Do limbo aos holofotes

Desde o início da temporada, André-Pierre Gignac e Brandão se acostumaram a ser malhados de todos os cantos. Os dois atacantes do Olympique de Marselha recebiam críticas constantes pela ineficiência ofensiva da equipe e apenas Loïc Rémy escapava da chuva de reclamações. Hoje, a situação se inverteu. Rémy foi relegado ao banco de reservas, enquanto Gignac e Brandão saboreiam a volta por cima.
Desde o fim de novembro, o OM não obtinha duas vitórias consecutivas. Os triunfos sobre Bordeaux (Ligue 1) e Auxerre (Copa da Liga) desanuviaram os caminhos de Gignac e Brandão. Além disso, fortaleceram a opção do treinador Didier Deschamps para fortalecer o ataque da equipe. A fórmula da recuperação foi escalar o tridente ofensivo com Mathieu Valbuena pela direita, Gignac na esquerda e Brandão como centroavante. Estava desvendado o mistério.
Gignac e Brandão deixaram suas marcas nestes dois duelos e deixaram o caminho das trevas para rumar à redenção. Do banco, Rémy apenas observava a revolução que culminou com sua queda. Ele passou do posto de principal artilheiro da equipe, com oito gols marcados nos primeiros cinco meses da temporada, para um simples posto de reserva de luxo. Como o tempo sempre reserva algo para quem se destaca, eis que até ele tem a sua oportunidade de provar seu valor.
Quando tudo parecia caminhar bem para Deschamps, eis que Valbuena sofre uma grave lesão. Com uma torção no joelho esquerdo e ruptura parcial dos ligamentos, ele ficará cerca de seis meses afastado dos gramados. Um duro golpe para o treinador, que havia demorado tanto para encontrar um esquema eficaz. Para reencontrar o equilíbrio, eis que o técnico agora aposta suas fichas em Rémy.
O atacante viveu meses bastante conturbados desde sua chegada ao Vélodrome. Afinal, ele precisou superar o susto com os resultados de exames médicos que apontaram um problema cardíaco. Além disso, Rémy sentiu o peso da responsabilidade para voar em campo, como uma forma de justificar um investimento de nada menos de € 15,5 milhões por sua contratação. Tudo isso pode ser multiplicado pela presença nas listas de convocados por Laurent Blanc para a seleção francesa.
Rémy foi da adoração (quatro gols em sete jogos) à execração (seis gols em 17 partidas) em pouco tempo. Enquanto isso, a dúvida sobre como fazer o ataque render mais continuava. Em todo o primeiro turno da Ligue 1, Gignac e Brandão jogaram juntos como titulares apenas três vezes. O mais comum era ver um substituindo o outro no decorrer dos confrontos do Olympique de Marselha.
Agora, Rémy se espelha em seus companheiros de ataque para superar seu momento ruim. Sem Valbuena, Deschamps o escalará pela direita, exatamente seu lado preferido do campo. Gignac, que não tem cacoete para atuar como um ponta, aprendeu a aproveitar os espaços abertos por Brandão. O brasileiro, por sua vez, preocupa-se apenas em desempenhar seu papl como centroavante, sem a obrigação de cair para os lado para buscar o jogo – o que definitivamente não é a sua praia.
Com um ataque formado com jogadores que atingiram o fundo do poço e caminham de volta à luz, o OM também almeja sua recuperação. Finalista da Copa da Liga e com esperanças de dar a volta por cima na Ligue, o Olympique de Marselha quer no fundo se inspirar em seus atletas para não deixar o sonho do bicampeonato francês ir embora.
Desilusão girondina
Era de se esperar uma classificação tranqüila do Bordeaux na Copa da França. Afinal, a equipe enfrentaria o Angers, que não vive bom momento na Ligue 2. Para surpresa geral, eis que os girondinos perderam por 1 a 0 e foram eliminados mais uma vez. Cabe lembrar que a equipe já havia caído na Copa da Liga Francesa para o Saint-Etienne nas oitavas de final. Ou seja: as chances de conquista de título ficaram para a próxima temporada, o que deixa Jean Tigana muito ameaçado de ir para o olho da rua.
Jean-Louis Triaud, presidente do Bordeaux, deixou bem claro que não está nada contente com os rumos dos Marine et Blanc nesta temporada. O dirigente se disse abismado com “tantas lacunas e mediocridade” do time. A decepção se tornou indignação, pois poucos dias antes os girondinos tiveram seu destino selado na Ligue 1. A derrota por 2 a 1 para o Olympique de Marselha foi uma prova da verdade para o time, que soube da pior forma possível qual o seu lugar no torneio: longe das primeiras colocações.
Uma temporada e meia após conquistar o título francês, o Bordeaux se tornou uma sombra de si mesmo. Desde que assumiu como treinador do time, Tigana jamais conseguiu encontrar a fórmula para fazer o time render. Todo o apoio recebido para aceitar o cargo, por já conhecer os meandros do clube, logo foram esquecidos. A cobrança por resultados falou mais alto e, com a série de insucessos, aos poucos o técnico se isolou.
Já na pausa de inverno, o técnico se dizia muito cansado, fruto da pressão constante à qual se submeteu. Certamente as duas últimas derrotas não ajudaram muito o treinador a ficar mais sossegado. Com um elenco sem alguém criativo para comandar o meio-campo, o Bordeaux sofre demais as conseqüências da saída de Yoann Gourcuff – mesmo quando ele não estava em suas melhores condições físicas.
Sem moral e com um grupo enfraquecido, Tigana se vê encostado na parede. Os jogadores também aparentam não estar muito empolgados em salvar a pele do técnico, como se pode verificar pelas palavras de Alou Diarra. O capitão e meio-campista se tornou figurinha fácil na imprensa, um claro sinal de que algo não está bem dentro do clube. “Uma mudança é necessária”, deixou no ar o jogador, sem esconder que o futuro dos Marine et Blanc pode ser escrito por outras mãos.
Com um elenco devastado pelos sucessivos fracassos na temporada, Tigana está cada vez mais condenado a abandonar o barco – ou ser convidado a deixa-lo. Já há rumores de quem poderia substitui-lo, e por eles dá para se esperar que o Bordeaux siga a mesma fórmula que levou o atual técnico ao clube: a preferência por alguém que já tenha tido a experiência de trabalhar nos girondinos.
Sendo assim, ressurge o nome de Rolland Courbis, que na temporada passa já havia sido evocado para assumir o cargo e o perdeu para Tigana. Outra possibilidade seria a contratação de Elie Baup, que levou a equipe ao título da Ligue 1 em 1998/99 e da Copa da Liga em 2002. Seja qual for o escolhido, o Bordeaux deve passar por uma mudança, mas sem alterar tanto o perfil de seu comandante.



