De volta à estaca zero
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Laurent Blanc deixa o comando da seleção francesa com a sensação de fracasso. Nem tanto pelos resultados dos Bleus em campo, já que a equipe conseguiu uma longa série invicta e foi eliminada da Eurocopa-12 pela campeã Espanha. Sua principal função era pegar a terra arrasada deixada por Raymond Domenech e fazer dela um solo fértil. Conseguiu apenas uma vegetação rasa, poucos arbustos rasteiros e, pior ainda, com algumas ervas daninhas resistentes à ação de pesticidas.
Em julho de 2010, Blanc começou seu trabalho de descontaminação dos Bleus, em ruínas após a vergonha elevada à última potência com os derradeiros atos de Domenech como treinador. Teve um início complicado, ainda em busca de recuperar a confiança perdida e com o escândalo de Knysna fresco na memória. Nas eliminatórias da Euro, a derrota para a Bielorrússia em casa logo na estreia deixou a torcida com o pé atrás.
Após os bielorrussos, os franceses encadearam uma sequência de 23 partidas sem perder, a mais longa desde a era Aimé Jacquet (cujo time ficou 30 jogos sem ser derrotado entre 1994 e 1996). Aquela equipe, que tinha Zidane em seu elenco, era conhecida como “reis dos amistosos”, apelido que também se aplica aos comandados de Blanc. Os triunfos sobre Alemanha, Inglaterra e Brasil empolgaram e deixavam uma ponta de esperança sobre a redenção na Eurocopa.
Contudo, esta impressão era falsa. Blanc teve o mérito de voltar a fazer a França ganhar um jogo em uma competição oficial após um jejum de seis anos, mas o balanço da participação dos Bleus na Euro-12 foi negativo. O treinador que revelou se inspirar no toque de bola da Espanha e sonhava fazer o mesmo em sua equipe até conseguiu certo sucesso em seus dois primeiros jogos no torneio continental, mas os duelos seguintes apenas comprovaram que seu trabalho estava longe de ser uma maravilha completa.
A postura relaxada em excesso dos franceses contra a Suécia foi o menor dos problemas. A derrota escancarou os problemas internos de uma equipe cuja principal missão era a de recuperar o prestígio esmigalhado pelo vexame na Copa-2010. O descontrole emocional de Nasri, as discussões com Ben Arfa e a indisciplina de M’Vila provaram que medidas enérgicas não fazem parte da rotina de Blanc.
O treinador comandou a seleção francesa em 27 partidas com um cartel de 16 vitórias, sete empates e quatro derrotas. Seu legado foi deixar um esqueleto razoável na defesa, com a segurança de Hugo Lloris no gol e as certezas de um bom futuro nas laterais com Gaël Clichy e Mathieu Debuchy. O meio-campo obrigatoriamente deve passar por Yann M’Vila e Yohan Cabaye, este último uma grata revelação na Euro. Franck Ribéry ainda tem lenha para queimar com a camisa azul, assim como Karim Benzema – apesar de passar zerado pelo torneio continental.
A grande dúvida para o sucessor de Blanc será compor o miolo de zaga. Mexès e Rami formaram uma dupla instável, muito por conta das constantes oscilações do primeiro. Samir Nasri, por sua vez, jogou no lixo a chance de assumir o papel de líder. O meia deve amargar um bom tempo de exílio para saber que a seleção não é lugar para chiliques.
Noël Le Graët, presidente da Federação Francesa (FFF), deixou no ar que Didier Deschamps é o número 1 para assumir o cargo. O nome de DD ganhou ainda mais força após seu desligamento do Olympique de Marselha. O dirigente também aproveitou os holofotes para anunciar que Nasri, Ménez, M'Vila e Ben Arfa terão um encontro com a comissão de disciplina da entidade por conta de seus momentos de rebeldia na Euro.
Cabe lembrar que Le Graët, o mesmo que veste sua túnica da moral e dos bons costumes pela segunda oportunidade em tão pouco tempo, foi o mesmo que ignorou a pressão e os fatos evidentes para manter Domenech como treinador. Ele teve a chance de mandá-lo plantar batatas quando o mundo todo pedia a cabeça do técnico, mas achou que era tudo intriga da oposição. Deu no que deu, e agora ele posa de baluarte da ética.
