Colcha de retalhos

Apesar da derrota por 1 a 0 para o Paris Saint-Germain, o Lyon segue tranqüilo na liderança da Ligue 1. As conseqüências do jogo no Parc des Princes, porém, serão sentidas a médio/longo prazo pelos heptacampeões. A explicação está na lesão sofrida por Anthony Réveillère, pouco antes dos 15 minutos de partida. O problema sofrido pelo lateral-direito – rompimento dos ligamentos cruzados do joelho esquerdo – limita ainda mais as opções na defesa do OL, já dizimada por diversas contusões. Justo em seu setor mais problemático, a equipe corre contra o tempo para evitar piores efeitos.
Réveillère só voltará aos gramados na próxima temporada. Ele se tornou o mais novo membro da enfermaria lionesa, cuja preferência se mostra aguçada por defensores. François Clerc sofreu uma lesão parecida no joelho em agosto e tem previsão de retorno para fevereiro. Mathieu Bodmer, improvisado no miolo de zaga, estava com uma pubalgia, foi operado e ficará afastado por cerca de dois meses. Fabio Grosso vira e mexe passa por lá com algum problema físico. John Mensah mal teve tempo de suar a camisa, pois passa mais tempo em tratamento do que em campo.
Com tantos atletas afetados por contusões, o treinador Claude Puel se vê em meio ao desespero. Na zaga, restaram Cris e Boumsong, uma parceria longe de ser a menina dos olhos do Lyon, mas o melhor à disposição no momento. Para o técnico, a solução foi recorrer aos jovens Lamine Gassama (19 anos) e Timothée Kolodzieczak (17). Em um momento de emergência, nem sempre apostar alto em jogadores mal saídos das categorias de base rende frutos imediatos.
As chances de eles entrarem e resolverem todas as dificuldades está próxima de um milagre. O mais normal será acompanhar atuações oscilantes, naturais para quem está em processo de amadurecimento. Lançar um peso desproporcional às qualidades de ambos significa queimar dois possíveis talentos. Para Puel, o mais prudente seria olhar para o restante do elenco e verificar se há alguma opção mais segura antes de jogar os dois jovens aos leões.
O problema está exatamente nestas improvisações. O próprio Bodmer começou a temporada deslocado de sua posição original no meio-campo para fazer as vezes de zagueiro. As constantes ausências de Grosso forçaram o treinador a escalar Källström na lateral-esquerda, mas o sueco deu sinais claros de que esta definitivamente não é sua praia. O mesmo vale para Boumsong; ele poderia até tapar um buraco, mas abriria outro na zaga, que já tem problemas demais para consertar.
À beira de jogos tão decisivos pela Liga dos Campeões, o OL se vê mesmo obrigado a fazer malabarismos em sua defesa para suportar pelo menos até dezembro. Não há outra solução a não ser buscar reforços logo após a abertura da janela de transferências em janeiro. Já desponta o nome de Pascal Chimbonda, esquecido no Sunderland, para suprir o espaço aberto na lateral-direita. Não importa se, quando Clerc e Réveillère voltarem, haver uma “superpopulação” de jogadores para este setor do campo. Hoje, não há nenhum.
Do meio-campo para frente, o OL está bem servido, obrigado. Contudo, de nada adianta Benzema se esforçar no ataque se a defesa se apresenta completamente cheia de remendos. Para a Ligue 1, há a possibilidade de se colocar um esparadrapo aqui, um band-aid ali… Mas na LC, será preciso bem mais do que um pouco de cola para parar os ataques de Fiorentina e Bayern de Munique. Como exigir frieza de Gassama e Kolodzieczak diante de um Toni ou de um Gilardino? A situação lionesa se complica.
Adeus ano velho
Se o Lyon sofre com diversos buracos em sua defesa, o mesmo pode se dizer da seleção francesa. Ao menos, os Bleus não sofreram gols diante do Uruguai e o 0 a 0 no Stade de France marcou o último jogo da equipe neste ano. Mesmo forçado a fazer várias modificações em um setor no qual a constância não é a mais indicada, o treinador Raymond Domenech saiu satisfeito.
Para o duelo contra a Celeste Olímpica, o técnico se viu privado de Willy Sagnol, Eric Abidal, Bacary Sagna e Lassana Diarra, todos machucados. A opção foi apostar em Méxès no miolo da zaga ao lado de Gallas. O jogador da Roma ganhou mais uma chance, mesmo após cair em desgraça com sua péssima apresentação diante da Áustria, em setembro, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo-2010.
Na lateral-esquerda, Evra esteve entre os onze, apesar dos crescentes clamores pela presença de Gaël Clichy. Na direita, mais uma vez esteve Rod Fanni. No gol, Domenech optou por deixar Mandanda no banco. O goleiro do Olympique de Marselha passa por um momento de instabilidade; por isso, Hugo Lloris, em melhor fase no Lyon, ganhou a condição de titular.
Durante a partida, Méxès rumou para o lado direito, mas nem isso o impediu de carbonizar um pouco mais seu filme. E o giallorosso incluiu Evra no mesmo lance, para acabar de vez com um problema só. Os dois se complicaram e perderam a bola para Rodríguez, mas a bola acabou nas mãos de Lloris. Um sinal de que o espaço de ambos na seleção está com os dias contados.
Se a defesa apresentou melhoras, apesar de algumas patacoadas dos jogadores deste setor, muito se deve ao trabalho de Vieira. Embora ainda esteja abaixo de suas melhores condições físicas, ele teve papel fundamental para impedir uma maior aproximação dos uruguaios, de características ofensivas. Toulalan não repetiu as mesmas boas atuações exibidas no Lyon, mas certamente forma uma dupla de respeito no meio-campo francês, com qualidade na recuperação da bola e na ligação para o ataque.
Domenech preferiu escalar os Bleus num 4-2-3-1, com Anelka na ponta do ataque. O jogador do Chelsea encontrou dificuldades para jogar, tanto por mérito da defesa uruguaia como pela falta de criatividade de seus companheiros. A França concentrou seu jogo pelo meio, onde os sul-americanos a aguardavam de tocaia. Gourcuff e Ribéry se mostraram entrosados, mas pouco eficientes na variação de jogadas.
Anelka cedeu seu lugar a Steve Savidan no intervalo. A expectativa em torno da estréia do jogador do Caen, de 30 anos, valeu a pena. Ele não teve a mesma sorte de Bafétimbi Gomis, que marcou dois gols logo em seu primeiro jogo com a camisa azul. Mesmo tendo passado em branco, Savidan deixou uma impressão positiva. Após superar o nervosismo (ficou duas vezes em impedimento logo em seus primeiros minutos), o atacante mostrou vontade, criou algumas boas chances e saiu de campo com a sensação de dever cumprido.
A partida contra o Uruguai resumiu muito bem o ano dos Bleus. Mesmo com jogadores de talento reconhecido, a seleção não ofereceu um grande espetáculo. O principal problema fica por conta da crônica lentidão na passagem do meio-campo para o ataque, embora o setor conte com um jogador veloz como Ribéry. Toda a instabilidade exibida pelo time tem sua origem no banco de reservas. Domenech transmite uma insegurança exagerada para quem necessita com urgência se firmar.



