como com o de seu maior adversário. Enquanto o PSG amarga uma série de três empates, o Olympique de Marseille surge como o único time com 100% de aproveitamento até aqui. O OM ainda se gaba de ter vencido o atual campeão Montpellier por 1 a 0 fora de casa na terceira rodada, coroando sua excelente campanha.

Os marselheses não viam um início de temporada tão bom desde 1998/99. Quem quiser denegrir a imagem do OM pode alegar que o time bateu em dois rivais fracos (Sochaux, que perdeu seus três jogos até aqui, e o caçula Stade Reims). No entanto, a apresentação diante do campeão Montpellier deixou a torcida empolgada graças ao controle técnico exercido sobre os donos da casa.

Diante de um ambiente tenso, o Olympique de Marseille fez o Montpellier se tornar inofensivo. Algo marcante, já que o MHSC não perdia diante de seus torcedores desde setembro do ano passado, quando sucumbiu ao PSG. Com um setor defensivo tranquilo e um ataque ainda em fase de modelagem, os marselheses contaram com o poder decisivo de André Pierre-Gignac, autor do único gol do jogo e que mostrou estar em muito boa forma física – algo essencial para suas seguidas atuações destacadas.

A nova derrota irritou Louis Nicollin, o folclórico presidente do Montpellier, que perdeu a razão. Questionado se o time reagiria, o polêmico dirigente disparou uma de suas pérolas: “Quando você tem gente inteligente sim, mas acho que temos uns três quartos de estúpidos e por isso não tem dado certo”. Na verdade, o Montpellier sofre com erros individuais em momentos decisivos e, para piorar, tem alguns jogadores em condições físicas abaixo do ideal – casos de Belhanda e Mounier.

A versão 2012/13 do PSG está bem longe de ser aquele Harlem Globetrotterrs que muitos imaginavam ver em campo. O sentimento de frustração fica evidente por conta da expectativa criada em torno do time e de suas estrelas, mas já era de se esperar uma certa demora para que a equipe comece a embalar. Thiago Silva, por exemplo, ainda nem estreou. A torcida, porém, já se mostra decepcionada com os seguidos jogos sem brilho dos comandados de Carlo Ancelotti.

Nos empates sem gols com Ajaccio e Bordeaux, o PSG teve movimentação ofensiva apática. Muito dessa falta de mobilidade se deve à atuação apagada de Javier Pastore. Nem adianta citar o 3-5-2 montado pelo Bordeaux e que contribuiu de forma decisiva para a partida se transformar em um marasmo. Quando a alternativa era abrir o jogo pelas pontas, os parisienses simplesmente a ignoravam e insistiam em ir pelo meio, dominado pelos Marine et Blanc.

Contra o Ajaccio, passou filme idêntico na tela do PSG. Se contra o Bordeaux quem sofreu com a falta de produtividade do setor criativo foi Ibrahimovic, Lavezzi sentiu-se solitário diante dos corsos. Pastore, de novo, passou em branco, assim como grande parte de seus companheiros. Claro que é cedo demais para entrar em pânico e Ancelotti sabe que precisa de tempo para encaixar tantas peças novas da melhor forma possível. O PSG está sendo moldado com o cuidado necessário para atingir seus objetivos e este início de tropeços está dentro dos seus planos.

Ligue 1 para inglês, japonês e congolês ver

Enquanto o PSG patina nas rodadas iniciais da Ligue 1, o clube experimenta a sensação de ser a vedete do campeonato. O rótulo de ator principal da companhia, mesmo em seus primeiros atos semelhantes aos de um dramalhão mexicano, rendeu ao clube da capital uma atenção jamais vista a ele. O próprio torneio já capitaliza com todo este movimento em torno dos parisienses e faz planos de como – e principalmente quanto – pode encher seus cofres.

