França

Defesa esburacada

A partida contra a Ucrânia representou um amistoso de luxo para a França. Já classificada para a Eurocopa-08 graças a uma ajuda da Itália, a equipe foi a Kiev sem a responsabilidade de se esforçar em busca de um resultado. Uma hora perfeita para Raymond Domenech fazer alguns testes. O treinador aproveitou para colocar Sébastien Frey e examiná-lo como se sairia como goleiro titular dos Bleus. Embora o empate por 2 a 2 tenha sido conveniente, a falha do jogador da Fiorentina no segundo gol dos rivais deixou um ponto de interrogação.

A cabeçada de Shevchenko não parecia assustar Frey, mas ele se atrapalhou completamente. Ele tocou com a ponta dos dedos na bola e a viu encobri-lo e parar no fundo das redes. Um frango que abalou a confiança do goleiro, com excelentes atuações na Fiorentina tanto nesta como na temporada anterior. Em seu primeiro jogo como titular da seleção, ele cometeu uma falha gritante, mas não se pode julgá-lo apenas por isso. Quando se tem Domenech como técnico, porém, qualquer probleminha pode se transformar em um grande monstro que engole seu criador.

Mesmo sem a falha de Frey, a França teria motivos suficientes para se preocupar com seu setor defensivo. Embora o duelo contra a Ucrânia e o amistoso contra Marrocos tenham despertado uma motivação quase nula nos jogadores, nos dois confrontos a zaga francesa deixou a desejar. Em Kiev, Thuram deu sinais de que o longo período na reserva do Barcelona o fez perder seu bom posicionamento e a velocidade para acompanhar os adversários. A liberdade dada a Fedorov, por exemplo, em um lance de perigo da Ucrânia, deixou clara essa falta de ritmo de um dos jogadores mais experientes dos Bleus.

Na lateral-direita, François Clerc teve mais vontade de ajudar do que eficiência. O jogador do Lyon seria aprovado com nota cinco: esteve longe de ser brilhante, pois não apoiou o ataque e pouco atrapalhou a vida dos meias e atacantes ucranianos que caíram por seu lado. Por outro lado, fez uma outra boa intervenção, sem tornar-se uma muralha na defesa. Para Domenech, a recuperação de Willy Sagnol parece ser um alento, mas o defensor do Bayern de Munique precisa de tempo para voltar à forma após se recuperar de uma grave lesão no joelho.

A mesma situação acontece no gol. Landreau teve muito mais oportunidades do que Frey, mas não fez o suficiente para conquistar a confiança do treinador. Os constantes erros, sobretudo aquele que deu a vitória para a Escócia, fazem Domenech se ajoelhar e pedir para Grégory Coupet voltar logo. Frey teve apenas uma chance como titular. O aparente nervosismo pode até fazê-lo deixar para lá o gol tomado contra a Ucrânia. No entanto, ele ainda precisa provar na seleção como se consagrou com a camisa ‘viola’ no campeonato italiano.

Para o miolo da zaga, William Gallas está garantido, pois atingiu um bom nível de regularidade. Domenech precisará optar por uma solução para definir quem será o outro zagueiro para a disputa da Euro-08. Ele pode esperar que Thuram reconquiste seu espaço no Barcelona, seja escalado mais vezes e recupere sua melhor forma ou então recorrer a outros nomes. Sébastien Squillaci, em fase de equilíbrio após um começo de temporada irregular no Lyon, e Philippe Méxès, com um desempenho de destaque na Roma, despontam como candidatos.

O mais curioso fica por conta da inversão total das preocupações do treinador. Antes, a seleção francesa sofria com a falta de punch ofensivo, mas se gabava da solidez de seu sistema defensivo. Agora, encontrou a melhor solução para montar um time perigoso no ataque; porém, a zaga não passa a mesma segurança de épocas recentes. Pelo menos Domenech terá um pouco de tempo para solucionar esse desequilíbrio para não passar vexame na Áustria e na Suíça.

Visita dentro de casa

O Stade de France estava completamente tomado. A fanática torcida esperava a entrada em campo de sua seleção para apoiá-la de forma incondicional contra seu inimigo. A França sentiu na pele como é ser minoria dentro de seus domínios. No amistoso contra Marrocos, os Bleus nada puderam fazer a não ser desafiar a pressão do público, que vaiou a Marselhesa com todas as forças.

A falta de uma grande motivação para esta partida já havia atingido os Bleus, que tinham motivos especiais para querer passar logo os 90 minutos deste duelo. Com um ambiente completamente desfavorável, a seleção demorou para entrar nos eixos. Os Leões do Atlas, sentindo-se em casa, aproveitaram-se para abrir o placar logo aos nove minutos. Mais do que o clima favorável aos ‘visitantes’, a França pagou pelo erro de facilitar a marcação em cima de Sektioui, que pegou um rebote de Landreau sem muitas dificuldades.

O empate só saiu em um erro na saída de bola do goleiro Lamyaghri. Um sinal de como os franceses estavam desconcentrados e sem a calma suficiente para articular jogadas. Era natural se esperar momentos de desatenção ou mesmo falta de compromisso, mas esses problemas se apresentaram em um nível maior do que o tolerável. Na segunda etapa, a França continuou completamente desinteressada, mas virou o placar em um de seus poucos lances de perigo.

O 4-5-1 montado por Henri Michel deu muitos problemas à defesa francesa. Apesar de não se tratar de um jogo com grande importância na vida dos franceses, não é de se esperar um combate tão desigual entre o setor ofensivo marroquino e a defesa francesa. Thuram, fora de sintonia, mais complicou do que ajudou, sobrecarregando Gallas em sua tarefa de impedir os avanços rivais.

Se Frey falhou em Kiev, Landreau de novo mostrou-se inseguro como titular. O empate por 2 a 2 veio com naturalidade e, embora a partida não tenha acrescentado grande coisa ao currículo dos Bleus, pelo menos serviu para Domenech começar a olhar com mais cuidado para sua defesa. Os primeiros alertas foram dados.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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