Le Graët estava incomodado com o tamanho da comissão técnica de Blanc, formada por 23 pessoas, e não escondia seu desejo de economizar. A pífia imagem deixada pela França na Euro-12 catalisou o processo de fritura de Blanc, mas o treinador não duraria mesmo tanto tempo no cargo caso se recusasse a reduzir o número de auxiliares. A nova frustração dos Bleus contribuiu, mas a queda do treinador tem mais nuances do que sua saída deixa transparecer.
PSG vai ao mercado
O Qatar Sports Investment (QSI) abriu a carteira para a temporada 2012/13. Os donos do Paris Saint-Germain começaram a gastança para reforçar o elenco para a próxima temporada e evoluir ainda mais tanto na Ligue 1 como no seu retorno à Liga dos Campeões. O primeiro nome trazido pelos qatarianos é Ezequiel Lavezzi, que assinou contrato por quatro temporadas em uma negociação na casa dos € 30 milhões.
A chegada do argentino, de 27 anos, promete dar maior profundidade ao já forte setor ofensivo do PSG. A presença de Lavezzi, um dos melhores atacantes da Serie A, deixa o técnico Carlo Ancelotti com aquela dúvida cruel: como montar o time com ele, Guillaume Hoarau, Kévin Gameiro, Jérémy Ménez, Nenê e Javier Pastore de forma equilibrada, sem deixá-lo ofensivo demais nem desperdiçar talentos?
A pergunta se torna uma preocupação tendo em vista os planos do QSI de contratar um centroavante. Para seu projeto de crescimento, o PSG precisa de um elenco forte o suficiente para ir longe na LC sem perder a competitividade na Ligue 1, mas parece um tanto paradoxal (pra não dizer rasgar dinheiro) contratar jogadores por uma fortuna para colocá-los no banco de reservas, por mais que o rodízio feito por Ancelotti faça todo mundo entrar em campo.
O PSG ainda pretende trazer um meio-campista e um zagueiro para fechar seu elenco. Pastore não rendeu o que era esperado e suas frequentes oscilações deixaram dúvidas quanto à capacidade de o argentino ser o legítimo comandante da equipe. Na defesa, nem mesmo a grande quantidade de reforços contratados na última temporada serviu para corrigir os erros quase crônicos do setor. O problema maior foi de entrosamento, algo que deve ser amenizado para 2012/13.
Contudo, as mudanças previstas para o elenco do PSG voltam a mexer em um vespeiro. E quem está no clube há mais tempo e carregou o fardo nos tempos de vacas magras? Nenê e Chantôme, por exemplo, tiveram grande importância para a equipe e, apesar dos seus defeitos e limitações, sentem-se cada vez desvalorizados. Gameiro mal chegou e também deve ir embora, já que a possibilidade de perder espaço entre os titulares se tornou uma ameaça bastante real.
Mamadou Sakho também entra neste grupo e já mostrou seu descontentamento. Com a chegada de Ancelotti, ele se tornou reserva e pode ter ainda menos espaço caso o time contrate mais um defensor. Mais jovem capitão da história do PSG, ele entende – com razão – que o desejo de trazer um jogador para o miolo de zaga significa seu fim da linha no grupo parisiense.
Aos 22 anos, Sakho sabe que não evoluirá no PSG se continuar como um simples reserva. Seu sonho de voltar a vestir a camisa da seleção francesa também fica mais distante. Por isso, suas declarações pessimistas na imprensa francesa fazem muito sentido, embora possam causar algum mal-estar. Este é o outro lado da moeda que o clube parisiense precisa enfrentar e contornar com grande sabedoria: como motivar jogadores importantes, mas que perderam espaço dentro da equipe.
O melhor seria mesmo liberá-los para procurar outros clubes, muito embora isso possa soar como uma ingratidão para quem roeu o osso por um longo período. Contudo, pior seria manter atletas descontentes no grupo, o que certamente acarretaria em crises de relacionamento em momentos agudos da temporada. De nada adianta gastar milhões para contratar reforços se não houver um mínimo de unidade no elenco.