Basta ver como a cobertura do Paris Saint-Germain mudou de uns tempos para cá. Antes restrito aos repórteres locais, agora o clube se vê quase como uma torre de Babel. Apenas para acompanhar cada passo de Zlatan Ibrahimovic na Cidade-Luz, a emissora sueca TV4 e dois grandes jornais bancam correspondentes permanentes. O jornal italiano La Gazzetta dello Sport também dedica uma valiosa parte de seu noticiário sobre futebol internacional para contar como andam as ex-estrelas do Milan que hoje estão em Paris.

Esta visibilidade internacional chega em um momento no qual os demais clubes franceses encaram uma dura realidade financeira. As equipes amargaram uma queda de € 61 milhões em receitas vindas dos direitos de transmissão das partidas da Ligue 1 pela tevê. Em um quadro de estagnação, apenas esta exposição na vitrine internacional promete render bons lucros. Não dá para esperar quatro anos passando o chapéu à espera de migalhas enquanto a Eurocopa-2016 não começa.

O dinheiro do Qatar jorra em profusão na Ligue 1. Como se não bastasse o investimento maciço no PSG, há ainda a parcela da rede Al Jazeera neste balcão de negócios – tudo com as bênçãos do emir qatariano. Com um pagamento mínimo de € 32 milhões por temporada durante os seis próximos anos, o conglomerado adquiriu os direitos de transmissão internacional da Ligue 1. Além disso, a rede tem o poder de revender estes direitos a outras emissoras pelo mundo com uma dupla função: aumentar as receitas e atingir novos mercados.

A LFP (Ligue de Football Professionel) pensa alto e sonha e ver seu principal campeonato concorrendo com força com outros torneios com público fiel, como o Inglês e o Espanhol. A entidade utiliza uma estratégia simples para fincar bandeira em novos territórios e arrebanhar uma fatia cada vez maior do bolo. Ela privilegia acordos com emissoras que são referência em suas regiões (ESPN, TV Globo e J-Sport, do Japão, são os maiores exemplos) exatamente para não entregar seu produto nas mãos de algum negociante mambembe.

A Ligue 1 apresenta uma progressão de 30% em seus contratos internacionais, mas a LFP deseja mais. Cerca de 180 países já acompanham o que rola nos gramados franceses e o mercado asiático ganhou atenção especial. A marcação de partidas para as 14h (horário francês) tem como único intuito atender à demanda dos países orientais, assim como já acontece na Espanha.

Cabe à Ligue 1 provar agora seu poder de sedução para cativar o público e estimulá-lo. A obrigação de oferecer um bom espetáculo se torna um pesado fardo para quem sofre para reforçar seu elenco com um orçamento reduzido. Espera-se que o dinheiro vindo com esta visibilidade no exterior chegue logo e valorize alguns contratos primordiais para a sobrevivência das equipes.

Apenas para ilustrar, os valores pagos com patrocínio máster de camisas e dos fabricantes de material esportivo chega a ser assustador se compararmos os números do futebol francês com o de outros grandes centros europeus. A Fly Emirates paga € 6 milhões por temporada ao PSG. Já o Barcelona ganha € 33 milhões da Qatar Foundation e o Manchester United verá pingar na sua conta € 38 milhões anuais da Chevrolet a partir de 2014. A Ligue 1 tem contrato de equipamentos da ordem de € 25 milhões, contra € 48 milhões da Bundesliga, € 69 milhões da Serie A, € 78 milhões da Liga Espanhola e € 110 milhões da Premier League.

Todo este frenesi em torno do PSG teoricamente traz benefícios a todos os clubes franceses, muito embora favoreça demais um time em detrimento dos outros. O futebol francês tem a chance única de aproveitar esta onda para se desenvolver, mas sob risco de permitir a criação de um monstro. Da mesma forma que não tem graça ver um campeonato de qualidade duvidosa, ninguém se sentirá atraído para acompanhar um torneio no qual já se sabe quem vencerá com folga. Que os demais times franceses tenham a sabedoria necessária para crescer e oferecer uma concorrência digna na disputa por títulos.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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