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Desafiou físicos, venceu mitos, inspirou Pirlo: a arte inigualável de Juninho

O livro de regras do futebol não deixa dúvidas: qualquer falta sobre o adversário dentro de sua grande área será punida com pênalti. Durante parte dos últimos 20 anos, entretanto, ela se tornava completamente abstrata. A grande área parecia não ter limites. Qualquer falta cometida no campo de defesa poderia resultar em penalidade máxima para Sport, Vasco, Lyon ou outro time que tivesse a sorte de contar com Juninho Pernambucano. Um dos meio-campistas mais técnicos que já vestiram a camisa da seleção brasileira. E também um dos mais exímios cobradores de falta já vistos, sem distância ou barreira que o intimidasse.

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Logicamente, o talento de Juninho não se limitava apenas à bola parada. E ele também não chegaria tão longe se fosse assim. O garoto que estourou no Sport, que se transformou em ídolo do Vasco em meio a tantas glórias, que escreveu a sua lenda no Lyon heptacampeão francês. O meio-campista que pensava o jogo como um enxadrista. Tinha uma visão impressionante do campo, como se olhasse por cima do tabuleiro. Movimentava as outras peças com seus passes e lançamentos precisos. Encurralava o rival através da grande capacidade de ocupar os espaços do campo. E o xeque vinha quase sempre em uma mesma jogada, conhecida pelos adversários, mas muito bem treinada. As letais cobranças de falta.

Em um lance desses, em que o tabuleiro estava parado à espera de seu movimento, Juninho anotou o gol mais importante de sua carreira. Da intermediária, bateu na bola como se cruzasse uma rainha por várias casas. Mandou-a no ângulo de Burgos e calou o Monumental de Núñez. Eliminou o River Plate e colocou o Vasco na final da Libertadores de 1998. Também em uma falta, o brasileiro coroou uma de suas atuações mais inesquecíveis pelo Lyon. O chute rasante morreu no fundo das redes do Real Madrid, na fase de grupos da Champions 2005/06. Naquela noite, o brasileiro teve uma partida magistral no Estádio Gerland, obrigando os galácticos voltarem à Espanha com a derrota por 3 a 0 na bagagem. Fechou o ano como 12º melhor da Europa na votação da Bola de Ouro.

A barreira parecia mero detalhe para Juninho. Assim, ele duelou diretamente com alguns dos melhores goleiros do mundo em sua época. Kahn, Taffarel, Casillas, Cech, todos eles vendidos nos lances e vencidos pela pontaria certeira do meio-campista. Não havia distância ou posição do campo que dificultasse o craque. De perto, a batida forte e colocada que poucas vezes dava tempo do arqueiro reagir. De longe, o efeito imprevisível que fazia muitas mãos espalmadas apenas estapearem o vento.

Não à toa, a física das faltas de Juninho foi alvo de pesquisas científicas. E os estudos só corroboraram aquilo que os torcedores sabiam há tempos: o brasileiro está entre os melhores cobradores da história. O meia dominava todas as técnicas de curvas, fruto de seus treinos intensivos para aprimorar a qualidade nata. Enquanto praticava os chutes, o Reizinho se tornava carrasco dos goleiros, como Júlio César bem provou em humilhação pública durante os preparativos à Copa de 2006 – aquela em que o craque merecia mais tempo em campo, mas acabou sacrificado pelas escolhas de Parreira.

Talvez a maior prova da influência de Juninho na arte da bola parada tenha vindo da boca de outro especialista, Andrea Pirlo. “Ele nunca está errado. Nunca. Eu chequei suas estatísticas e percebi que não existem chances. A bola faz coisas realmente extraordinárias”, escreveu, em sua biografia. “Quando eu cobro faltas, eu penso em português. Eu estudei o que o Juninho faz. Assisti a DVD’s e observei fotos de suas partidas. A busca pelo segredo de Juninho se tornou uma obsessão para mim. Tudo se resume em como você bate na bola, não aonde”. E certamente o italiano não é o único nome consagrado que se inspirou no brasileiro.

Nesta sexta, Juninho Pernambucano completa 40 anos. Uma trajetória de vida marcada pela idolatria nos campos de futebol. Pela inteligência de um meio-campista de raro talento, de numerosos títulos. Se no Brasil e na França o Reizinho será sempre lembrado por seu caráter, de quem chegou inclusive a aceitar apenas um salário mínimo ao voltar ao Vasco, no restante do mundo a principal marca é outra. As cobranças de falta perfeitas, o suprassumo da técnica de um verdadeiro craque.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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