França

Coerência acima de tudo

A federação francesa (FFF) não teve uma recaída ao analisar novamente a punição imposta ao Paris Saint-Germain. O Comitê Nacional Olímpico e Esportivo Francês (CNOSF, na sigla em francês) havia solicitado à entidade para aliviar um pouco a situação do clube, excluído da Copa da Liga por conta das ofensas racistas promovidas por seus torcedores na final do torneio contra o Lens. Em vez de se curvar e voltar atrás, a FFF continuou firme em sua postura, mantendo sua coerência.

Apenas para refrescar a memória, o PSG derrotou o Lens na final da Copa da Liga por 2 a 1, mas o fato mais importante não foi a conquista da taça, muito menos a classificação do time da capital para a Copa Uefa. Um grupo de torcedores estendeu uma faixa nas arquibancadas do Stade de France com ofensas aos habitantes do norte da França – região na qual se localiza a cidade de Lens. Logo se comprovou o envolvimento dos Boulogne Boyz, grupo de ultras do PSG, que acabou dissolvido após o incidente. Como castigo, o time não disputará a próxima edição do torneio, em uma medida bastante lógica.

O CNOSF havia considerado a punição severa demais e propôs uma punição alternativa. Pela idéia do órgão, o Paris Saint-Germain deveria atuar em uma de suas primeiras partidas da Ligue 1 com portões fechados. Sem dúvida, caso a FFF acatasse tal medida, seria como reduzir a pena de um condenado por um crime hediondo de 30 anos de prisão para um simples cumprimento de serviços à comunidade, com o simples pagamento de algumas cestas básicas. Felizmente, o conselho federal da entidade rejeitou a idéia e manteve o castigo inicial.

Enquadrar uma ofensa como ‘pedófilos, desempregados e consangüíneos’, como parte dos torcedores do PSG se referiu a seus compatriotas, na mesma categoria de lançamento de um sinalizador em campo, cuja punição seria a mera perda do mando de campo, soa ridícula, para não dizer lastimável. Enquanto não houver castigos rigorosos contra quem promove este tipo de discriminação, a intolerância já tão comum na França passará a ser algo do dia a dia, com o qual todos se acostumam e nem ligam mais. Deixar de se chocar com um ato repugnante desta natureza seria assinar um atestado de ignorância.

Há quem possa levantar a bandeira de que o clube não tem absolutamente nada a ver com o caso e, por isso, estaria livre de qualquer condenação. Errado. Sem rigor, dentro de um limite, ninguém se mexe ou dá atenção. Estabelecer uma multa de valor desprezível, como em diversos casos de ofensas raciais ocorridos no futebol espanhol, serve apenas de fachada, uma passada de mão na cabeça do infrator. Fingir um castigo significa fingir um combate, e nada se resolve.

A exclusão do PSG da Copa da Liga, e sua posterior confirmação pela FFF, ao menos prova o empenho da entidade em querer dar o exemplo para extinguir um mal arraigado em grande parte da sociedade francesa. Claro, o pensamento xenofóbico e intolerante não desaparecerá apenas com punições a clubes e torcidas, mas serve como ponto de partida e um exemplo a ser seguido por outros setores.

O caso Puygrenier

O Saint-Etienne estava todo pimpão por conta da possibilidade de reforçar seu elenco com Sébastien Puygrenier. O defensor, um dos destaques do Nancy na temporada passada, estava com praticamente tudo certo para se transferir para os Verdes. O ASSE anunciou a chegada do jogador com orgulho, mas a euforia se transformou em frustração em questão de apenas algumas horas. Puygrenier não iria mais vestir a camisa da equipe, mas sim a do Zenit St. Petersburg.

Traição? O Saint-Etienne considera que Puygrenier o enganou direitinho. O clube já tinha acertado tudo com o Nancy e esperava que o jogador comparecesse ao clube para realizar exames médicos, mas daí veio a bomba de sua polêmica escolha pelos atuais campeões da Copa Uefa e do Campeonato Russo. Os Verdes reclamam de terem fechado um compromisso verbal com o defensor, que não foi respeitado.

A equipe francesa sabia do interesse do Zenit, e também estava ciente de que o jogador havia viajado para a Rússia para ouvir a proposta do clube. Puygrenier passou dois dias em São Petersburgo, conheceu a estrutura da equipe e, enfim, decidiu que seu futuro não estava no Geoffroy-Guichard. Durante todo o tempo, o Saint-Etienne tinha consciência do que se passava e confiou na palavra do atleta; os Verdes apenas se esqueceram de que negócios falam mais alto do que qualquer promessa verbal.

Agora, o ASSE acusa Puygrenier de traidor, classifica sua atitude como “falta de respeito e de consciência moral” e o acusa de “não oferecer maiores detalhes sobre a oferta proposta pelo Zenit”. O defensor agiu de forma equivocada por se comprometer com o Saint-Etienne em um primeiro momento e, na última hora, mudar completamente o tom do discurso. No entanto, os Verdes também tiveram sua parcela de culpa na perda do atleta. Ninguém mandou esperar tanto tempo inerte, sabendo do interesse do clube russo, sem tomar qualquer atitude para interferir.

De nada adianta chorar pelos cantos e reclamar de como a vida é cruel. O Saint-Etienne falhou ao não ir além em sua proposta e deixar tudo vago, sem qualquer garantia real. Nenhum jogador se sente firme o suficiente para fechar uma transferência para uma equipe na qual fica sem saber direito como as coisas serão. O Zenit apresentou sua oferta ao Nancy, maior do que a feita pelo ASSE, apresentou sua infra-estrutura a Puygrenier e lhe explicou em detalhes como seria seu contrato. Enquanto isso, os Verdes divagavam sobre como seria magnífico vê-lo em campo. Quando acordou de seus devaneios, já era tarde demais.
 

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Equipe Trivela

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